Muitas marcas nascem de uma necessidade pessoal. No caso de The Doog Life, essa necessidade tinha nome próprio: Claire, a golden retriever de Alba Ciordia. Depois de percorrer "média Espanha de veterinário em veterinário" em procura de tratamentos naturais para os problemas de saúde de sua cadela, esta empreendedora decidiu criar em 2021 uma marca de cosmética natural e ecológica para cães. Fazer após comprovar que os produtos convencionais, com ingredientes sintéticos e conservantes, não eram bem tolerados por seu mascota.
"Quando ela chegou a minha vida, começou a ter um montão de problemas de saúde", recorda Ciordia durante a entrevista com Consumidor Global. Problemas de pele e digestivos, otitis contínuas e afecciones oculares levaram-na a formar-se em nutrição canina e fitoterapia para cães e gatos. Foi então quando descobriu que as poucas alternativas naturais procediam de países como Estados Unidos ou Nova Zelândia. "Em Espanha realmente não tinha nenhuma marca que apostasse por esta filosofia", explica.
--Que sentia falta no mercado quando decidiu criar The Doog Life?
--Os produtos do mercado costumam ser de bastante baixa qualidade. Se prioriza o preço e praticamente tudo é sintético. Eu saí ao mercado com uma aposta de umas fórmulas prémium com o mesmo regular de qualidade de um produto cosmético natural e ecológico de humanos mas adaptado ao pH dos cães. Esta é a filosofia que tenho seguido desde o princípio.
--Que deve cumprir um produto para mascotas para ser realmente ecológico e não ficar num simples reclamo comercial?
--Ocorre muito e tentamos fazer muita divulgação tanto em redes como no site. Podes dizer que este produto tem ingredientes ecológicos mas isso não o converte em ecológico. Isto último é diferente.
--Por que?
--Muitas vezes promovem-se como champô ecológico, mas este tem que cumprir várias características a nível da percentagem dessa fórmula. Se só tem um que seja ecológico, é possível cair no greenwashing. Como consumidora e como marca, para mim a chave diferencial é que tenha uma certificadora detrás. Quando te concedem esse selo, garantes a traçabilidade e a percentagem dos ingredientes que se utilizaram. Ademais, há uma segurança, porque fazem uma análise de laboratório sobre como se manipulam esses ingredientes, inclusive do cultivo dessas matérias primas que se vão utilizar a posterior na fabricação.
--Que diferenças há entre um champô convencional para cães e um elaborado com ingredientes naturais?
--Uma das alternativas que costuma ter para mascotas quando têm problemas de pele costumam ser champôs com clorhexidina, que permite baixar a inflamación e reduzir o picor. Em vez de utilizar estes ingredientes sintéticos, trabalhamos só com extractos de flores e plantas. Apostamos por um uso muito alto de aloe lado ecológico, um 30%. Isto quer dizer que a terceira parte do champô é suco de aloe lado ecológico, algo praticamente impossível de encontrar inclusive em cosmética humana, mas este ativo tão alto é o que nos permite aproveitar todas suas propriedades antiinflamatorias, calmantes, hidratantes, restauradoras, sem ter que recorrer aos sintéticos. Também usamos macerado de caléndula, malva, azeite de jojoba, manteca de carité, extracto de alga vermelha, etcétera.
--A cada vez gastamos mais dinheiro em nossas mascotas. Acha que existe um risco de confundir bem-estar animal com consumo excessivo?
--Sim, poderia ser porque há uma linha muito fina entre até que ponto estou a cuidar ao cão ou o estou humanizando. Para mim o conceito de humanización é lhe pôr oitenta laços e sapatos para a rua sem ter nenhum problema nas almohadillas que o justifique, coisas desse tipo. Mas o que há que valorizar com respeito a estes últimos anos, é que há muitas alternativas e isso dantes era impensável. Agora mesmo no mercado temos produtos de maior qualidade. Faz uns anos os produtos para cães e gatos eram os sobrantes e de pior qualidade.
--O natural paga-se mais caro. Por que?
--É muitíssimo mais barato produzir sintético, porque produze-lo num laboratório e pode-lo replicar as vezes que queiras. Em mudança, os produtos naturais estão feitos com plantas cultivadas. Há que as colectar, as deixar em diferentes meios líquidos para extrair suas propriedades… Com os azeites ocorre o mesmo: tens que fazer um processo de destilación que leva muitíssimo tempo. Ademais, a natureza também é limitada, salvo que tenhas um invernadero e produzas, mas também vais ter certas limitações que num laboratório não. Todo o que se possa escalar mais rápido, baixa o custo. Se deixasse de usar ingredientes naturais e decidisse fazê-lo com ingredientes sintéticos, o preço seria vinte vezes menor.
--Tem escrito o livro 'Também são família'. Como tem mudado a percepção social das mascotas nos últimos anos?
--Dantes era: 'Bom o cão tem um saco de penso e com isso e os passeios já o tenho todo o facto'. Com o passo dos anos, quando a gente tem começado a se preocupar mais pelo bem-estar, tem mudado essa mentalidade. Integrou-se mais em nossa dinâmica familiar e com isso tem crescido essa consciência de cuidados. Por isso há de tudo. Desde fisioterapia para cães a acupuntura, tratamentos de spa com ozonoterapia para cães que têm problemas de pele… Dantes também era muito raro ou mais difícil se propor viajar com um cão. Agora, não. A cada vez há mais opções. Nestes dez anos tem tido uma mudança de mentalidade brutal. A cada vez são mais os negócios que entendem que a gente quer poder entrar ao restaurante com o cão, poder viajar, etcétera.
--Que tendências marcarão o futuro do mercado de produtos para mascotas nos próximos anos: sustentabilidade, personalização, bem-estar emocional, alimentação...?
--Por um lado, a tendência para produtos naturais vai seguir crescendo porque é uma tendência do mercado global para além do sector das mascotas. Muita gente procura mais produtos ou mais maneiras de alongar e de promover a longevidade. Ao igual que ocorre com os humanos, acho que há uma busca de promover essa longevidade nos cães. Vemo-lo com todo o sector da suplementación em cães e gatos, que está a crescer muito nos últimos anos, bem como os cuidados preventivos. Por exemplo, está a crescer muito toda a parte tecnológica de detecção precoz de doenças, monitorar a frequência cardíaca, o rascado, se há algum tipo de mudança no cão… Ao igual que a gente leva os relógios e outros dispositivos, replicar-se-á mais este modelo humano em cães para que o animal viva o maior número de anos possível. Não é lhe dou a comida e já está, é um passo para além de como posso prevenir.
--Após escrever 'Também são família' e de criar The Doog Life, que é o mais importante que lhe ensinaram os animais sobre a forma em que vivemos e consumimos?
--Uma delas é que eles não têm expectativa e os seres humanos, ainda que o tenhas muito trabalhado, sempre costumam ter certas expectativas com as relações pessoais, trabalhistas, com absolutamente tudo. Quando tu tens expectativa para uma relação ou para uma situação, te expões ao potencial da decepção. Os cães não só não têm expectativa, sina que ademais não há julgamento, que essa é outra das coisas que nos passa aos humanos. Temos julgamento para nós e para os demais. Os cães estão no momento presente e essa atitude a mim me parece um lembrete incrível de que muitas vezes os seres humanos complicamos demasiado as coisas.
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