As carteiras de nicotina converteram-se numa nova ameaça para a saúde pública global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem lançado uma séria advertência depois de detectar um crescimento explosivo deste mercado: as vendas mundiais aumentaram um 50,5% em só um ano, atingindo em 2024 os 23.462 milhões de unidades vendidas.
A OMS denuncia que por trás deste auge estão as grandes multinacionais tabaqueras e novas empresas emergentes que procuram compensar a queda do consumo de cigarros tradicionais apostando por produtos alternativos como cigarros eletrónicos, fumo aquecido e agora carteiras de nicotina.
Que são as carteiras de nicotina
As carteiras de nicotina são pequenas bolsitas que se colocam na boca para libertar nicotina por via oral. Costumam conter nicotina sintética ou derivada do fumo, além de fibras vegetais, saborizantes, edulcorantes e agentes químicos que potencian sua absorção.
Os experientes advertem de que muitos fabricantes estão a aumentar as concentrações de nicotina e incorporando inovações químicas para acelerar sua absorção, o que incrementa ainda mais o risco de dependência. "A nicotina é um veneno e quando entra no corpo é tóxico", advertiu Ranti Fayokun, cientista da Iniciativa Livre de Fumo da OMS.
O consumo entre adolescentes multiplicou-se
Um dos aspectos que mais preocupa às autoridades sanitárias é o crescimento entre menores e jovens adultos. Em Estados Unidos, o consumo entre adolescentes dentre 13 e 20 anos e jovens dentre 21 e 27 anos quase tem-se cuadruplicado entre 2022 e 2025. Em Reino Unido também se observa uma forte subida: entre os jovens de 16 a 24 anos, o consumo passou de 0,7% em janeiro de 2022 ao 4% em março de 2025.
A OMS considera que este aumento está directamente relacionado com campanhas de marketing desenhadas especificamente para atrair a menores.
Influencers, redes sociais e publicidade encoberta
O relatório denuncia que as empresas utilizam estratégias similares às que impulsionaram o auge dos cigarros eletrónicos. Entre as tácticas detectadas destacam a promoção em redes sociais, o uso de influencers, a publicidade em festivais de música, os patrocínios desportivos e mensagens que vinculam o consumo com sucesso social, viagens, desporto e relações pessoais
Ademais, muitos anúncios vendem a ideia de que estas carteiras podem utilizar em "qualquer momento" porque não geram fumaça nem cheiro, algo que segundo a OMS debilita as políticas de espaços livres de fumaça.
Sabores doces e embalagens que imitam caramelos
Outro dos pontos mais alarmantes do relatório é o desenho destes produtos.
Muitas marcas comercializam sabores como:
- Chicle
- Frutas
- Menta
- Caramelo
- Mojito
- Bourbon
- Cerveja
A OMS denuncia que algumas embalagens inclusive imitam golosinas e caramelos, o que pode gerar confusão em meninos pequenos e aumentar o risco de consumo acidental.
Os efeitos da nicotina em jovens e grávidas
Os experientes recordam que a nicotina pode provocar graves consequências para a saúde, especialmente em população vulnerável.
Entre os principais riscos destacam as alterações no desenvolvimento cerebral de adolescentes, maior risco de vício temporão, problemas cardiovasculares, impacto negativo na saúde mental e danos no desenvolvimento fetal durante a gravidez.
Vazio legal: só 16 países as proibiram
Pese ao crescimento do mercado, a OMS alerta de que existe um importante vazio regulamentar. Actualmente, só 16 países têm proibido a venda de carteiras de nicotina, enquanto em grande parte do mundo sua regulação segue sendo inexistente ou muito débil.
Ante esta situação, o organismo internacional reclama aos governos actuar de forma imediata com medidas mais estritas:
- Proibir sabores atraentes para menores
- Vetar publicidade e influencers
- Eliminar patrocínios desportivos
- Limitar a concentração de nicotina
- Exigir advertências sanitárias visíveis
- Restringir a venda on-line
- Reforçar controles para impedir o acesso a menores
"Uma acção urgente, coordenada e sustentada é fundamental para proteger às gerações atuais e futuras do vício à nicotina", conclui o relatório.