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J. C. Tébar (Asetur): "As mulheres são o principal motor da economia do turismo rural"

A Associação Espanhola de Turismo Rural defende o trato humano como o puntal mais destacado de sua oferta, e reclama mais visibilidade em eventos como Fitur

Juan Manuel Del Olmo

Un hotel rural en Asturias PIXABAY

Se perguntasse-se-lhe a uma pessoa de Düsseldorf, a uma de Birmingham e a uma de Róterdam que é o primeiro que lhe vem à cabeça ao falar de turismo espanhol, provavelmente mencionariam Mallorca, Benidorm, a praia e o sol em abstrato ou a paella (ou algum sucedáneo herético concreto). No entanto, se perguntasse-se-lhe a um espanhol, as respostas seriam muito diferentes.

Quiçá aludissem ao norte como refúgio (ante o calor extremo, o espanhol procura o verde de Astúrias, Cantabria ou Galiza), aos verões da infância num povo de Castilla ou algum rincão pouco masificado que aúne descanso, boa comida e património monumental. Um bom punhado dos povos que possuem esta tríade virtuosa têm conexão com a Associação Espanhola de Turismo Rural (ASETUR), que se define como "a entidade sem ânimo de lucro de maior antiguidade e presença nos territórios rurais".

Letur, turismo rural

Asetur tem outorgado, pela primeira vez, um reconhecimento ao Destino de Turismo Rural de Espanha para um ano. O afortunado em 2026 tem sido Letur, um município albaceteño da Serra do Segura que destaca por seu "capacete histórico de origem muçulmana, seu meio natural e um modelo de gestão orientado à sustentabilidade". Conta assim mesmo com uma coqueta igreja gótico-renacentista. Ademais, em 2024, Letur viu-se muito afectado pela Dana que castigou com especial crueldade à Comunidade Valenciana.

Cartaz de Letur como o Destino Rural 2026 / ASETUR

Como ganhador da primeira edição do prêmio, "Letur contará com actividades gastronómicas, culturais, viagens de familiarização com agências e turoperadores e uma dezena de actos que começarão este próximo 25 de fevereiro na sede da CEOE em Madri", explicam desde Asetur. Falamos com Juan Carlos Tébar Escamilla, presidente da entidade.

--Nos últimos anos tem tido um auge de turistas que elegem destinos rurais. Acha que estes destinos estão suficientemente bem valorizados?

--O turismo rural em Espanha está num momento bastante favorável. Nos últimos anos está a ter um crescimento tanto em estadias como em pernoctaciones. O que é verdadeiro é que a maioria dos clientes que temos são espanhóis. Há alguns destinos muito ponteiros, que quiçá sim recebem algo mais de turismo estrangeiro, mas a maioria é turista nacional. Está bem valorizado, mas é verdadeiro que precisamos ir um passo para além quanto a visibilidade e promoção. Por exemplo, agora que estamos recém saídos de Fitur, reivindicamos que na feira deveria ter um espaço específico para o turismo rural. Muitas associações e todo o meio do turismo rural cremos isto. São muitas as instituições que falam de turismo rural, mas nos falta esse espaço e o vamos reclamar.

--Que acha que procura o viajante que visita destinos rurais?

--Sobretudo, desligar. Procura-se deixar atrás o estrés das grandes cidades e, unido a isto, a autenticidad: ir a uma comarca ou a um povo onde um se volta mais pessoa, mais livre, mais autêntico.

A rua de um município / FREEPIK - kotkoa

--Quais diria que são a zonas mais punteras de Espanha quanto a turismo rural?

--Actualmente, a comunidade que mais turismo rural tem é Castilla e León. Depois há outros destinos muito interessantes, como Astúrias, Cantabria e Galiza; e certas zonas de Andaluzia, Cataluña e Aragón. Acho que Espanha tem tanta diversidade quanto a turismo rural que, em qualquer comunidade, em qualquer comarca, se podem encontrar lugares muito atraentes nos que se conjugan a natureza, a gastronomia, o enoturismo e o turismo ativo. Espanha tem, em seu conjunto, um potencial quanto a turismo rural importantíssimo.

--Mencionava dantes a autenticidad. Como preservar num contexto no que se fala de massificação e inclusive de turismofobia?

--Acho que o turismo rural e de interior, actualmente, não está nessa linha de grandes explorações, ao invés do que ocorre nas ilhas, na costa e as grandes cidades. Estamos em outro plano bem mais humano e tranquilo. Conquanto é verdadeiro que em épocas pontuas (verão, Semana Santa e algumas pontes) alguns povos podem resentirse um pouco pela afluencia de turistas, acho que em general o estamos a fazer bem: os povos e os destinos rurais sabem mais ou menos qual é seu teto. Ademais, o turismo rural aposta sempre pela sustentabilidade. Somos muito conscientes de que tem que existir esse equilíbrio porque, em alguma medida, nós dependemos de nosso meio, de que nossa natureza esteja bem conservada.

Um hotel rural / FREEPIK

--Letur tem sido escolhido Destino Rural de Espanha 2026.

--Desde Asetur pusemos em marcha este prêmio no ano passado. Interessaram-se por ele para perto de uma veintena de municípios de toda Espanha e, finalmente, o júri decidiu que Letur era o apropriado. É um município que sempre tem sido turístico, especialmente em Castilla-A Mancha. Tem um capacete histórico de origem andalusí, todo articulado através de suas fontes, de sua água, e a verdade é que é um grande destino. Se a isso acrescentamos as incidências que viveu Letur a raiz da Dana, que melhor município para que, durante todo o ano 2026, tentamos lhe dar um maior impulso e visibilidade através de uma série de acções e projectos. Acho que bem o merece Letur e todos seus habitantes.

--As mulheres jogam um papel fundamental no contexto rural, quanto à gestão dos alojamentos, por exemplo. Como percebem isto desde Asetur?

--Por suposto, as mulheres têm um papel fundamental, e acho que os homens aparecem bem mais a nível público ou institucional. Mas as mulheres são o principal motor desta economia de turismo rural em todas suas vertentes: alojamentos, hotelaria… Acho que há que o reconhecer bem mais do que se faz.

--Tendências como a inteligência artificial e o big data têm algum peso dentro da gestão do turismo rural?

--Todo o que seja tecnologia e avanços em pró do crescimento e a visibilidade é interessante. Estamos em isso, por suposto. Muitos alojamentos e associações estão virados nestas ferramentas, porque são imprescindíveis para o presente e o futuro do turismo, independentemente de se este é de interior ou de praia. Sim que é verdadeiro, não obstante, que a identidade de nossa oferta e nossa proposta se baseia, como dizíamos dantes, na autenticidad e o trato humano, de maneira muito personalizada. Esse espírito é o mais importante. Há que o harmonizar tudo, mas sem perder a esencia, que é o fundamental para nós. Todos nossos sócios o têm claro: o essencial é o trato humano, familiar e profissional.

--Acha que as administrações deveriam fazer mais por facilitar o desenvolvimento do transporte em determinados destinos turísticos rurais?

–Sim, porque às vezes resulta difícil chegar a determinados municípios. Há pouca conectividade em comboio, em autocarro e inclusive em carro. Sempre reivindicamos que as infra-estruturas devem ser melhores. Há povos que não têm, directamente, serviço diário de autocarros, e isso complica muito as coisas aos turistas. É uma matéria pendente e há que ir melhorando.