Um vídeo viral de Tom Cruise e Brad Pitt brigando a puñetazos numa azotea tem desatado uma tormenta legal e existencial na meca do cinema. O que parece uma cena de acção de alto orçamento é, em realidade, um clip gerado por inteligência artificial mediante um simples comando de texto.
Esta meta técnica tem provocado a reacção imediata da Motion Picture Association (MPA), que tem denunciado publicamente a ByteDance (matriz de TikTok) pelo lançamento de seu novo modelo de IA, Seedance 2.0, exigindo o cesse imediato de suas actividades por vulneración em massa de direitos de autor.
"Uso não autorizado a escala em massa"
A indústria do cinema tem decidido traçar uma linha vermelha. Segundo um comunicado oficial, a MPA acusa ao gigante tecnológico chinês de ter treinado a seu modelo utilizando obras protegidas sem permissão. "Num sozinho dia, o serviço chinês de IA Seedance 2.0 tem feito uso não autorizado de obras estadounidenses protegidas por direitos de autor a uma escala em massa", denuncia um porta-voz da associação.
A MPA argumenta que ByteDance tem lançado um serviço "sem salvaguardas significativas", ignorando a legislação que protege milhões de empregos em Estados Unidos. Ainda que ByteDance defende que Seedance 2.0 supõe um "salto substancial na qualidade" e fidelidade em frente a versões anteriores, a companhia não tem aclarado que medidas tomada para evitar que os utentes clonem a actores ou recreiem cenas de filmes, como tem ocorrido com o caso de Cruise e Pitt.
O precedente de OpenAI e o medo dos roteiristas
Este conflito recorda inevitavelmente ao caso de Sora 2, o gerador de vídeo de OpenAI. Naquela ocasião, a pressão da MPA obrigou à companhia de Sam Altman a implementar restrições severas para evitar a reprodução de material protegido, o que derivou posteriormente num acordo milionário com Disney para licenciar o uso de suas personagens.
No entanto, o sentimento em Hollywood com Seedance 2.0 é bem mais pessimista. Rhett Reese, roteirista da trilogía de Deadpool e Bem-vindos a Zombieland, tem alçado a voz na rede social X, expressando um temor que compartilham muitos profissionais do sector.
"Hollywood será arrasado": a advertência de Rhett Reese
Reese, depois de ver o realismo do vídeo de briga-a entre as estrelas de Hollywood gerado com um prompt de sozinho duas linhas, não tem ocultado sua preocupação. "Dói-me dizê-lo. Provavelmente é o fim para nós", assinala o roteirista. "Em muito pouco tempo, uma sozinha pessoa poderá sentar em frente a um computador e criar um filme indistinguible das que hoje estreia Hollywood", acrescenta.
O cineasta confessa estar "aterrorizado" e em "choque" pela qualidade profissional do vídeo. "Se para valer pensas que o vídeo Pitt contra Cruise é uma porquería sem mais, não tens de que te preocupar, mas eu estou em choque", realça.
O nascimento de novos 'Christopher Nolan' ou o fim da indústria?
Apesar do medo a que a IA "invada os esforços criativos" e destrua carreiras (incluída a sua própria), Reese oferece uma visão paradójica sobre o futuro. Reconhece que Hollywood tem actuado historicamente como um guardião que impede o acesso a jovens sem recursos.
Segundo o roteirista, ferramentas como Seedance 2.0 poderiam democratizar a criação cinematográfica: "Quando uma pessoa jovem sem capital tente impressionar a Hollywood, usará ferramentas como estas. E entre eles terá jovens com o talento de Christopher Nolan e sairão coisas incríveis". Enquanto a batalha legal prepara-se, a fronteira entre realidade e ficção nunca tinha sido tão fina, e Hollywood já não controla em exclusiva a maquinaria do espectáculo. Briga-a entre Cruise e Pitt pode ser fictícia. A guerra pelo futuro do cinema, não.