Quem paga o 'ligue' da IA? Os centros de dados ameaçam com encarecer a factura da luz
"Uma nova demanda bem integrada pode impulsionar investimentos e aproveitar electricidade que, em determinadas horas, encontra pouco consumo", explica um experiente de Roams
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O debate sobre as potencialidades e inclinações da inteligência artificial está a tomar um cariz a cada vez mais siniestro. Às escuras profecias de alguns gurús somam-se as complicações que acarretam os centros de dados, instalações que consomem volumes astronómicos de água e electricidade, tensionando a infra-estrutura energética e disparando as emissões de carbono. Espanha quer centros de dados, mas mostra-se cautelosa.
A vice-presidenta executiva da Comissão Européia para uma Transição Limpa, Justa e Competitiva, Teresa Ribera, assinalou que se devem prevenir os "efeitos negativos para o conjunto da sociedade" uma vez que se aborde o despliegue destes centros. Entre esses efeitos, a exministra citou um incremento "muito notável" no preço da electricidade ou uma rejeição social para estas infra-estruturas.
O preço da luz já está disparado
Melhor prevenir que curar, pensa a Comissão. Ademais, o debate sobre estes centros chega num contexto delicado: o preço da luz disparou-se no que vai de setembro, de modo que um consumo em massa adicional poderia escurecer o panorama.

Por sua vez, o ministro de Transformação Digital e de Função Pública, Óscar López, assegurou o 14 de setembro que o Governo estava a falar com o sector de centros de dados para conseguir que o decreto regulador de exigências energéticas e de soberania fosse "equilibrado", mas sempre garantindo que estes centros sejam "sustentáveis sem que se faça a costa de que todos paguemos mais no recebo da luz".
Riscos em médio prazo e encarecimiento atual
"Convém separar duas questões: o encarecimiento que já têm notado os consumidores e o risco que os centros de dados podem representar em médio prazo", explica a este meio Sergio Soto, experiente em energia de Roams.
A primeira questão responde, sobretudo, à retirada das rebajas fiscais. Com tudo, é evidente que "a pressão sobre os preços pode ser real se seu consumo cresce mais depressa que a geração e as redes necessárias para os abastecer". Ao respeito, os centros, indica Soto, são instalações que precisam electricidade durante todo o dia. Se essa demanda extra não chega acompanhada de suficiente produção, armazenamento e capacidade de rede, "terá horas nas que teremos que recorrer mais a centrais de gás, que podem encarecer o preço do mercado".

Levar a electricidade até onde é necessária
Neste palco, a subida não seria descartable: uma família poderia acabar pagando mais por consumir exactamente o mesmo. "Ademais, o problema não se limita a quanta electricidade podemos produzir, sina a se podemos a levar até onde se precisa. A concentração de grandes consumidores em determinadas zonas obriga a reforçar linhas e subestações", aponta Soto.
Por tanto, cabe perguntar-se quem paga a festa, e mais quando Redeia (que tem um 20% de titularidade pública) já tem investido 9 milhões numa subestação elétrica para o centro de dados de Blackstone. Poderia ser uma pista de por onde vão os tiros.
"Quem tenha um preço fixo estará protegido"
"O encarecimiento da energia pode transladar-se dantes aos contratos indexados e, parcialmente, ao PVPC. Quem tenha um preço fixo estará protegido durante o período pactuado com respeito ao preço da energia, ainda que poderia encontrar-se com ofertas mais caras quando chegue a renovação", detalha Soto.

Baixo o ponto de vista de Roams, o debate regulamentar deve centrar-se precisamente nessas condições: nova geração que acompanhe ao consumo, redes suficientes e uma partilha adequada dos custos.
Barclays acha que a luz subirá um 23%
Apesar de que tudo está por fazer, algumas entidades já propõem palcos inquietantes. Um relatório do banco de investimento britânico Barclays estima que o preço da luz se encarecerá até um 23% e que a infra-estrutura necessária para fazer que a IA atire suporá, dentro de uma década, um da cada cinco kilovatios consumidos.
"Se a previsão que propõe Barclays se cumpre e os centros de dados chegam a concentrar uma quinta parte do consumo elétrico espanhol, sim estaríamos ante uma mudança estrutural", reconhece Soto, tanto pelo volume de electricidade requerido como pelas características dessa demanda.
O translado dependerá do contrato
Agora bem, tercia, esse palco não significa automaticamente que as famílias vão pagar um mais 23% em seu recebo. "Essa estimativa deve interpretar com suas hipóteses, seu horizonte temporário e sua referência de comparação. Se corresponde ao preço mayorista, seu translado à factura dependerá do contrato da cada consumidor e da evolução do resto de conceitos que paga".

Neste sentido, o experiente de Roams recorda que Espanha conta com uma vantagem importante por sua capacidade de geração renovável. "Uma nova demanda bem integrada pode impulsionar investimentos e aproveitar electricidade que, em determinadas horas, encontra pouco consumo. Mas um centro de dados também precisa funcionar quando não há sol ou mal sopra o vento", adverte.
"Espanha poderia assumir uma quantidade razoável de centros de dados"
Por isso, que Espanha seja atraente para estes investimentos por seus custos energéticos "não garante que conserve essa vantagem se a demanda cresce mais rápido que as infra-estruturas necessárias para a atender. Podemos atrair projectos graças a uma electricidade competitiva e terminar erosionando essa competitividade se não acompasamos ambos desenvolvimentos".
Antonio Aceituno é o diretor da consultora energética Tempos Energia, e tem um ponto de vista parecido. "O consumo de um pequeno centro de dados é equivalente ao de uma siderúrgica média", explica a Consumidor Global. "Se as renováveis empurram como até agora, Espanha poderia assumir uma quantidade razoável de centros de dados, desde que as coisas se façam bem, de forma ordenada e coordenada", considera. Trata-se, baixo seu ponto de vista, de "uma oportunidade para o país".

O 80% da energia deve ser renovável
A seu julgamento, a ideia do Governo de obrigar aos centros de dados a que o 80% de sua energia seja de origem renovável resulta do todo apropriado. Ademais, aponta que em Espanha também não se vão instalar demasiados centros de dados, já que seriam uns 15 ou 20. "Em princípio não teria colapso na rede, mas o mix energético espanhol tem muitas incógnitas por resolver", assegura.
Que papel jogarão as baterias, isto é, os sistemas de armazenamento de energia a grande escala?, pergunta-se Aceituno. Ademais, recorda que, ao falar de preços, esquecemos com frequência que o custo não só depende da demanda, sina que o gás é o factor determinante.
O caso de Irlanda
Em Irlanda, os centros de dados já consomem mais de 20% de toda a electricidade do país, e poderiam representar o 31% em 2034. Ao calor destes dados, no país reabriu-se o debate sobre a pertinência da energia nuclear, proibida desde faz décadas, para dar resposta à demanda.

"Nosso mix elétrico e nosso debate energético partem de um ponto muito diferente, com muita mais renovável já instalada e um calendário de fechamento nuclear pactuado entre o Governo e as elétricas para o período 2027-2035. O que sim compartilhamos é o risco de fundo: que a demanda dos centros de dados cresça mais depressa que a geração e as redes necessárias para a abastecer", reconhece Soto.
O risco de um planejamento insuficiente
"Em Espanha, se as infra-estruturas não avançam ao ritmo dos projectos, cabe esperar mais dificuldades de conexão, instalações que tenham que atrasar sua posta em marcha e pressão para acelerar os investimentos em redes e armazenamento. Não faz falta um giro nuclear para que um planejamento insuficiente tenha consequências económicas", alega.
Com tudo, a autorização de Almaraz até junho de 2030 mostra que já se produziram ajustes e que há ruído de fundo. "Revisar o planejamento quando mudam as necessidades é razoável; o que devemos evitar é que os lares terminem pagando as consequências de não nos ter antecipado", limpa o experiente de Roams.
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