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Andrea Olhou, criadora do primeiro vinho de 9 graus não desalcoolizado: "O sector está em crise"

Conversámos com a primeira viticultora espanhola que conseguiu produzir um vinho de baixo teor alcoólico de forma natural

Teo Camino

A viticultora Andrea Miró observa um dos seus vinhos / JUAN REVILLAS

Chama-se Nakens e pretende ser o primeiro vinho de baixa graduação (9 graus) que não passou por um processo de desalcoolização. É obra da viticultora Andrea Olhou e é feito pela adega Jordi Miró em colaboração com a cooperativa Agrícola Corbera d'Ebre (Terra Alta).

Como é possível? "Escutando a variedade Parellada, que estava esquecida, e adiantando a vindima para setembro", diz Miró no seu estand da Barcelona Wine Week, a feira do vinho que se celebra nestes dias no recinto Montjuïc. No entanto, o lançamento de Nakens, que prometia ser um dos mais interessates de 2025, não teve a acolhida esperada...

--Em 2025, Nakens não chegou a vender-se em supermercados…

--Falámos com todos os supermercados espanhóis e deparámo-nos com uma situação um pouco estranha. "É um vinho?", perguntavam-nos. "Sim, é um vinho". Então, se o colocarmos junto dos vinhos, é mais um vinho. Embora seja um vinho com características especiais. "Sim, mas não é sem álcool, e como não é sem álcool, não o podemos colocar nas prateleiras dos produtos sem álcool", disseram-nos. Como não têm a categoria de baixo teor alcoólico sem desalcoolização, ou simplesmente baixo teor alcoólico, e como a prateleira não existe, não souberam onde o colocar e não o venderam. Depois de um ano a tentar, não conseguiram classificá-lo.

Uma garrafa de Nakens, o primeiro vinho de Espanha de 9 graus sem desalcoolizar / ADEGA JORDI OLHOU

--E agora os supermercados continuam igualmente obstinados?

--Sim, porque se tem dado muita ênfase ao vinho sem álcool, que não tem grande rotatividade. Um vinho sem álcool fica aquém das expectativas de um apreciador de vinho, enquanto quem não bebe vinho nem o procura. A categoria também não tem tido muito sucesso e não se soube como posicionar a marca Nakens. Na distribuição, por outro lado, ao explicar o que é, tem funcionado melhor.

--A falta de supermercados, distribuíste-lo em restaurantes e lojas especializadas…

--Exato. De todas formas, estamos num ponto no que o consumo de vinho está a baixar perigosamente. Cada vez a vida é mais cara e o vinho não é essencial. Neste novo palco, nesta crise do sector do vinho, é muito difícil entrar com um produto novo.

--Um vinho de baixa graduação também tem de ter o seu público, não?

--Sim, mas como não é desalcoholizado, não faz sentido. Se fosse desalcoholizado, teria a sua própria categoria. Se estivéssemos numa altura de grande consumo de vinho, com muita rotação, o supermercado experimentaria para ver o que se passa. O problema é que todos os armazéns estão cheios. Se não vendem as garrafas que já têm, como é que vão introduzir mais uma referência? Não se arriscam.

--Quantas garrafas produziram no ano passado?

--Umas 20.000.

--E neste ano?

--As mesmas.

--As do ano passado venderam-se todas?

--Não.

--E neste ano confiam em que sim se vendam?

--Confiamos no projecto. É uma aposta. E no primeiro ano era difícil vendê-lo tudo. No final, é um produto muito novo, mas estamos convencidos de que pode funcionar. O que não podes fazer é abandonar no primeiro ano porque não tiveste muitíssimo sucesso.

--O preço era de 8,25 euros…

--Mantém-se. Não se tocou no preço.

A viticultora Andrea Miró sustenta o seu vinho Nakens / TEO CAMINHO

--Onde podemos comprar uma garrafa de Nakens?

--No site da cooperativa, em hotelaria, na La Vinateria de Hostalric e em Barcelona tentámo-lo, mas não conseguimos que se entenda o produto. Inclusive a legislação não nos permite baixar um vinho por embaixo dos 9 graus. Tecnicamente posso fazer um vinho Parellada de 8 graus sem desalcoolizar, mas a legislação não o reconhece como vinho. Em contrapartida, se for desalcoolizado, sim. Tem-se dado tanta ênfase aos vinhos desalcoolizados que nos esquecemos do vinho. Temos de continuar a lutar.