Patricia Esquivias, a artista que interroga atenciosamente "a pele das cidades"
Em 'Atenciosamente', que se pode visitar nA Fabra Centre D'Art Contemporani, a artista propõe um percurso por "malhas culturais e humanos"
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Para Patricia Esquivias, como pára Walter Benjamin, nada do passado se tem de dar para a história por perdido. O que ocorre é que Esquivias está a léguas da solemnidad de Benjamin, porque sua forma de "rascar" e desenvolver investigações está impregnada de subtilezas e ironía, e sua erudición nunca é avasalladora, sina que se imbuye da cultura popular e a abraça. Se Esquivias cresse num anjo da história, seguramente seria um que poderia sair em YouTube ou aparecer num rellano.
"Tudo está unido às pessoas, e todas as pessoas têm histórias", conta a este meio esta artista nascida em Caracas em 1979. Esquivias tem exposto seus trabalhos em instituições como o Museu Nacional Rainha Sofía, o CA2M, o Hammer Museum de Los Angeles ou a Tate Modern de Londres, e agora, até o 27 de setembro, os visitantes que vão à Fabra Centre D'Art Contemporani (Barcelona) poderão desfrutar da exposição 'Atenciosamente'.
A atenção ao decorado insospechado das cidades
A mostra, comisariada por Caniche Editorial, vem da mão da publicação de um livro delicioso com esse mesmo título no que se recolhem uma série de cartas nas que a artista "põe o foco sobre o progressivo desaparecimento ou invisibilización das malhas culturais e humanos que não faz tanto insuflaban vida à cidade e ao indivíduo".

Entre os destinatários dessas cartas figuram vizinhos, diretores de museus (como Manuel Segade) ou o dono do kebab mais antigo de Madri, a quem Esquivias pergunta, sem sucesso, pelos formosos e peculiares azulejos de sua fachada. Assim, desfilam por Atenciosamente murales cerámicos que decoram terraços, arcos de ferro, platos pintados ou macetas que parecem "minisarcófagos".
Recopilación de cartas
A ideia de fazer um livro, conta Esquivias a Consumidor Global, era prévia à de materializar uma exposição. Contar com um espaço como A Fabra foi uma oportunidade de apresentar diferentes trabalhos e também um estímulo para se pôr mãos à obra. "Levava anos pensando em fazer o livro: recopilar essas cartas que tenho ido juntando, que têm que ver com um montão de obras e situações", indica.

Em Atenciosamente, o aparentemente quotidiano ou inclusive trivial cedo muta ao insólito e o fascinante. Bom exemplo é um cactus gigante que se trouxe a Espanha desde a Baixa Califórnia para ser plantado no jardim do pavilhão mexicano da Expo 92, em Sevilla. O enorme vegetal "sobrevive no mesmo lugar, que actualmente é um estacionamento". Deste modo, Esquivias, com seu foco, provoca que nos interroguemos sobre as plantas chegadas desde América com o colonialismo e o absurdo destino de alguns elementos daqueles fastos noventeros.
Da curiosidade à protecção
Evidentemente, a atenção é o eixo vertebral do projecto. Para onde se dirige, como e por que. A cada um elege a desenvolver mais ou menos, por suposto, mas ler o livro de Esquivias convida a olhar com outros olhos a cidade. Ao fazê-lo, emergem coisas divertidas, reveladoras ou recuperables. Ela, com seu trabalho e seus reclamos, conseguiu que a Prefeitura de Madri protegesse o único mural que se conserva na via pública do arquitecto canario César Manrique, na rua de Santa Cruz de Marcenado, que representa um botijo e uma hormigonera.
"Acho que não é algo que se promova. Sim encontras muita gente curiosa, como Paco Graco, dedicado a cuidar o património gráfico. O problema é que neste sistema no que tudo vai tão rápido, os negócios mudam constantemente e tudo parece de usar e atirar. Ademais, no colégio, na educação, não se presta atenção a todo o que é a beleza, o meio… as matérias de artes plásticas são quase inexistentes", declara a artista.

Métodos detectivescos
Em alguma ocasião, para poder chegar mais longe numa investigação, Esquivias fez-se passar pela potencial compradora de um andar ou chegou a merodear por um portal mais tempo do que tivesse gostado a de algum vizinho ou goleiro. Afinal de contas, a atenção requer alguns esforços. Mas não convém infravalorarla: segundo Simone Weil, é uma forma de amor.
"A mim me interessa todo o que está nas fachadas dos edifícios", indica, uma superfície que define como "a pele das cidades". Esta peculiar dermis constrói-se, ademais, "a médias" entre os vizinhos, as construtoras, os arquitectos… "Muitas vezes acho que temos esquecido a importância dessa pele", expõe. Com o desenvolvimento dos chamados edifícios zebra, as fachadas perdem paulatinamente o detalhe singular para adoptar uma linguagem padronizada. Modificá-lo-ão os vazios, as variações acidentais e as impressões do passo do tempo. "Parece que o único que podes fazer é pendurar uma bandeira ou um Papai Noel", ri a artista.
Coisas por encontrar
"Passas por um lugar mil vezes e de repente, um dia, fixas-te em algo. A mim mesma me surpreende que sempre tenha coisas por encontrar. E dá-me muito gosto", indica. Com esta ligereza, impugna narrativas hegemónicas sem dar-se muita importância.
À pergunta de como se reconhece quando uma curiosidade ou um achado casual tem o potencial de converter numa história completa, Esquivias responde que "não quereria dizer intuición, mas quase qualquer coisa à dediques um tempo te vai levar a algo".
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