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Nestlé responde com 'merchandising' ao sofrimento de famílias com bebés hospitalizados por seu leite

Enquanto os bebés eram internados no hospital, a resposta da multinacional foi o envio de um "pacote de presentes" com chávenas de café e brinquedos

Ana Carrasco González

'Merchandising' da Nestlé / @bea marttin - X

Para Xavier e a sua parceira, o primeiro Natal do seu filho teve o apito constante dos monitores, o cheiro aséptico de uma sala de urgências e o medo paralizante que se instala ao ver a um recém nascido ligado a uma via intravenosa. O seu bebé passou sete dias internado, lutando contra vómitos intensos, diarreia persistente e uma sonolencia alarmante que "deteriorava claramente o seu estado geral".

A origem daquele episódio crítico, segundo a cronología clínica e os lotes posteriormente retirados, esteve na ingestão de leite infantil da marca Nestlé, pertencente a lotes que semanas depois seriam objeto de uma alerta sanitário pela presença de cereulida, uma toxina associada à bactéria Bacillus cereus.

O impacto emocional e psicológico

"O impacto emocional e psicológico foi enorme", relata Xavier —nome fictício, identidade real protegida— numa afirmação formal apresentada junto da Organização de Consumidores e Utilizadores (OCU). "O nosso filho passou a sua primeira Véspera de Natal e Natal internado num hospital, com dor e mal-estar, numas datas especialmente sensíveis. Esta situação não só afectou o menor, mas também a ambos progenitores e a s suas famílias, gerando um quadro de stress intenso, angústia constante e uma profunda sensação de impotencia", diz.

O logo da Nestlé na sede da multinacional em Vevey (Suíça) / EFE

Em dezembro, na ausência de uma alerta sanitário pública precoce, os pediatras viram-se obrigados a actuar às cegas. "Bacillus cereus não faz parte dos painéis diagnósticos rotineiros", explica o pai afectado. Esta carência de contexto clínico teve consequências diretas e graves, com estadias hospitalares prolongadas e a reintrodução reiterada do alimento contaminado, o leite infantil NAN Supreme Pro 1 da Nestlé, um produto de gama alta comercializado sob a promessa da "máxima segurança e qualidade nutricional", sob a errónea convicção de que se tratava de um alimento plenamente seguro.

A maior retirada de produtos em toda a história da Nestlé

Esta crise começou no passado 12 de dezembro, quando a Nestlé anunciou a retirada de um lote de leite de fórmula para lactantes, da marca Nidina 1, ante a possível presença da bactéria Bacillus cereus, tal como comunicou a Agência Espanhola de Segurança Alimentar e Nutrição (Aesan).

Quase um mês depois, a 5 de janeiro, a Aesan ampliou a alerta. Segundo a informação facilitada pela própria companhia, em Espanha a retirada afecta já a 36 lotes pertencentes a 16 marcas diferentes de leite de fórmula infantil. Entre eles encontra-se NAN Supreme Pro 1, a marca que consumia o filho de Xavier. Ao todo, os produtos de Nestlé afectados são: Alfamino, Alfamino Junior, NAN AR, NAN Total Confort 1 e 2, NAN Optipro 1 (800 g e 1.200 g), NAN Supreme Pró 1 e 2, Nativa 1, Nidina 1, Nidina Confort Digest e Nidina Confort Digest 1.

A retirada não se limita a Espanha, mas que se estendeu já, pelo menos, a 47 países dos cinco continentes, incluídos 29 países europeus, bem como Austrália, Brasil, Argentina, China, México e África do Sul. Trata-se da maior retirada de produtos em toda a história da empresa.

Os diagnósticos errados

Elena conta que o seu bebé, de apenas dois meses, se esteve a alimentar durante novembro com a fórmula NAN Total Confort, fabricada pela Nestlé. Nesse tempo apresentou diarreias com fios de sangue, perda de peso e outros sintomas alarmantes. Um diagnóstico errado da APLV (alergia à proteína do leite de vaca) desencadeou provas invasivas e extracções de sangue num lactante de apenas oito semanas. "O impacto emocional de assumir um diagnóstico crónico errado é incalculável", lamenta. Só quando a Nestlé retirou o lote afectado que Elena ainda conservava, a verdade veio à tona. Não era o corpo do bebé o que falhava; era o alimento.

Daniel, pai de um bebé que tomou NAN Optipro 1 desde o seu terceiro dia de vida, denuncia que a retirada tardia dos lotes contaminados provocou um diagnóstico errado e meses de mal-estar para o seu filho, com vómitos, deposiciones alteradas e perda de peso. "Desde junho começamos a notar os sintomas. Depois de meses de provas e insistencia, em setembro trataram-no como alérgico à proteína do leite", explica.

A insultante compensação da Nestlé

"As consequências são múltiplas, já que o pequeno teve sempre mal-estar gástrico, fezes incorretas, vómitos e perda de peso, com suplemento", comenta o pai. "Não entendemos como um produto regulado e destinado a menores de um ano não teve controlos durante pelo menos seis meses. Também não entendemos como não iniciaram voluntariamente nenhuma campanha ativa e se está a tentar silenciar o caso, compensando, simplesmente, com a devolução do leite que podemos demonstrar que comprámos", afirma.

"Depois de consumir um lote de leite retirado por contaminação, o meu sobrinho teve salmonelose. A resposta foi ridícula: um reembolso (30 euros) e produtos de merchandising. Falamos da saúde de um bebé", diz Beatriz Martín no X, que tornou pública a resposta da companhia, que inclui uma carta padrão que utiliza uma linguagem corporativa e merchandising (um peluche do Urso Bo, um livro infantil, um termo da Nescafé, etc.): "Lamentamos profundamente o inconveniente (...) Fazemos-te chegar uma atenção que esperamos ser do teu agrado", reza Nestlé.

"Falamos da saúde de um bebé, não de uma incidência comercial", estoira Martín.

Alguns nem sequer recebem o reembolso

A resposta corporativa da Nestlé foi, na palavras dos afectados, "de vergonha". No entanto, alguns não receberam nem o mísero reembolso do produto que danificou a saúde dos seus filhos. É o caso de Pablo que, ao saltar a alerta a 5 de janeiro, seguiu a directriz de saúde e atirou ao lixo as três latas afectadas de NAN Total Confort (de 29,90 euros cada um) que conservava em casa.

Nove dias depois, Nestlé exigiu-lhe fotografias das latas (incluindo o número de lote visível) para proceder ao reembolso. A companhia exige aos pais conservar um produto tóxico nos seus lares como única prova válida para recuperar o seu dinheiro, penalizando quem atuou com diligência eliminando-o. "Esta prática é uma forma de não devolver nem um euro a todos os consumidores afectados", conclui.

Morte de dois bebés por culpa da Nestlé

O que em Espanha é tratado como uma "incidência comercial" relacionada com o envio de peluches, na França assumiu um caráter judicial sombrio. As procuradorias de Bordéus e Angers abriram inquéritos criminais após a morte de dois bebés (um com apenas 14 dias e outro com 27 dias) que ingeriram leites de marcas do grupo Nestlé, como Guigoz e Nidal (ambas vendidas em França).

Embora as primeiras análises em França tenham sido complexas devido à falta de laboratórios de referência para esta toxina específica, a justiça investiga se a presença de cereulida — a toxina do Bacillus cereus — foi o fator desencadeante. A ONG Food Watch já denunciou a "flagrante falta de transparência" da multinacional, acusando-a de realizar retiradas silenciosas e "a conta-gotas" desde dezembro, enquanto milhões de bebés continuavam expostos.

Nestlé responde à Consumidor Global

A Consumidor Global pôs-se em contacto com a Nestlé Espanha para perguntar pelos seus protocolos de compensação, questionando se consideram que o envio de merchandising é uma resposta proporcional ao dano físico e moral dos menores.

"Na Nestlé, a saúde dos bebés é nossa prioridade e não fazemos concessões em matéria de segurança e qualidade alimentar. Em estreita coordenação com as autoridades locais, Nestlé iniciou no mês de dezembro uma retirada preventiva de alguns lotes da sua fórmula infantil", respondem da empresa.

Nestlé, a primeira marca a identificar o problema

"Nestlé adoptou desde o primeiro momento um critério mais restritivo que o estabelecido posteriormente pela EFSA (Autoridade Europeia de Segurança Alimentar). Enquanto a autoridade europeia determinava o nível de concentração de cereulida na fórmula reconstituída, a Nestlé já aplicava um limite interno mais rigoroso, baseado na indetectabilidade", afirmam. 

Sede da Nestlé, em Vevey (Suíça) / NESTLE

Além disso, a Nestlé salienta que foi "a primeira empresa a identificar o problema (semanas antes de outras empresas), a comunicá-lo às autoridades e a alertar de forma proativa e oficial todo o setor, agindo numa questão que hoje afeta muitas empresas".

Nestlé diz que apoia os familiares

"Até a data, não recebemos nenhum relatório médico que confirme uma relação com doenças associadas aos nossos produtos", enfatizam da Nestlé. "As autoridades sanitárias em Espanha destacaram que não se detectou um aumento incomum de diarreias associadas a estes produtos, nem se encontraram níveis de toxina nos menores, cujos sintomas encaixam também com processos digestivos comuns em lactantes", acrescentam.

"Durante todo este processo, trabalhámos com total transparência com as autoridades e os clientes, e prestámos apoio a famílias e cuidadores para lhes dar confiança nas nossas actuações. Estamos a repor stocks e oferecendo às famílias e cuidadores produtos seguros nos quais podem confiar", concluem.