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Claudia Núñez (Aurarte): “Os meus brincos não só embelezam, como também contam histórias”

Esta jovem cria peças únicas a partir do lixo que recolhe nas praias, que limpa e molda.

Juan Manuel Del Olmo

Claudia Núñez, criadora de Aurarte / CEDIDA

Quando uma pessoa adquire uma jóia de verdadeiro valor, costuma procurar um vínculo que trascenda o presente: que resista ao tempo, quiçá inclusive que passe de geração em geração e que conserve a sua magia. No entanto, as jóias sustentáveis percorrem o caminho inverso: olham para o futuro levando no seu interior o eco de uma vida anterior sem renunciar à memória do material. E conseguem-no através da beleza.

Claudia Núñez estudou Belas Artes, depois trabalhou como restauradora de obras de arte e mais adiante como professora. Aos 31 anos, leva dois dedicando-se profissionalmente a Aurarte, um projecto no qual faz jóias artesanais com resíduos que o mar cuspiu para praias. "São peças únicas, nunca replico a mesma. Ninguém vai ter os mesmos brincos", explica. Falamos com esta artesã que de pequena queria ser arqueóloga e hoje, mais que joalheira, se considera artista.

--Como começaste a desenvolver o projecto?

--Desde sempre me encantou o mundo das artes e a criatividade. Optei primeiro por estudar Belas Artes e depois especializar-me, fazendo uma segunda carreira, Conservação e Restauração de Bens Culturais. Ao mesmo tempo, mergulhei no mundo da educação e fiz o mestrado em ensino. Por isso, no início, Aurarte foi uma espécie de escapatoria de toda essa parte teórica, porque a prática a faziam os alunos.

Claudia Núñez / CEDIDA

--Isto é, que Aurarte não nasceu com uma vontade comercial.

--Para nada. Não pensava em criar uma marca, em absoluto. Dei-me conta do que gostava de criar peças, como brincos ou anéis, e comecei a encher a casa desses artigos. Por então estava a viver numa cidade onde se moviam muito os mercados de artesanato, de modo que abri uma conta de Instagram, mas sem nenhuma pretensão. Um dia comecei a fazer mercados, as pessoas gostaram, uma coisa levou à outra… E vi que a nível pessoal esse setor me enchia mais que o educativo. Hoje dedico-me exclusivamente a Aurarte.

--Como ligaste esse desejo de virar a tua criatividade em algo tangível com a sustentabilidade?

--Sempre que criei obras, já desde Belas Artes, o fiz com uma vontade de reflexão por trás. A mim não me enche fazer coisas que sejam bonitas e já está. Acho que os artistas temos a necessidade de contar algo, seja de tipo pessoal ou social. Eu tenho estado desvinculada de aspectos políticos, mas sempre me interessou o meio ambiente —ainda que sejam âmbitos que guardem muita relação—. Importa-me chamar a atenção sobre a desconexão do ser humano com a natureza, de modo que os meus brincos não só embelezam, como também, contam coisas.

Brincos da Aurarte / CEDIDA

--E essa história vai-se comunicando.

--Sim. Por exemplo, quando alguém pergunta à pessoa que está a usar brincos de onde são ou de que material são feitos, a mensagem é transmitida.

--Como é o processo de produção?

--Trabalho por fases. A primeira coisa, obviamente, é limpar a praia. Vou sozinha; não tenho equipa nem nada do género. O meu companheiro ajuda-me de vez em quando, mas é tudo muito simples, muito caseiro. Quando chego à praia, recolho o máximo de lixo que consigo manualmente, sem usar qualquer máquina, e depois separo. Há muitas coisas que obviamente não uso: encontro latas, garrafas de plástico e até pneus.

--Que ocorre com esses resíduos descartados?

--Reciclo-os. Fico com resíduos que sei que posso manipular e transformar. Por exemplo, há plásticos que são excessivamente duros, que vêm de barcos pesqueiros, que não posso cortar.

Dois desenhos de brincos / CEDIDA

--Que ferramentas utilizas?

--Faço tudo à mão com tesouras adequadas ao material, com um corte preciso. Também uso alicates, mas é tudo bastante arcaico, e acho que isso faz parte da magia de ser feito à mão. Depois da triagem, limpo os resíduos. Nesta fase, simplesmente coloco-os em tanques com água para remover sais, areia e até vestígios de alcatrão. Depois, crio as combinações de cores que considero mais interessantes, para que os designs se tornem modernos e atuais. Há mil formas de reciclar, e por vezes o resultado final parece projeto de artesanato, mas procuro designs modernos, por isso não parece o que realmente é.

--E para terminar…?

--Corto os plásticos e coloco-os em moldes de silicone reutilizáveis. Os desenhos precisam de ser feitos primeiro em metacrilato. Por fim, utilizo uma resina ecológica. O mundo das resinas também tem as suas complexidades: a mais conhecida é a resina epóxi, mas é derivada do petróleo, pelo que não se enquadra na minha filosofia. Passei por um longo processo de estudo de resinas, começando na época das Belas Artes, quando fiz muitos testes e erros a tentar encontrar uma que fosse ao mesmo tempo natural e durável. A resina endurece e a última etapa é lixar e polir.

Brinco da Aurarte / CEDIDA

--Como são polidos?

--Utilizo máquinas, mas também são muito rudimentarias: uma lixa de disco. As zonas mais delicadas faço-as à mão, com papel de lixa. Depois só fica montar as peças com o aço.

--Que preço aproximado têm as peças?

--Procuro manter os preços o mais acessíveis possível. Dado o tempo e o valor do projeto, é verdade que alguns colegas me dizem que devia aumentar o preço, mas tento cumprir todos os orçamentos. Os brincos mais caros custam 28 euros e os mais baratos, 19. Tenho também alguns anéis por cerca de 9 euros, que são os artigos mais económicos da Aurarte

Brincos / CEDIDA

--Fala sobre as oficinas que organizas.

--As pessoas que se inscrevem nos meus workshops estão geralmente bastante conscientes deste problema e identificam-se com a causa. Ainda assim, muitas saem surpresas. Tento viajar para diferentes cidades para chegar a públicos diversos, mas sempre que possível, faço uma limpeza de praia antes do workshop. O que eu quero é que as pessoas vivam este momento de limpeza da praia e reflitam durante 20 ou 30 minutos. Não se trata de ficar lá horas, porque quero concentrar-me mais no aspeto criativo, mas gosto desta limpeza e desta reflexão.

--E a onde costuma levar?

--Debatemos um pouco sobre quem pode ter a culpa disto a nível político, legislativo, nosso papel como consumidores… Também tocamos o tema da fast fashion e como polui. Às vezes consumimos por consumir coisas que realmente não precisamos, mas noutras os consumidores não nos dão alternativa: vais ao supermercado e está todo envolto, embalados em excesso de plásticos. A raiz disso, tento explicar como canalizo minha frustração face a estes temas com a parte artística.

Uma pessoa recolhe uma garrafa de plástico / PEXELS

--Como é a reação das pessoas que não conhecem Aurarte?

--Quando as pessoas se aproximam da minha banca nas feiras, além de venderem — o que é importante para manter o projeto a funcionar —, o simples facto de explicarem o que está por trás dele já é muito positivo para mim. Mesmo que não comprem nada, fico feliz se levarem esta ideia para casa: que uma só pessoa pode gerar mudança e que, quanto mais pessoas agirem, melhor.

--Onde gostarias que estivesse Aurarte dentro de uns anos, interessar-te-ia ter uma loja física própria?

--O que me interessa é chegar aos máximos lugares possíveis. Agora mesmo Aurarte está presente em várias lojas em Espanha, mas sim gostaria de escalá-lo a nível internacional para que a mensagem chegue para além. É verdade que na marca somente estou eu, e é um pouco complicado o gerir tudo, de maneira que gostaria de poder delegar algumas coisas para focalizarme na parte criativa. Conudo, o processo artesanal implica uns tempos lentos, de modo que há que assimilar que terá um topo até o que possa chegar. Se convertesse-se em algo mais industrial, perderia essa magia.

Claudia Núñez faz uma peça / CEDIDA

--Se tivesse de escolher uma música para ser algo como 'a banda sonora' de Aurarte, qual seria?

--Minha canção favorita desde sempre é, curiosamente, 'Ocean', de John Butler. Uma canção que me acompanhou nos momentos de transformação da minha vida e que sempre me emocionou, já que ao escutá-la vives como uma viagem… Toda a vez que a escuto não posso evitar me emocionar, sentindo que estou no lugar onde devo estar, criando e partilhando minha forma de ver a vida, reivindicando e conscienciando para ter um mundo melhor. É uma canção sem letra, mas que diz muito sem dizer nada. Como as minhas jóias, transmite uma mensagem sem palavras.

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