O fechamento de Tipos Infames supôs uma surpresa amarga para muitos madrilenos e também um aviso a navegantes. Esta livraria, totalmente consolidada no bairro de Malasaña e convertida num referente, fechou suas portas asfixiada por uma subida do aluguer. Num Madri que se projecta como a grande capital do sucesso económico e o dinamismo empresarial, a crise dos alugueres ameaça com arrasar a identidade capitalina, também no âmbito cultural.
Agora, a Associação de Livrarias de Madri alça a voz e denúncia que o encarecimiento dos alugueres na região ameaça a continuidade de sua actividade. Segundo uma encuesta interna, o 84% dos estabelecimentos interrogados desenvolve sua actividade em regime de aluguer e só o 14,3% vê garantida sua permanência no local que ocupa actualmente.
Incerteza crescente
Assim, a entidade fala de "incerteza crescente em torno da estabilidade de muitos projectos livreiros". A preocupação do sector explica-se após que nos últimos meses livrarias como O Movimento do Caracol, em Alcobendas, tenham anunciado o fechamento de seus espaços físicos.
Segundo a encuesta, um 41% das livrarias percebe um risco imobiliário alto ou muito alto nos próximos dois anos. "Estamos a assistir a uma expulsão silenciosa de livrarias que já não afecta só a Madri capital, sina também a municípios de toda a Comunidade", tem assinalado o presidente da associação, Luis M. Tigeras.
Abrir uma reflexão pública
Tigeras tem sublinhado que as livrarias "fazem parte da vida cultural e social de bairros e povos" e tem defendido a necessidade de abrir "uma reflexão pública" sobre como garantir a continuidade destes espaços em frente à pressão imobiliária.
Ademais, o preço do aluguer leva aos livreiros a reduzir investimentos ou inclusive a encurtar a plantilla. Neste contexto, a entidade tem contactado com as administrações, tanto a Comunidade de Madri como a Prefeitura da capital, para falar da situação.
"O mercado do livro não para de crescer"
"O grande paradoxo é que o mercado do livro não para de crescer: a cada vez lê mais gente, os eventos enchem-se e há listas de espera para os clubes de leitura. E, ainda assim, como passa com boa parte do comércio de proximidade, nem com isso é suficiente. A razão: vai-se-nos tudo nos alugueres", tem explicado Pablo Cerezo, da Livraria Pérgamo.
Cerezo tem advertido além de que resulta "muito difícil construir um projecto com impacto cultural e social sobre a incerteza de não saber que será de teu aluguer no mês que vem". Por sua vez, o livreiro Miguel Ángel Vázquez, dA Imprenta, tem assinalado que "o fechamento de uma livraria não é só o fechamento de um comércio senão também de uma forma de entender a cidade".