O 80% das maçãs em Espanha contêm múltiplos pesticidas tóxicos

Um estudo europeu detecta até sete resíduos diferentes por peça e alerta do "efeito cocktail" que a UE ainda não avalia de forma conjunta

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O 80% das maçãs espanholas analisadas num estudo da Rede de Acção contra os Fungicidas em Europa (PAN Europe), realizado junto a uma dúzia de organizações do continente, continha resíduos de vários pesticidas tóxicos de forma simultânea.

A cifra é similar à registada no França e Itália, ainda que a média dos 13 países examinados é ainda superior: um 85% das mostras apresentava restos de diferentes fungicidas. No extremo contrário situam-se Dinamarca, com só um 20% de maçãs contaminadas, e Bélgica, com um 50%.

Presença de pesticidas

Em termos gerais, o 93% das maçãs analisadas continha ao menos um tipo de resíduo. No entanto, o 85% fazia referência à presença de vários pesticidas ao mesmo tempo, com uma média de três substâncias por peça e casos nos que se detectaram até sete compostos diferentes.

Imagen de un manzano en España / EFE
Imagem de uma macieira em Espanha / EFE

Entre os resíduos identificados encontram-se pesticidas com efeitos neurotóxicos, presentes no 36% das mostras, bem como substâncias PFAS —compostos perfluoroalquilados e polifluoroalquilados, conhecidos por sua elevada persistência— detectadas no 64% das maçãs.

Pesticidas "muito tóxicos"

O relatório assinala que estes resultados não surpreendem se se tem em conta que os cultivos de macieira podem ser fumigados até 30 vezes ao ano com este tipo de produtos.

Ademais, o 71% das maçãs contaminadas estavam-no por pesticidas classificados pela União Européia como "muito tóxicos", substâncias que, segundo a ONG, deveriam ter sido retiradas do mercado mas continuam se utilizando. Em alguns casos, inclusive ter-se-ia incrementado sua presença em alimentos europeus.

Exposição de menores e grávidas

A organização recorda também que o regulamento comunitário prevê desde faz mais de duas décadas que a Autoridade Européia de Segurança Alimentar (EFSA) desenvolva um método específico para avaliar o risco de exposições múltiplas —o conhecido como "efeito cocktail"—, algo que ainda não se materializou.

Actualmente, a maioria das avaliações oficiais analisam a cada pesticida de forma individual, sem ter em conta o impacto combinado de várias substâncias, que poderia resultar significativamente maior. O documento expressa uma especial preocupação pela exposição de menores e mulheres grávidas. De facto, se estas maçãs comercializassem-se como alimentos processados para bebés, o 93% das mostras não cumpriria com os requisitos estabelecidos pela legislação européia.

Recomendações

Desde a ONG espanhola Lar sem Tóxicos, colaboradora do estudo, recordam que a maçã é uma das frutas mais consumidas e recomendam priorizar o consumo de variedades ecológicas e de proximidade, cultivadas sem pesticidas sintéticos.

Por último, os autores do relatório advertem de que a atual proposta ónibus da Comissão Européia em matéria de segurança alimentar poderia rebajar os níveis de protecção sanitária e ambiental. Por isso, instam a reforçar a legislação e promover modelos de produção que reduzam o uso de pesticidas, sublinhando que existem alternativas viáveis e já contrastadas.