A morte de Isak Andic, ocorrida em dezembro de 2024 durante uma excursión em Montserrat junto a seu filho Jonathan, foi considerada inicialmente um acidente. No entanto, a investigação judicial foi reabrindo-se à medida que apareciam contradições nos relatos, novas periciales e, sobretudo, evidências digitais relacionadas com deslocações, comunicações e dados de localização. Entre as diligências ordenadas pela juíza figuram análise de registros telefónicos, historial de telefonemas e dados de geolocalización de dispositivos e veículos.
Nas últimas semanas, o caso tem voltado a ocupar titulares pelo peso que estão a adquirir esses rastros tecnológicos. A investigação examina desde a localização de telefones móveis até os movimentos registados por veículos e outros dispositivos conectados, provocando uma pergunta que vai para além deste procedimento judicial: somos realmente conscientes da quantidade de informação que geramos e deixamos alojada a cada dia?
A testemunha mais implacável de um julgamento
O caso Andic tem recordado como a tecnologia pode desmontar, minuto a minuto, a versão de um pesquisado. Os dados de geolocalización dos veículos e as triangulações das antenas de telefonia móvel têm arrojado uma luz irrefutable sobre o caso, demonstrando que nossos movimentos diários ficam gravados.
Para desentrañar os limites técnicos e legais deste rastreamento constante, Consumidor Global conversa com José María Fachado, diretor técnico de i3e e experiente em ciberseguridad. Através de sua mirada, analisa como os dispositivos mais inócuos de nosso dia a dia —desde um telefone inteligente até uma aspiradora inteligente— se transformaram nos melhores pesquisadores de qualquer cena do crime.
--Pergunta: Acha que os cidadãos são plenamente conscientes da quantidade de dados de localização que geram?
--Resposta: Não, não. Dos dados que se geram a diário somos totalmente inconscientes. No caso Andic, por exemplo, há que entender algo muito singelo: um carro moderno de faixa média já aloja em seu interior onde estás na cada momento, a velocidade, a inclinação ou a altura. Alojam-no todo e pode ser consultado.
--P: Como nos rastrea exactamente o telefone inclusive se cremos ter a localização desactivada?
–R: Um telefone móvel é como um pequeno computador e mede diferentes variáveis ao mesmo tempo. A primeira e mais importante é a rede móvel. Ao ter cobertura com nosso operador, a comunicação com as diferentes antenas permite triangular a posição.
--P: Ainda desactivando a localização?
--R: No telefone fica registado que a desactivaste. Isso gera um oco no tempo, uma inconsistencia que indica manipulação de dados. Ademais, ao chamar, o móvel comunica-se com várias antenas ao mesmo tempo, o que permite triangular com uma exactidão dentre 5 e 10 metros em cidade, e de 100 a 500 metros em zonas rurais. O 90% dos aplicativos que nos descarregamos incluem um rastreamento que vai direto à nuvem.
--P: Onde se alojam fisicamente todos estes historiais de localizações?
--R: O 80% ou 85% desses dados ficam registados na nuvem da cada provedor: Apple, Samsung, Huawei, etc. Quando apanhamos um telefone novo ou instalamos um aplicativo, temos que aceitar uma série de condições, e o 90% da gente lhe dá a "seguinte, seguinte, seguinte".
--P: E, quem tem a capacidade legal e técnica para aceder a eles?
--R: A Lei de Protecção de Dados a nível europeu indica que nós temos o direito de acesso e modificação burocrática desses dados. Assim mesmo, um juiz pode solicitar, baixo mandamiento judicial, o acesso direto a todos esses dados aos provedores do serviço.
--P: Numa investigação, é possível reconstruir com precisão onde esteve uma pessoa vários anos dantes, ou existe um limite técnico?
--R: Dependendo da capacidade do dispositivo, podem-se reconstruir cinco, seis, oito ou dez anos de movimentos. Nas investigações judiciais tenta-se abarcar absolutamente todo o possível. A nível legal, pode-se-lhe solicitar a um operador o que tem alojado durante cinco anos; para além disso não devem o guardar.
--P: No caso de Marta do Castillo recuperaram-se dados de 2009.
--R: No caso de Marta do Castillo recuperou-se o telefone e extraíram-se os dados cruzando-os com as antenas. No crime da Guarda Urbana, ainda que os autores eram agentes da lei e tomaram precauções, as antenas situaram-nos nos pontos finque: a casa e o bosque. Cruzando todos os dados se sabe o percurso exato com muita exactidão.
--P: Suponho que terá margem de erro, não?
--R: A margem de erro de um GPS é de cinco metros, e o de um carro é inclusive menor. As antenas de telefonia móvel variam: em cidade, ao ter mais densidade, a margem é de 5, 10 ou 15 metros; numa zona rural como Montserrat, sobe a entre 100 e 500 metros. Para entendê-lo de forma singela: uma antena de telefonia diz-te em que rua estás, mas o GPS te diz em que canto exato te encontras.
--P: Existe o risco de que se outorgue demasiado peso à evidência digital e se construam conclusões erróneas a partir de dados mau interpretados?
--R: Interpretar os dados é crucial e podem-se gerar hipóteses erróneas. Mas é bem mais fácil executar uma hipótese correta. Se as antenas de telefonia dizem que estás em Montserrat e teu telefone diz que estás em Barcelona nesse mesmo instante, algo não quadra.
–P: Que hipótese se extrai daí?
--R: Pois muito singela: que se apagou ou manipulado a geolocalización do telefone. Mas a antena de telefonia móvel não te vai mentir. Um actor que não tem interesse no caso te situa num lugar, e modificar esses dados da rede é praticamente impossível. Ao final é um compendio; se todos os dados cuadran, é muito difícil que a hipótese seja errónea.
--P: Ainda que o dispositivo mostra uma localização concreta, como se verifica cientificamente que era realmente essa pessoa quem levava o móvel?
--R: Esse detalhe é vital: em todo momento falamos do dispositivo, nunca da pessoa. Se tu ficas em Barcelona e me deixas teu carro e teu móvel para me ir a Montserrat, os dados gerados serão os teus. No entanto, fazer isso demonstra uma intencionalidad de ocultação de dados que os pesquisadores valorizam e cheiram rápido. Não é habitual deixar o carro e o telefone a outra pessoa. Ao final, a geolocalización não se sustenta sozinha: contrasta-se cientificamente com testemunhas, acções e câmaras de segurança para demonstrar quem levava o terminal.
--P:Converteram-se os novos dispositivos quotidianos (relógios inteligentes, altavoces, electrodomésticos conectados) nas melhores testemunhas judiciais?
--R: Totalmente. E isto ocorre pelo desconhecimento que temos do que aceitamos. Os carros de faixa média para acima já são como caixas negras de aviões; um pesquisador liga-se e saca a velocidade, o ponto exato, o trajecto, os tempos, a altura ou se tem tido frenazos e acelerones. Toda nossa vida diária fica registada nos dispositivos.
--P: Pode-se dizer que estamos realmente todo o dia rastreados?
--R: Sim, na cada momento e na cada segundo. O caso Andic recorda que estamos rastreados o tempo todo. É assim. E o motivo pelo que estamos tão localizados é totalmente económico. Quando cedemos os dados de localização a um aplicativo, o fabricante os vende de forma estatística. Se uma empresa quer saber quantas pessoas há num shopping a uma hora concreta, compra esses dados.
--P: Se pede-se-lhe a um aplicativo que não rastree através das opções do sistema, realmente o cumpre?
--R: Se pedes-lho, não te deve rastrear. Se fá-lo, pode-se pesquisar e as marcas enfrentam-se a multas gigantescas. O regulamento da União Européia é extremamente estrita, a diferença de Estados Unidos, e as sanções arrancam em 600.000 euros. Meta e Google já têm recebido multas milionárias por ceder ou vender dados baixo outras prestações económicas. É bastante habitual; não há um ano no que não se sancione a uma grande tecnológica por um tratamento de dados erróneo.
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