Viver em era-a do autocuidado converteu-se num dos filões mais rentáveis para a indústria cosmética. Nunca dantes tínhamos estado tão concienciados da importância de cuidar nosso corpo -por dentro e por fora-, em grande parte impulsionados pelo auge das redes sociais. Basta com passar uns minutos em plataformas como TikTok ou Instagram para se encontrar com rotinas de skincare intermináveis: sérums, vitaminas, tónicos, cremes, azeites, mascarillas, parches, máscaras de infravermelhos para a luminosidade e um sinfín de aparelhos que prometem um cuidado de dentro para fora.
É por isso que o mercado cosmético está tremendamente saturado de marcas e produtos. Algumas com promessas mais acertadas que outras mas, sobretudo, com uma grande variedade de preços. Na maioria dos casos, os consumidores pensam que pagar mais por um creme implica mais eficácia e melhores resultados mas não sempre é assim. Consumidor Global tem entrevistado a Claudia Sánchez, CEO de Ownia Cosmetics e farmacêutica. Da mão desta experiente revelamos as chaves para entender as etiquetas dos cosméticos, até que ponto o preço determina a eficácia de um produto e a realidade por trás de algumas tendências como a cosmética natural.
--Por que decidiu criar Ownia Cosmetics?
--A marca nasce de uma combinação de experiências tanto pessoais como profissionais. Venho de uma família vinculada ao mundo farmacêutico e sanitário e sempre tenho tido muito presente a importância de entender a saúde e a pele. A pele é um ecossistema complexo no que convivem milhões de microorganismos que influem directamente em nossa saúde. Entender esse equilíbrio tem sido chave para definir a filosofia da marca.
--A cada vez há mais marcas cosméticas no mercado. Que diferença real há entre marketing e evidência científica em cosmética?
--Todas as claims que aparecem no produto têm que estar avaladas por estudos. Nós realizamos estudos em fórmula final, que isso muito poucas marcas o fazem. É verdade que os provedores têm estudos em ingredientes mas para que como marca possas dizer que uma fórmula faz algo específico, tens que fazer um estudo clínico dessa fórmula.
--Num mercado tão saturado de marcas, também vemos grandes diferenças de preços entre produtos aparentemente muito similares. O preço em cosmética está relacionado com a eficácia real do produto?
–Depende da marca. Deveria ser assim, que o preço estivesse relacionado com a eficácia, mas é verdade que há marcas que têm muitíssimo investimento em marketing e o têm que monetizar de alguma maneira. Os ingredientes e a concentração influem muito na eficácia, por isso acho que é importantíssima conhecer o tipo de ingrediente que precisa a cada pele. Quanto maior concentração, mais caro vai ser o produto. O etiquetado pode dizer que contém vitamina C e de repente que este ingrediente esteja na última posição da lista. Isso quer dizer que leva muito pouca concentração mas to estão vendendo como um produto muito potente de vitamina C a um preço muito elevado, por exemplo. O marketing é uma grande parte do preço. As campanhas publicitárias, os influencers, a imagem e o funcionamento da marca têm um custo que se reflete no preço final. O preço de um cosmético, ainda que não deveria ser assim, não determina sua eficácia. O importante são os ingredientes ativos, sua concentração e a formulação. Podes encontrar produtos baratos, muito eficazes e produtos carísimos que não fazem muito.
--Muitos consumidores sentem-se perdidos quando lêem um etiquetado repleto de ingredientes. Que elementos devem priorizar?
--O primeiro é informar-se bem de que ativos precisam para esse tipo de pele. Por exemplo, procurar o nome científico de uma niacinamida ou uma vitamina C para poder identificá-lo nesse etiquetado. Também é importantíssimo a ordem no que se apresentam os ingredientes. Os que aparecem em primeiro lugar são os que maior concentração têm. Muitas vezes no packaging indica: 'produto com vitamina C'. Mas de repente vês que a vitamina C está ao final desta lista. Isso quer dizer que a concentração é muito baixa e que praticamente não está a fazer nada. Também é importante fixar no perfume, é o que normalmente costuma estar em menores concentrações e todo o que está por trás desse perfume não te vai fazer nada na pele. De modo que primeiro há que fazer uma busca de que ingredientes precisas, ver como se traduz esse ingrediente no etiquetado e revisar seu posicionamento no etiquetado.
--Como podemos identificar as necessidades da pele sem ir a um dermatólogo?
--O primeiro é identificar o tipo de pele. Para isso há que observar a dermis após a lavar com um limpiador suave. Se aparece a sensação de tensão, a pele precisa uma hidratación mais intensa. Nesse caso, precisaria produtos com ceramidas, azeites, ácido hialurónico… No caso de que se observe um brilho excessivo ou poros muito dilatados, se trata de pele gordura e precisa um controle de sebo com ingredientes como a niacinamida, ácido salicílico… Se após lavar a pele, a zona da frente, nariz e barbilla está mais gordura mas as bochechas mais secas, pois é uma pele mista. Precisa uma hidratación mais ligeira mas com um controle de gordura. Se a pele se enrojece, pica, arde ou reage facilmente aos produtos, é uma pele mais sensível e precisaria produtos calmantes. Esse é o truque. Com isso já sabes mais ou menos o 80% do que tua pele pode chegar a precisar.
--Vemos em redes como as rotinas de skincare se alongam com muitos produtos. Realmente precisamos tantos passos ou é uma tendência de mercado?
--Claramente é uma tendência de mercado. A maioria das rotinas que vês em TikTok ou em outras redes sociais têm entre oito e dez passos. O que precisa a pele é uma boa limpeza, um tratamento em função do tipo de pele que tenhas e protetor solar. Isto seria o básico. Depois podes incluir outro tipo de produtos mas só há que priorizar limpiador, tratamento e protetor solar.
--Quais são os erros mais comuns que cometemos ao cuidar nossa pele?
--Os erros mais comuns que estou a ver são fazer rotinas que vês em redes sociais ou que te recomendou tua amiga. Não sabes se tens o mesmo tipo de pele que tua amiga ou a tiktoker e te acabas destroçando a pele por utilizar produtos que não são adequados para ti. Outro erro é usar demasiados produtos, que ao final acabam causando irritação, brotes inesperados e danificando a barreira cutánea. Outro erro é não utilizar protetor solar todos os dias. É um passo que não deve faltar porque sem ele acabam aparecendo mais manchas, se danifica o colágeno e se produz um envejecimiento prematuro. Outro erro é não desmaquillarse dantes de se ir a dormir ou desmaquillarse com toallitas bem como exfoliar demasiado a pele. Quanto mais exfolias, melhor achas que vai estar tua pele mas é ao revés. O excesso de exfoliación causa sensibilidade, brotes e descamación. Basta com fazê-lo de uma a três vezes à semana.
--Sobre a tendência de cosmética natural, natural significa necessariamente que seja um produto mais seguro para a pele?
--Não. A cicuta é natural e pode-te matar. Natural não significa automaticamente nem melhor nem mais seguro. É um conceito de marketing mais que uma garantia científica. Há alguns ingredientes naturais que podem causar alergias, irritação e fotosensibilidad como por exemplo o azeite essencial de lavanda ou o de limão, a árvore de chá, fragancias naturais… Curiosamente, neste caso, alguns ingredientes sintéticos estão desenhados para ser mais estáveis e menos irritantes. Em dermatología, avaliam-se mais coisas que a origem do ingrediente. A estabilidade, a eficácia, a concentração e um ingrediente sintético pode ser mais previsível na pele.
--Como farmacêutica e empresária, que coisas deveriam mudar na indústria cosmética para que o consumidor esteja melhor informado e melhor protegido?
--A nível de transparência no etiquetado, deveria ser obrigatório indicar no packaging a percentagem dos ingredientes ativos. Outra melhora que proporia seria não fazer sozinho estudos de ingredientes, também de fórmula final. Ademais, deveria ter mais ferramentas de educação acessíveis e que não todo mundo pudesse falar em redes sociais dos produtos de cosmética e os aconselhar. Ao final a pele é um órgão mais e é importantíssimo conhecer como funciona e não qualquer o sabe, que sejam profissionais da saúde quem estejam detrás informando.