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Quico Peinado e o fechamento de galerias: "Uma obra de Plensa é mais barata em Paris que Barcelona"

O galerista e presidente de Art Barcelona adverte de que muitas pinacotecas desaparecerão se não se baixa a IVA cultural em Espanha

Teo Camino

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O metro quadrado numa buhardilla de Montmartre, o bairro dos artistas de Paris, ronda os 10.000 euros, enquanto no bairro dAs Letras de Madri e no Alargue barcelonés situa-se ao redor dos 5.000. Com as obras de arte sucede o contrário.

"Se queres comprar uma obra de Plensa sai-te mais a conta comprar numa galeria de Paris que numa de Barcelona", lamenta Quico Peinado, vogal da junta do Consórcio de Galerias de Arte Contemporânea e coordenador de Àngels Barcelona, em referência à IVA cultural reduzido do que gozam a maioria de países europeus, excepto Espanha. Uma desvantagem competitiva que tem levado a 125 galerias nacionais a tomar uma decisão drástica: ir à greve.

--Não há voltada atrás? As galerias de Espanha fecharão de 2 ao 7 de fevereiro?

--Não, não há voltada atrás porque não tem tido negociação. Faz dois anos o ministro de Cultura pôs-se a medalha anunciando em Arco que baixaria o IVA, mas tem ido passando o tempo e não se produziu reacção alguma por parte do Governo. A solução de muitas galerias é, inclusive, não ir à Feira de Arte de Madri. Sai-te mais a conta ir a Bruxelas que a Arco. Estamos a atirar pedras sobre nosso próprio tejado.

Dezenas de pessoas na Feira Arco de Madri em 2025 / EP - CARLOS LUJÁN

--As galerias não iam à greve desde 1991, quando o fizeram pelo mesmo motivo. Por que têm demorado tanto em exigir uma baixada da IVA cultural?

--O do IVA sempre o lutámos, e se fizeram correcções pontuas a nível estatal, mas agora há um tema de regulamento europeu. O resto de países têm baixado a IVA cultural e Espanha não. Agora se juntam o acumulado histórico e a insostenibilidad das galerias nacionais.

--"O atraso na adopção de uma IVA cultural está a ser extraordinariamente perjudicial para a arte contemporânea em Espanha", afirmava o Consórcio na semana passada. Até que ponto é insostenible a situação?

--Até o ponto de que terá galerias que terão que vincular com uma empresa estrangeira. A mim sair-me-ia mais a conta ir a Arco Lisboa, que tem um IVA do 6 ou o 7%, que a Madri, porque posso vincular ao IVA desse lugar. Sai-me mais a conta ir fosse e isso repercute nas compras que se fazem em Arco. Se baixasse a IVA cultural, o Rainha Sofía e o resto de museus poderiam comprar mais obras. As instituições não podem pedir colaboração quando nos estão a afogar.

Visitantes no Museu Reina Sofía / EUROPA PRESS

--Têm tido que fechar definitivamente muitas galerias?

--Não directamente, porque muitos galeristas são gente com um perfil empresarial. O problema não é tanto o galerista em si, sina a repercussão que têm as galerias nos artistas. A cada galeria, mais ou menos, representa a dez artistas, e também estão os trabalhadores das galerias. Quiçá uma galeria decida não abrir ao público, porque os custos de abrir gratuitamente ao público são muito altos. O do IVA é a puntilla. E coloca-nos em clara desvantagem com o resto de Europa. Estás a condenar ao sector ao desaparecimento se não baixas o IVA.

--A desvantagem das galerias espanholas com respeito às do França, Itália, Alemanha e Portugal é evidente...

--Todos os países europeus estão por embaixo do 10% e nós estamos em 21%. Olhas o mapa e não faz falta mais reflexão. É muito evidente. Se queres comprar uma obra de Plensa sai-te mais a conta comprar numa galeria de Paris que numa de Barcelona. Inclusive às instituições. É um tema no que há um consenso total dentro do sector. E também com os colegas do resto de Europa. A quantidade de dinheiro que gera esse IVA de 21% não é demasiado alta, em comparação com o dano que nos fazem. Ou baixam a IVA cultural ou afundam-nos. Por isso o da greve é uma coisa extraordinária.

--Por que o cinema e a música sim têm uma IVA reduzido e as galerias não?

--As artes visuais sempre somos as grandes afectadas a nível de subvenções porque temos menos poder. Os Goya vê-os todo mundo, enquanto nós faremos um fechamento e terá a repercussão que terá. Mas a cultura é fundamental para o espírito crítico da sociedade. Ademais, somos o único sector cultural que não trabalha com ticketing. Esperemos que se aprove uma IVA cultural reduzido e possamos seguir abertos e expondo.