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Alberto Simoncini: "Passar três horas em redes sociais modifica a estrutura do pensamento"

O terapeuta e autor do livro 'A coragem de romper-se' adverte sobre os riscos para a saúde de alguns hábitos de consumo generalizados

Teo Camino

El terapeuta especializado en pérdidas y duelos Alberto Simoncini muestra su libro El coraje de romperse FACEBOOK

Depois de publicar 21 duelos: conversas com a dor (2022), o terapeuta especializado em perdas Alberto Simoncini regressa às livrarias com A coragem de romper-se. "Um conflito é como uma ferida na pele: se não o cuidas infectar-se-á", se pode ler em seu manual de reconstrução de vidas rompidas.

Entrevistamos-lhe para afundar nos caminhos do autoconocimiento e descobrir as ferramentas que tem o ser humano para transformar o sofrimento, a ira e o medo em valiosos aliados à hora de recuperar a serenidad.

--De onde sai essa força que têm alguns para dizer 'sim' à vida em momentos de dor e medo?

--Esta força é uma reacção fisiológica que se dá e que nos impede suicidar em vários momentos da vida. Mais de uma vez podemos formular frases tipo: 'Ufa, se isto passar-me-á a mim não faria sentido minha vida'. Gosto de pensar que o sentido da vida é o amor. A vida que não tem amor não faz sentido. Parte do caminho de reconstruir uma vida com sentido significa voltar a sentir que podemos amar e nos sentir amados. Vejo-o em terapia quando as pessoas dizem: 'Faz dias que não choro e me fixei no bonitas que são as flores do parque de adiante de casa'. Esta pessoa está-se re-apaixonando da vida.

--Amor no sentido mais amplo da palavra?

--Sim, pela vida em general. Uma pessoa pode dizer: 'Tenho perdido a meu filho ou a meu casal, perdi-o tudo, mas me quero. Quero-me porque, apesar de tudo, gosto quando sento deste amor e volto a encontrar o sentido'. Este mecanismo é automático. Quando tudo vai bem, damos por facto que não viveríamos sem essa pessoa. Depois, quando passa, estamos construídos para sobreviver a tudo.

--Todo depende de como te tomes o que te está a passar? Da resiliência, a atitude e a força de vontade que ponhamos nesses momentos difíceis?

--Há vários factores que podem coincidir no que é um final ou uma deconstrucción. Em primeiro lugar, nossa narrativa pessoal, o que nos contamos sobre nós mesmos. Nossa atitude em general. Como vamos pela vida? A vida é uma maravilhosa aventura e de vez em quando faz dano ou a vida é uma mierda e tem que me demonstrar que me quer? E depois as conexões. As relações com os demais. As pessoas que estão sozinhas ou têm relações tóxicas vivem a situação de perda de uma maneira desesperante. Esta gente procura ao terapeuta porque não tem a ninguém perto com quem poder falar.

O livro 'A coragem de romper-se', de Alberto Simoncini / AS

--"Quando aprendas a não competir, ganharás. Quando aprendas a te render, voarás. Quando tenhas a coragem de te romper, saberás te reconstruir", se pode ler em seu livro, e soa genial, mas muitas pessoas acham que perder é de perdedores, se render de débis e se romper de fracassados…

--Claro. Todos nos esforçamos para chegar a ser alguém. Sento-me bem porque tenho conseguido ser alguém na empresa. Mas as culturas antigas ensinam-nos que quanto menos somos, melhor vivemos. O ideal seria não ser ninguém. Porque ser ninguém é ser livre. Não tens que ter nenhuma máscara nem cumprir com as expectativas dos demais. A filosofia zen indica que, se estás num rio, podes nadar a contracorrente, mas, se o fazes, seguramente te faças dano. Na vida sucede o mesmo. Ainda que possamos opor-nos de primeiras a determinados acontecimentos, temos que fluir. Uma das melhores metáforas é a do boxeador.

--Em que consiste?

--Um bom boxeador tem bons punhos e sabe soltar o braço, mas também sabe receber os golpes. Se chega o punho e o boxeador opõe-se, romper-lhe-á a mandíbula. O bom boxeador, quando chega o punho e já é tarde para esquivarlo, se rende ao movimento e o acompanha. Esta é a chave: fazer todo o possível para solucionar as coisas que se podem solucionar, mas não podemos evitar certos golpes.

--A gente prefere escutar passivamente vídeos em TikTok ou a última série de Netflix a suas emoções activamente?

--Por suposto. Há um componente compreensível a nível biológico. Não queremos sofrer. Também não queremos ver à gente sofrer. Evitamos o sofrimento. Por outro lado, as redes sociais são grandes activadoras do ego, da estrutura que domina nosso pensamento. O ego funciona por referências, por etiquetas. Sempre o etiquetamos tudo. Sempre preferimos. Então, quando passa algo que não preferimos, sofremos. E nas redes sociais sempre podes passar a outra coisa. Nunca estás obrigado a olhar algo. Mas a vida não é assim. Na vida não podes passar e preferir outra situação. Isto explica porque tantas pessoas fazem ghosting.

--Por que a gente faz ghosting?

--Em lugar de fazer scrolling para passar a outra fotografia, passam a outra situação e desaparecem. O ghosting é típico de nossa época. Acostumámos-nos a ter o poder, em 200 canais de televisão e nas redes sociais, a eleger entre o que gostamos e o que não. Eu elejo. E o mesmo fazemos nas relações humanas. Não gosto o que me disseste? Apago-te e vou-me. Já não nos enfrentamos a discussões adultas e argumentadas. Já não te amo? Pois vou-me. Fugimos constantemente.

--"A cultura do consumo ensinou-nos que podemos ser felizes comprando"...

--Eu me esforço por tirar a palavra felicidade de qualquer discurso. Prefiro falar de serenidad, de ausência de conflito. Com a felicidade equivocámos-nos durante anos e anos. Confundimos felicidade com satisfação. Quando me compro um carro novo não sou feliz, sento satisfação. E quando passem seis meses, dar-te-á igual e quererás outro modelo. Já não estarás satisfeito. Dizemos que temos uma vida feliz porque estamos satisfeitos, ou que temos uma vida infeliz quando é uma vida de insatisfação porque não posso ir de férias ou me comprar um carro novo. A felicidade real surge do dar e do compartilhar, nunca de receber.

--Estamos mais conectados que nunca e mais sozinhos que nunca, e a solidão aterroriza a muitas pessoas…

--Numa das histórias que conto no livro falo de Antonio, um importante sumiller espanhol que se foi viver à Índia. Antonio fez-me um presente no dia de meu aniversário. Disse-me: 'Vou chamar-te, mas não falaremos'. Estivemos quinze minutos ao telefone em silêncio. Ao final, pusemos-nos a rir e cumprimentamos-nos. Leste foi seu grande presente de aniversário. Com seu presente disse-me: 'Estou, mas não vamos rechear o vazio deste silêncio tão importante'. Precisamos estes momentos. Precisamos momentos para valer, de estar contigo mesmo, e te dar conta de como te sentes e do que pensas, sem que nada externo interfira. O silêncio e uma solidão procurada podem ser muito úteis. Em mudança, uma solidão não desejada pode ser uma tortura. Pensar que ninguém pensa em ti é como estar morrido em vida. Voltamos à importância das conexões e relações pessoais.

--Quais seriam os passos a seguir durante o duelo?

--Ao princípio, uma das coisas mais importantes é encontrar a alguém que ajude com os temas práticos e burocráticos. O melhor é pedir ajuda. Podes-me acompanhar por correio? Fazes-me companhia em casa sem falar? Podes dormir comigo em casa porque me sento sozinho? O prático. E depois há que fazer um processo delicado de aceitar o sofrimento na vida, que pode ocupar as 24 horas durante os primeiros dias: chorar, maus pensamentos, dor generalizada. Quando choras, dói tudo. A partir daí sempre recomendo procurar ajuda externa. Por que? Porque há coisas que não se têm que contar às pessoas que amamos. O que faz a terapia é salvar nossas relações mais importantes de amizade e familiares. Se não, é provável que se rompam estas relações. Se um amigo chama-te a cada semana para falar do mau que está, à terça não apanhar-lhe-ás o telefone.

--É fácil superar um duelo agradecendo, trabalhando a respiração e meditando com mantra?

--Não é fácil. Não é fácil porque estamos muito afastados destas práticas. Mas, desde faz 3000 anos, sabemos que estas práticas ajudam a acalmar a mente. A mente é maravilhosa e é diabólica. Se eu agora te digo: 'Faz favor, promete-me que não vais pensar num plátano azul'. Zás! Aí ten-lo. A mente é como um macaco que vai por trás de um plátano ali onde o atires. A mente vai. Por isso estes exercícios nos ajudam a entender que a mente se pode educar. Isto não significa que não vamos sofrer. Isto significa que posso reconhecer que tenho pensamentos que activam emoções. E se não tenho estes pensamentos, não vou ter estas emoções. Por que viver o momento presente? Porque quando vives o presente a mente não faz nada. Mas se pensas no passado a mente activa-se para recolher memórias. Quando acalmo a mente, respirando devagar, passeando por um parque, fazendo movimentos muito lentos, te sentes melhor. O mantra, que significa ferramenta para ajudar ao homem.

--E quando é o momento de passar à acção?

--Quando tocamos fundo é quando podemos apanhar impulso para saltar. Há um ponto no que tocas fundo e começas a saltar. O problema é se tocas fundo e não te levantas. Pode supor um estado de depressão profunda sem acções para sair daí. Há uma voz interna que te diz: 'Procura ajuda'. Pensa no desporto. Imagina que jogas a tênis e te oferecem dez classes com Nadal ou Federer. Se faze-las, jogarás melhor não? Se tens a alguém experiente a teu lado, chegarás dantes ao seguinte nível. Se procuro a alguém que me treine, sairei dantes. O terapeuta é um treinador que te prepara para lidiar com o sofrimento arranjando as memórias do ontem e preparando para o dia a dia. O que tem que sair de um mesmo é 'quero estar melhor'.

--Às vezes, investimos muitas horas no trabalho, no gimnasio e em frente ao televisor, e esquecemos-nos de cultivar a mente.

--E se acrescentamos dois, três ou quatro horas nas redes sociais olhando tolices… Isto afecta. Têm demonstrado que afecta como o porno. Modifica a estrutura do pensamento e é realmente daninho. Deveríamos fazer mais trabalho interior, mas não se fala nunca disso. Os que fazem um retiro espiritual, meditam e fazem práticas, mas, no dia a dia, quanta gente faz algo assim? Muito pouca. Que supõe isso? Que a mente não está acalmada, que está lista para saltar por trás de qualquer pensamento. Durante o dia, temos muitos pensamentos que não são nossos e emoções relacionadas com estes pensamentos que também não o são. Quanta gente sofre e passa no dia chorando pela guerra de Ucrânia, a invasão de Gaza e o que tem passado em Valencia? Muita gente tem-se deprimido com este palco. É o poder da evocación. E é bonito ser empáticos, mas se entro em depressão porque vejo imagens de Ucrânia e dos russos seis horas ao dia é que algo não funciona bem.

--Que têm em comum o consumo de pornografía e o de redes sociais?

--Ambos proporcionam uma satisfação imediata. As redes sociais fomentam o fico com o que me satisfaz. Fazem que o tempo todo procuremos a dopamina e isto nos volta adictos. Quanto ao porno, mais do mesmo. Tu não vais pela rua e te acoplas com qualquer homem ou mulher que gostes. Não. Há que conhecer, seduzir… Os processos humanos são mais longos. Os processos das redes sociais e do porno que vivemos desde faz uns anos no dia a dia são falsos, não são normais, e fazem que o cérebro não entenda o que está a passar. É como jogar no casino ou nas máquinas tragaperras. Se jogas bem, vontades 500 euros ao momento e não tens que trabalhar. Quero-o já. Não. Os tempos da natureza são bem mais lentos que os nossos de agora.

--Como se aprende a ser forte mentalmente? Chorando, soltando, sentindo, caindo-se e voltando-se a levantar?

--Temos que fazer as pazes com a vida, porque é a vida a que nos tem a nós. A vida seguirá quando nós não estejamos. Temos uma experiência de vida. Quando enfermemos ou um carro nos aplaste, minha experiência dentro da vida acabar-se-á. A vida não é Disneyland, e isso que nós somos muito afortunados se nos comparamos com o dia a dia de outras populações do planeta. Nós vivemos num pequeno Disneyland. Há problemas com o aluguer, sim, mas há conflitos bem mais graves. A força é sair da vida e saber que implica bofetadas, muitas vezes, e que sempre pode ir pior. Quando assumo isto como uma verdade, estou preparado. Quando precisamos coragem? Para beber um copo de água? Não, porque não te dá medo. Mas dar-te-ia medo passear descalzo sobre umas brasas… Sim, tens-te de armar de coragem. Onde há coragem, dantes tinha medo. Sempre. Uma pessoa que tem coragem tem tido que passar por muitos medos, os transformou e tem feito as pazes com eles. Entendeu-os e armou-se de coragem. Quando temos coragem, somos mais fortes. Por que? Porque estamos dispostos a enfrentar aos medos. Os opostos unem-se.

--"Minha filha veio a viver conosco nove anos maravilhosos. Eu me considero afortunado. Muito afortunado. Temos mil lembranças dela", relata Luis Enrique, o treinador do PSG, sobre o fallecimiento prematuro de sua filha…

--É um exemplo maravilhoso, mas isto não é o que sucede ao dia seguinte. É fruto de um trabalho interior muito profundo, de horas de reflexão sobre a vida e a morte. Muitas vezes faço a seguinte pergunta às pessoas que estão em terapia: 'Voltarias a ter a teu filho ainda sabendo que morreria com 9 anos?". A resposta sempre é sim, voltaria. Voltaria ainda sabendo todo o que vou sofrer. Quando aceitas isto, quando aceitas o sofrimento, gostarás de recordar o passado com alegria. Como? Educando a mente para saber que não vou ter a minha filha no futuro, mas que tenho toneladas de lembranças maravilhosas e quero empaparme dessa felicidade que tive. Sempre recordará que tem morrido, mas um pode chegar a sentir que a pessoa perdida segue viva dentro de si. Em realidade, a morte é uma pura ilusão. Neste momento tu me estás a ver, mas minha imagem se dá dentro de tua percepção interna. A percepção interna é o processo que se dá graças aos sentidos. Quando estás com teu casal, em realidade, todo o que processas está a passar dentro de ti. Quando a pessoa de fora morre e o corpo morre, podemos assumir que será mais complicado gerar novas memórias, mas a pessoa seguirá vivendo em tua percepção interna, que é onde sempre tem estado. E inclusive podes seguir amando-a, ainda que esse alguém tenha perdido o corpo. Esse é o lugar mágico, a percepção interna, onde se faz o trabalho de aceitação. O de fora faz muito dano. Onde posso encontrar paz e serenidad? Dentro. Que há dentro? Todo mundo. Toda minha vida. Há que procurar um equilíbrio entre ambos mundos.