Quem é Beatriz Padín e por que sua saída de Zara muda o rumo de Inditex

Sua trajectória, desde planchadora até converter-se na executiva que definia que vestiriam milhões de mulheres, explica a dimensão de um relevo que marca uma nova etapa para o gigante galego

Beatriz Padín, diretora de Zara Mujer / CG
Beatriz Padín, diretora de Zara Mujer / CG

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Beatriz Padín, a executiva que durante as últimas duas décadas tem dirigido com sucesso indiscutible Zara Woman —o departamento mais relevante e motor da corrente—, tem decidido pôr fim a sua etapa na companhia.

Sua saída marca o fim de uma era. Como já analisamos em Consumidor Global, Padín não era uma diretora mais; era o alma de Zara, a pessoa responsável de 70% dos rendimentos anuais do gigante têxtil e a mulher que, na sombra, decidia que vestiam milhões de mulheres em todo mundo.

Quem toma o relevo

A marcha de Padín obriga a uma reestruturação imediata na cúpula de Inditex. Fiel à filosofia da casa, a companhia tem apostado pelo talento interno para cobrir este vazio: o novo diretor de Zara Mulher será Alfredo Ferro.

De perfil muito similar ao de Padín, Ferro começou desde abaixo numa loja de Pull & Bear, passou por Massimo Dutti e leva semanas compatibilizando seu cargo em Zara Basic com a transição para seu novo papel. Trabalhará lado a lado com Javier Romero (Zara Caballero) e Lorenzo Marcheselli (Zara Kids). Por outro lado, Eva Pérez, com mais de 15 anos de experiência na linha basic de Inditex, será a encarregada de substituir a Ferro à frente de Zara Basic.

Una tienda de Zara / INDITEX
Uma loja de Zara / INDITEX

Padín, de planchadora a uma das executivas mais influentes de Inditex

A história de Beatriz Padín dentro de Inditex é pouco habitual inclusive para uma empresa acostumada a promover talento interno. Entrou a trabalhar em Zara em 1985, com sozinho 17 anos, quando o grupo mal dava seus primeiros passos. Seu primeiro posto foi numa linha de passado, ainda que conhecia a empresa desde muito dantes: seu pai dirigia uma oficina que colaborava com Amancio Ortega desde os anos setenta.

Graças a seu carácter exigente, calculador e seu incansable capacidade de trabalho, escalou posições passando por desenho, compras, produção, distribuição e merchandising. "Sempre brigou sua posição e nunca apanhou uma baixa", asseguram fontes próximas. Esta dedicação levou-a a ocupar, desde 2021, uma das nove cadeiras do comité de direcção de Inditex, tendo por em cima unicamente a Óscar García Maceiras (CEO) e a Marta Ortega (Presidenta).

A mulher que decidia que chegava às lojas

Ainda que oficialmente era diretora de Zara Woman, dentro da companhia sua influência ia bem mais lá do cargo. A área feminina representa o coração do negócio de Zara e concentra a maior parte das vendas da corrente. A cada colecção, a cada tecido, a cada cor e a cada tendência passavam por uma equipa liderada por Padín, cuja capacidade para detectar que produtos funcionariam no mercado a converteu numa figura imprescindível para o crescimento da marca.

Seu trabalho não consistia unicamente em desenhar roupa. Também coordenava compras, produção, distribuição e comercialização, supervisionando o processo completo desde a ideia inicial até que uma prenda chegava aos escaparates de quase 2.000 lojas repartidas por todo mundo.

A 'filha adoptiva' de Amancio

Para além dos impressionantes números financeiros de sua divisão, o verdadeiro poder de Beatriz Padín arraigava em sua profunda conexão com a família fundadora. Durante anos tem exercido como uma sorte de "chefa na sombra", se ganhando a absoluta confiança do fundador.

Na biografia Assim é Amancio Ortega, o homem que criou Zara (2008), a própria Padín resumia assim sua relação com o magnata: "O senhor Ortega tem sido meu maestro, meu pai. Fez-me chorar mais que a ninguém, mas também lhe quero muito. É uma pessoa muito rigorosa, inconformista. Demorou anos em dizer-me: 'Fizeste-o bem'".

Beatriz Padín, directora de Zara Mujer, y Marta Ortega, presidenta de Inditex / EFE - Cabalar
Beatriz Padín e Marta Ortega, presidenta de Inditex / EFE - Cabalar

Esse mesmo rigor foi o que aplicou quando lhe encomendaram sua missão mais pessoal: ser a formadora e mentora de Marta Ortega. Desde que a atual presidenta regressou de sua etapa formativa em Londres faz 17 anos, Padín não se separou dela, trabalhando lado a lado para a preparar para liderar o império.

Hoje, com a transição completada e o relevo generacional na presidência totalmente consolidado, Beatriz Padín dá um passo ao lado, deixando depois de de sim um legado imborrable na história da moda mundial e um repto maiúsculo para Alfredo Ferro.