Uma costuma pensar que, ao cruzar a fronteira dos trinta anos, certas batalhas ficam definitivamente atrás. Assume-se que as hipotecas, o estrés trabalhista ou a conciliação substituirão aos dramas adolescentes. No entanto, para uma percentagem a cada vez maior da população, o espelho devolve um reflexo desconcertante.
Não é uma rareza médica nem um retrocesso no tempo. Segundo detalha a doutora Andrea Huerta-Veia, especialista do Serviço de Dermatología do Hospital Ruber Internacional e da Clínica Dermatológica Internacional (CDI), "o acné adulto pode aparecer pela primeira vez após os 25 anos (acné de início tardio) ou persistir desde a adolescência (acné persistente)".
As cifras que maneja a especialista falam por si sozinhas: "O acné afecta até ao 26% das mulheres e 12% dos homens em seus 40 anos".
A tiranía da "zona Ou"
O que resulta mais frustrante para muitos pacientes é seu aparecimento abrupto. "O acné pode ocorrer na idade adulta, inclusive em pessoas que nunca tiveram acné durante a adolescência. Este fenómeno tem aumentado nos últimos 30 anos, principalmente em mulheres".
Que distingue a este brote tardio do típico sarpullido juvenil? O primeiro grande mudança é o mapa do rosto. "O acné adulto tende a localizar-se predominantemente nas bochechas e a linha mandibular (a conhecida como "zona Ou") , enquanto o acné adolescente afecta mais a zona T (frente, nariz)", explica a experiente.
"Os andrógenos sempre estão por trás da causa do acné"
"O acné adulto, ao ser muito inflamatorio, apresenta com maior frequência pigmentación e cicatrices deprimidas (quase a metade dos pacientes)". Ainda que a nível patogénico compartilham mecanismos —como a hiperplasia sebácea ou a colonização bacteriana—, a origem hormonal difere. "O acné nos adolescentes responde a uma alteração hormonal fisiológica pelo desenvolvimento. Estas alterações hormonales são autolimitadas, no momento que se complete a pubertad. No entanto, em adultos, há uma alteração hormonal que tende a persistir", puntualiza.
E nesse motor hormonal, há um claro protagonista. "Os andrógenos sempre estão por trás da causa do acné. Em ocasiões, até um 50%, podemos objetivarlo numa analítica. A origem dos andrógenos pode estar numa hiperproducción por parte dos ovarios, das glándulas suprarrenales ou inclusive a nível da pele". Estas hormonas, detalha a dermatóloga, "estimulam as glándulas sebáceas e a hiperqueratinización folicular, processos centrais na patogénesis do acné".
"Quando há causas hormonales mais graves, o acné vai acompanhado além de outros sintomas como refinamento e queda de cabelo, aparecimento de vello em zonas tipicamente masculinas, acné recidivante, acné tipicamente distribuído na zona Ou da cara. Sempre que vemos acné em adultos ou alguma destas características, devemos pedir uma analítica com níveis de hormonas", sugere a doutora.
Estrés psicológico
Se a genética e as hormonas carregam o arma, o estilo de vida moderno é, com frequência, quem aperta o gatillo. Vivemos em era-a da hiperconexión e a ansiedade, e a pele é a tela onde se refletem nossas tensões.
"O estrés psicológico elevado aumenta 2,95 vezes o risco de sofrer acné adulto", aponta Huerta-Veia. A explicação é puramente biológica. O estrés activa um complexo mecanismo na pele (o eixo CRH-POMC-ACTH) que induze respostas inflamatorias. Se a isto lhe somámos o sedentarismo severo e a falta de sonho, temos a tormenta perfeita. Pelo contrário, o exercício regular actua como um escudo protetor.
O mito do chocolate
E depois está a dieta. Quem não tem escutado alguma vez que comer chocolate produz grãos? "Não é completamente um mito, mas o problema não é pelo cacau como tal", aclara a especialista.
"A evidência sugere que as dietas de alto ónus glucémica, produtos lácteos (especialmente leite descremada), bebidas azucaradas e produtos grasos e azucarados estão associados com acné adulto. Estes alimentos aumentam IGF-1 e insulina, estimulando a produção de sebo e andrógenos".
O erro de reventar grãos
O desespero leva com frequência a cometer atrocidades cosméticas. Na tentativa de "secar" o brote, o consumidor agrava o problema. "Os erros mais comuns incluem usar exfoliantes e lavagens abrasivos ou excessivos que causam irritação e danifiquem a função barreira cutánea; usar múltiplos produtos sem supervisão que podem causar incompatibilidade química ou irritação; e a manipulação/extracção de lesões que pode piorar a inflamación e causar cicatrices", lista.
O veredicto sobre reventar grãos em frente ao espelho não deixa lugar a dúvidas: "Reventar grãos em casa aumenta o risco de hiperpigmentación postinflamatoria e cicatrices permanentes".
Prevenir e tratar o acné adulto
"Para acné leve-moderado, com tratamentos tópicos pode ser suficiente. Os mais eficazes são combinações de retinoides tópicos", indica Huerta-Veia. "Para acné moderado-severo normalmente precisamos tratamentos orales, principalmente com retinoides orales. Pontualmente será necessário também antibióticos orales para reduzir a inflamación, e em caso de acné adulto em ocasiões é necessário utilizar antiandrógenos (não têm por que ser anticonceptivos orales). O laser e as luzes LED podem ajudar a reduzir inflamación e tendência às cicatrices", comenta.
Para as temidas manchas escuras que deixa o brote, a doutora aconselha usar protetor solar de amplo espectro SPF ≥30 diariamente (especialmente com óxido de ferro que bloqueia luz visível) e ativos como el ácido azelaico. Se a mancha persiste, os dermatólogos recorrem a despigmentantes potentes, peelings ou terapias laser.
O acné não é um defeito pessoal
Ainda que a doutora reconhece que "a prevenção completa não é possível devido ao forte componente genético", anima a adoptar hábitos que mitiguem o impacto. "Pode-se reduzir o risco mediante o manejo do estrés, exercício regular, evitar comportamento sedentario prolongado, manter horários regulares de sonho, dieta equilibrada baixa em produtos lácteos e alimentos de alto ónus glucémica, evitar cosméticos comedogénicos e não fumar".
"O acné adulto é uma condição médica tratable, não um defeito pessoal", sentencia a doutora Huerta-Veia. "Os efeitos psicológicos do acné são comparáveis a doenças crónicas como asma, artritis ou epilepsia, e estão associados com maior risco de ansiedade, depressão, baixa autoestima e inclusive ideación suicida", conclui.