Ricardo Seco estreia 'Orgulho Migrante' em 080: "Não procuro agradar, sina dizer o que sento"
Consumidor Global entrevista ao desenhador mexicano para tratar os pontos fortes de sua nova colecção e como a moda se converteu numa forma de activismo
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"Fuck ICE". Este é um das muitas mensagens que se podem ler nas prendas de Ricardo Seco. O desenhador mexicano tem aterrado pela primeira vez em 080 Barcelona Fashion Week com sua nova colecção: Orgulho Migrante. Para Seco, a moda dista muito de ser frÃvola e intrascendente. Todo o contrário: é uma ferramenta com a que "contagiar o activismo", segundo explica a Consumidor Global.
Quase uma centena de peças dão forma a esta colecção, que põe o broche final à terceira jornada da passarela catalã. Uma proposta na que predominam os tons negros para evocar "a dureza da cidade" bem como os verdes, alvos e vermelhos para representar a bandeira de México. E, por suposto, não falta a senha de identidade da marca: o alacrán. A proposta de Seco "não procura encaixar, sina questionar". Porque em seu universo criativo a moda "não é só estética, é narrativa". Sobre isto -e alguns temas mais- palestra com Consumidor Global.
--Tem apresentado pela primeira vez em 080 a colecção Orgulho Migrante, que tem suposto seu debut em 080 com esta proposta?
--Para mim, apresentar Orgulho Migrante em 080 Barcelona significa levar uma história profundamente pessoal a um contexto global. à uma plataforma que dialoga com a diversidade e a identidade, dois pilares de meu trabalho. Espanha tem um significado muito especial em minha vida. A famÃlia de minha mamãe é espanhola, cresci amando este paÃs e sempre o senti como minha segunda casa, inclusive Barcelona é um de meus lugares favoritos no mundo. Por isso, isto ao que lumes debut não é só uma apresentação, é também algo profundamente emocional e simbólico para mim: trazer a voz de México, do latino e do migrante a um lugar que também faz parte de minha história. à um acto de visibilidade, dignidade e conversa cultural.

--Que pretende transmitir Orgulho Migrante?
--A diferença de outras colecções, Orgulho Migrante é uma retrospectiva curada que reúne peças icónicas de diferentes momentos de minha trajectória e as resignifica baixo um mesmo discurso e peças novas criadas para esta colecção retrospectiva. Quero que quem a veja não só observe roupa, sina que senta histórias: orgulho, resistência, identidade, que entenda que migrar não é se perder, sina se transformar.

--Que significa para sua marca ter estado presente a passarelas de Nova York, Paris ou Londres?
--Estar em cidades como Nova York, Paris ou Londres tem sido chave para entender que o local pode ser universal. Permitiu-me amplificar minha mensagem e demonstrar que a identidade mexicana, latina e migrante não é um nicho, é uma narrativa global. Mais que validação, tem sido uma responsabilidade: representar desde a autenticidad e não seguir sempre as tendências

--Num mercado tão globalizado, como se constrói uma marca com uma identidade própria tão notável?
--A identidade não se negocia. Num mundo globalizado, o verdadeiramente valioso é o autêntico. Construir uma marca com identidade implica ter muito claro quem és e daà representas.
--Mas renúncia a outras coisas.
--Sim, às vezes significa renunciar ao imediato ou ao em massa, mas a mudança constróis algo mais sólido, mais honesto e com maior permanência. Não procuro agradar sina ligar, fazer e dizer o que sento. Desfruto ter voz com minha moda.

--Seus desenhos costumam ter um componente emocional e cultural forte, como se traduz isso em prendas que a gente possa levar em seu dia a dia?
--O repto está em equilibrar a mensagem com a usabilidade. Trabalho com silhuetas acessÃveis, mas incorporo elementos que carregam significado: frases, sÃmbolos, gráficos. A ideia é que quem use a prenda não só vista desenho, sina que porte uma história, uma postura, uma identidade. E por que não, também contagiar o activismo.

--Que importância tem na actualidade o storytelling em moda para ligar com o consumidor?
--Hoje é essencial. A moda já não é só estética, é narrativa. O consumidor procura conexão, propósito, algo com o que se identificar. O storytelling converte uma prenda numa mensagem, e aà é onde realmente sucede o vÃnculo emocional.

--Para alguém que descobre a Ricardo Seco, qual seria a prenda que serve como 'porta primeiramente' a seu universo?
--Uma prenda única em pele ou um têxtil de luxo que possas combinar fácil com uma t-shirt ou sudadera com mensagem. à onde converge tudo: acessibilidade, identidade e discurso. São peças que funcionam como manifiestos portáteis. Fáceis de levar, mas com um ónus conceptual clara. E também são prendas que são para quem não tenha medo a expressar o que sente, uma prenda sem género que se soma e realça o que tu és.
