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Domus Nova: o desenho contemporâneo conquista um pátio renacentista de Madri

Enric Pastor, diretor de Maneira Magazine, defende que estas peças revelam como o luxo já não está na acumulação sina na consciência e como o artesanato está acima da produção em série

Juan Manuel Del Olmo

Vista de distintos objetos en la exposición 'Domus Nova' JUANMA DEL OLMO

É pouco provável que Prometeo, que roubou o fogo aos deuses; Heracles, que venceu ao leão de Nemea; e Jano Bifronte, o deus que olha a um tempo o passado e o futuro, concebessem que uma cadeira ou uma mesa pudessem estar fabricadas com resina ou âmbar. Mas aí estão os três seres míticos, em frente a artefactos criados com materiais que resultar-lhes-iam insólitos, como o plástico, e outros de natureza mais familiar, como o vidro.

Tão singular cena pode contemplar-se, de maneira gratuita e até o 8 de março, no Museu de San Isidro - As Origens de Madri. Trata-se de uma mostra de desenho contemporâneo titulada Domus Nova. Desenho para habitar o tempo presente, enquadrada no Madri Design Festival 2026, que propõe "uma reflexão sobre a casa como espaço vivido, sensível e em constante transformação".

Vanguardia e tradição

O contraste entre as peças contemporâneas e o pátio renacentista que têm tomado, localizado em pleno capacete histórico da capital mas muito afastado do trajín dA Latina ou inclusive do Museu Thyssen, é audaz e estimulante.

Uma vista do pátio / JUANMA DO OLMO

A luz a cada vez menos tímida, o som do água da fonte central e os capitais desgastados das colunas de granito, que evidencian os cinco séculos decorridos até hoje, fazem deste pátio um remanso de paz. Afinal de contas, isso é o que deveria proporcionar um lar, por muito pouco monumental que seja e por bem longe do centro que esteja: tranquilidade. Mas esta não é uma acalma aburrida, sina enche de inovação e sagacidad.

44 objetos de desenho num pátio renacentista

Assim, entre os 44 objetos que têm conquistado o pátio—assinados por 33 estudos— figuram platos de arcilla esmaltada, cadeiras de madeira e celulosa, jarrones de varro esmaltado ou um curioso híbrido entre taburete e mesa baixa "concebido como volume contido e sensorial", que mistura artesanato e desenho contemporâneo.

A exposição, que merece uma visita relaxada ainda que não seja tão cacareada como a última renovação do Rainha Sofía ou o desembarco de Chillida em Conde Duque, é um projecto de MANEIRA Magazine e SANTA Living em colaboração com The Masie. Enric Pastor é o diretor de Maneira e, perguntado pela forma na que estes objetos aúnan a parte estética com a practicidad, responde que essa é uma separação bastante contemporânea e, em verdadeiro modo, artificial.

Objetos pensados desde a matéria, o uso e o tempo

"As peças que seleccionamos não são 'bonitas' e depois úteis, ou ao revés. São objetos pensados desde a matéria, desde o uso e desde o tempo. Há uma vontade muito clara de permanência. Muitas das peças da mostra estão trabalhadas com materiais honestos —madeira maciça, cerâmica, fibras naturais, metal— e com processos que fazem visível a mão do criador. Isso não é só uma decisão estética: é também uma decisão funcional e ética", argumenta a Consumidor Global.

A seu julgamento, a boa estética é aquela "que nasce de entender como se usa algo: uma mesa bem proporcionada, um lustre que alumia sem deslumbrar, uma cadeira que recolhe o corpo… aí a beleza é consequência do ajuste entre forma e vida". Parece ressoar uma ideia de Miguel Milão: "sê útil e utilizar-te-ão".

Cadeira Biaritz / THE MASIE

Da Bauhaus à rotundidad de Castilla

Dão vontades de levar-se a casa a cadeira de comedor Biaritz, que "recupera a linguagem tubular metálico herdeiro da Bauhaus e Mies vão der Rohe" (e no site de The Masie se vende por 89,95 euros); ou B.a.r.e.double Curve, um lustre concebido por Lucas Muñoz Muñoz para a exposição Matéria Cinza, que "foi produzida junto a estudantes do projecto social Norte Jovem, integrando desenho e acção comunitária".

'Castilla' / JUANMA DO OLMO

Mais pesado resultaria carregar -e esquivar ao pessoal de segurança- com a maravilhosa consola Castilla, de Jorge Suárez-Kilzi, "que toma seu nome do território e da matéria que a sustenta". Se a pelota estivesse no tejado de Prometeo, Heracles ou Jano, quiçá escolheriam o porrón de vinho em aço inoxidável de Gonzalo Guzmán, que "convida ao gesto coletivo e celebra generosidad como forma de desenho".

Formas orgânicas e lustres como "corpo sensível"

Também destaca um banco de aço, madeira e loneta assinado por Isto Estudo que "diluye os limites entre mobiliário e ficção", com formas orgânicas que "evocam processos de transformação natural, onde pequenas variações produzem identidades singulares".

Vista do banco / JUANMA DO OLMO

Quiçá a mais grácil seja Mother Dweller, uma luminaria "concebida como corpo sensível" que recorda à aranha de Louise Bourgeois.

O lugar dos objetos quotidianos no lar

No caso de Hércules e Prometeo, a questão é mais peliaguda, mas o deus romano Jano sim tem uma relação direta e fundamental com o lar, não como uma deidad doméstica sina como o guardião dos limites, as portas e as ombreiras da casa.

Num contexto no que o preço da moradia tem crescido até inhabilitar projectos de futuro minimamente estáveis, Pastor expõe que, quando o acesso à moradia se volta frágil –por razões económicas, sociais ou inclusive climáticas– "o lar deixa de ser uma obviedad e passa a ser uma conquista. E nesse momento, os objetos quotidianos adquirem outra dimensão".

Uma soma de decisões

Assim, em Domus Nova o lar se lê como "uma soma de decisões: que cadeira eleges para te sentar cada dia, que luz acendes ao anochecer, que mesa reúne aos teus. São gestos aparentemente pequenos, mas profundamente políticos e culturais. Num momento de incerteza, esses objetos deixam de ser mero consumo e convertem-se em ancoragens", raciocina o experiente.

Definem "como queremos viver, quanto tempo queremos que durem as coisas e daí valores projectamos no doméstico. Para MANEIRA, o desenho não é decoración: é uma forma de posicionar no mundo", defende.

A ideia de legado e trascendencia

Ao estar num espaço museístico dedicado à História, um não pode evitar pensar na ideia do legado e a trascendencia, ou inclusive em que peça da mostra desenterrarían os arqueólogos do futuro para conhecer como vivíamos em 2026.

Vista da exposição / JUANMA DO OLMO

"Acho que os arqueólogos do futuro não fixar-se-iam tanto no espetacular como no significativo. Talvez ficariam com uma cadeira que fala de produção local e de escalas humanas. Ou com uma peça de cerâmica que recupera técnicas tradicionais reinterpretadas desde o contemporâneo. Ou com um objeto que prioriza a durabilidade em frente à obsolescencia", aventura Pastor.

Matéria, consciência e artesanato

A seu julgamento, se estes arqueólogos tivessem que entender 2026 através destas peças, "veriam uma geração que, depois de anos de excesso e velocidade, começa a valorizar a matéria, o limite e o tempo. Veriam que o luxo já não está na acumulação, sina na consciência. Que o artesanato está acima da produção em série. Que tudo volta à terra ou se pode reciclar e transformar em outra coisa".

Esse é, conclui, o verdadeiro legado de Domus Nova: não tanto os objetos em si, senão a atitude que os sustenta. "Desde MANEIRA quisemos propor precisamente isso: uma pequena arqueologia do presente que, dentro de décadas, possa se ler como o momento em que decidimos habitar com mais intenção".