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Oficinas de reparo, ecocheques e escritórios de segunda mão: sobe aposta-a pela reutilização

Wallapop, Ikea, Vinted ou Milanuncios apostam por um reciclaje mais efetivo, no que se envolvam as administrações públicas com suas compras e que seja atraente para todos os actores

Juan Manuel Del Olmo

Una persona repara una bicicleta para favorecer el reciclaje y la reutilización

Proclama-las, os compromissos subscritos e os actos encaminhados a orientar compra-a dos consumidores para caminhos mais sustentáveis são inumeráveis. Não obstante, muitos caminhos de baldosas aparentemente verdes terminam sendo espejismos desenhados por departamentos de marketing. Baixo a brilhante pátina do eco-friendly, esconde-se com frequência o fenómeno do greenwashing.

A lei de Consumo Sustentável, impulsionada pelo Ministério de Direitos Sociais, Consumo e Agenda 2030, reforça a protecção dos consumidores e trata de pôr coto ao greenwashing (as alegações ecológicas vadias ou imprecisas considerar-se-ão práticas comerciais desleais), impulsionando a reparabilidad ou reciclabilidad dos produtos. Com tudo, muitas empresas e entidades acham que faz falta ser mais pesadas e favorecer uma mudança de mentalidade que impulsione uma mudança real.

Transformar o modelo de consumo

Assim, em junho de 2025 viu a luz Movimento Re-O usa, uma coalizão de empresas como IKEA, Vinted, Milanuncios ou Wallapop que, da mão de organizações do âmbito social como AERESS e o Foro NESI, procura "transformar o modelo de consumo atual através da revalorização da reutilização como prática preferente em frente ao consumo imediato, em massa e de baixa durabilidade".

Pol Fàbrega / CEDIDA

Pol Fàbrega é o Sustainability Lead de Wallapop, e explica a este meio que o sector da segunda mão tem estado associado, tradicionalmente, a uma necessidade económica. "Mas dito isto, a verdade é que nos últimos 10-15 anos isto se transformou radicalmente, e hoje em dia é uma prática muito estabelecida entre os consumidores espanhóis", argumenta.

A maioria dos espanhóis compra e vende de segunda mão

De facto, um estudo de Wallapop indica que o 65% dos consumidores espanhóis já compra ou vende produtos reutilizados de maneira recorrente ao longo do ano, o que situa a Espanha mais para perto de países com uma tradição bem mais consolidada neste âmbito. "Isto é, que se tem se consolidou como uma prática habitual e isto trasciende o sexo, a idade ou a condição económica" do comprador.

No entanto, a taxa de circularidad em Espanha ronda o 8,5%, o que significa que menos de 10% dos materiais utilizados volta a integrar na corrente de valor. Assim, o Manifesto de Movimento Re-O usa assinala, sem as nomear, às grandes plataformas asiáticas como Temu ou Shein, e reclama "um marco regulamentar que garanta regulares de qualidade e responsabilidade equivalentes para todos os operadores num mesmo mercado independentemente de sua natureza". De pouco vale lutar pelo reciclaje se os pacotes de roupa barata de péssima qualidade inundam os lares.

Ecocheques

Mas se há uma medida estrela no manifesto, essa é a dos ecocheques: "No processo de co criação do manifesto, neste processo de reflexão entre os impulsores, também quisemos fazer um pouco de benchmarking olhando ao exterior", explica, ao respeito, Fàbrega. "Um dos exemplos que gostámos mais foi o de dos eco cheques em Bélgica, que é uma um instrumento que leva implementado desde o 2009".

Uma mulher numa loja de roupa 'vintage' / FREEPIK

Consistem, relata este experiente, nuns vales que oferecem as empresas a seus trabalhadores de maneira voluntária, da mesma forma que oferecem tickets restaurante ou tickets guardería. "É um vale que ajuda aos trabalhadores a poder consumir produtos e serviços sustentáveis nos mais de 10.000 comércios associados", precisa. O manifesto não se atreve a indicar qual seria o custo destes cheques, mas parece uma medida prometedora.

Página em Change.org

"Com eles poderias te comprar esse abrigo vintage que queres, arranjar teu bici, aproveitar uma estantería ou renovar teu móvel com um reacondicionado. Como já fazem em Bélgica, onde estes cheques têm transformado a forma de consumir", indicam numa página de Change.org destinada a recolher assinaturas.

Fàbrega é consciente de que se requer uma mudança de mentalidade. "Isto não é para copiar e colar, obviamente há que adaptar ao contexto espanhol", aponta. Acrescenta que, no caso belga, também é interessante "a colaboração de actores importantes, como podem ser sindicatos, empresas, administrações, organizações de consumo…". Por isso, é muito relevante como se formule a lista de produtos e serviços. De materializar-se, não será uma carta branca, sina um mecanismo bem refinado. "Não se trata de reinventar a roda, sina de que possamos contar com o que já existe e que seja algo fácil de implementar", descreve.

Uma pessoa decora uma estantería / FREEPIK

Responsabilidade compartilhada

Em Bélgica, a lista de opções disponíveis é fechada, e isso também é enriquecedor, já que o consumidor se poupa quebraderos de cabeça. Em ocasiões, a responsabilidade parece ter recaído sobre ele e em sua boa vontade, quando se trata de um sistema interconectado.

"Aqui a responsabilidade é sem dúvida compartilhada, a cada actor tem sua responsabilidade. Obviamente, a administração joga um papel finque em estabelecer no marco jurídico, as regras do jogo, como se pode comunicar… E as empresas, obviamente, têm um papel fundamental em oferecer produtos e serviços sustentáveis", raciocine Fàbrega.

A importância de comunicar

O experiente de Wallapop menciona uma e outra vez a palavra comunicar. De algum modo, sua companhia é pioneira numa preocupação que se voltou sistémica. "Empresas como a nossa leva muitos anos fazendo muita pedagogia e sensibilização, sobretudo para visualizar os benefícios que tem a reutilização, tanto a nível económico como a nível meio ambiental".

Uma imagem de Movimento Re-Usa-o / CEDIDA

Deve apresentar-se, sublinha, "como uma opção fácil, segura, acessível e mais sustentável". Quanto a sua condição de pioneiros, realça que no Movimento estão "os grandes", como Vinted ou Milanuncios, e se declara "encantado de compartilhar este espaço e esta plataforma para unir vozes". De facto, vai para além e declara que a união tem sido muito fluída e orgânica. "As entidades que estamos, estamos aqui pela mesma convicção. Somos competidores, obviamente estamos num mercado, mas temos tantos interesses em comum e uma vocação tão forte de fazer crescer o sector que tem sido muito fácil", revela.

Compra de mobiliário e material reacondicionado por parte da Administração

O manifesto também aboga por que as administrações "prioricen a compra de mobiliário e material reacondicionado ou reutilizado, destinando assim recursos a opções mais sustentáveis e eficientes". Ao respeito, Fàbregas recorda que as administrações figuram entre os maiores compradores do país, e acha que a medida poderia "sofisticar" os critérios de compra já existentes, chegando, por exemplo, a mobiliário de escritórios, material tecnológico como computadores ou móveis e inclusive uniformes.

"Não é para que toda a compra pública tenha que ser de produto reutilizado onde faça sentido, mas sim vemos uma oportunidade aí para incorporar de uma maneira mais intencional e achamos que pode ter um efeito tractor", assinala.

Uma pessoa conserta um telefone móvel / PEXELS

Oficinas de reparo

Outra das propostas é fortalecer a rede de oficinas de reparo. "O reparo é um tema fascinante dentro do âmbito da economia circular. É um termo muito amplo que inclui muitos modelos e processos, que vão desde a produção ao uso e a recuperação de materiais", expõe Fàbrega. Neste sentido, menciona a diretora européia sobre o direito a consertar, que o Movimento vê "com muito bons olhos".

Consertar, realça, não pode ser mais caro que comprar novo. "Isto é fundamental para que realmente se adopte de maneira em massa entre os consumidores. E aqui acho que as ajudas fiscais por parte da administração (por exemplo, com um eco cheque) podem incentivar todo e gerar mais demanda".