Em meus primeiros anos de estudante só se falava de uma diabetes "juvenil" e outra "do adulto". Era algo comum tanto na linguagem académica como no popular. A primeira associava-se a meninos e adolescentes e tinha uma clara origem genética, enquanto a segunda vinculava-se com pessoas de média idade ou maiores, muito em relação com uns hábitos de vida inadequados. Aquela forma de classificá-las era intuitiva, ao mesmo tempo em que simplista: servia para orientar-se, sem compreender do todo que estava a passar.
Apesar de que na década dos anos cinquenta, alguns autores já propuseram uma primeira classificação da diabetes em forma de "tipo 1" e "tipo 2" tiveram que passar muitos anos dantes de que se implantasse. De facto, não foi até 1965 quando um Comité de Experientes em Diabetes Mellitus publicou o primeiro relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre a classificação da diabetes, e não tinha nada que ver com os tipos.
Com o tempo, a idade começou a ficar-se pequena como critério. Tinha adultos com o telefonema diabetes "juvenil" e, pouco a pouco, começaram a detectar-se também casos do telefonema diabetes "do adulto" em meninos e adolescentes. A realidade clínica, como costuma ocorrer, ultrapassou o alcance das etiquetas. Já no final dos noventa a literatura advertia de que a diabetes do adulto "já não era exclusivamente uma doença do adulto", e em anos posteriores se consolidou a ideia de que também não toda diabetes de aparecimento adulta era necessariamente "do adulto".
O primeiro grande giro oficial: da idade ao uso (ou não uso) de insulina
No final do século XX chegou o primeiro grande mudança séria de nomenclatura. Em 1979, o National Diabetes Data Group (NDDG) propôs uma nova classificação que ordenava a doença com outro critério: já não tanto a idade de aparecimento como a necessidade de tratamento com insulina. A partir daí se popularizaron as categorias insulinodependiente e não insulinodependiente. A lógica clínica era evidente, mas não perfeita: descrevia-se como se tratava ao paciente (com ou sem insulina) mas não necessariamente seu tipo de doença.
A OMS somou-se a esta lógica diagnóstica em 1980 e, em sua revisão de 1985, manteve este critério. Mas o verdadeiro problema seguia aí: também não a necessidade de insulina definia com precisão a natureza da diabetes. Tinha pessoas com o que então se chamava não-insulinodependientes que acabavam precisando insulina, e tinha outras cuja classificação inicial induzia a erro. O nome voltava a ficar curto.
O segundo giro: do como tratar a sua origem
O grande avanço chegou em 1997 quando um comité de experientes da American Diabetes Association (ADA) repensou a classificação e apostou pela etiología. A ideia era singela: deixar de nomear a doença pela idade do paciente ou pelo tratamento que recebe, e começar a nomear por seu mecanismo principal. Assim se consolidaram, então, as expressões diabetes tipo 1 e diabetes tipo 2. Pouco depois, la OMS respaldou também essa mudança de rumo. Em 1999, ademais, recomendou que deixassem de se usar os termos "insulinodependiente" e "não-insulinodependiente". Em 2003, a ADA foi ainda mais explícita: essas expressões deveriam ficar eliminadas.
Não se tratava só uma questão de elegancia terminológica. Falar de tipo 1 e tipo 2 permitia escapar de duas armadilhas muito estendidas. A primeira, achar que a diabetes tipo 1 era coisa de meninos. A segunda, pensar que a tipo 2 pertencia por definição ao mundo adulto. Hoje sabemos que a tipo 1 pode debutar na idade adulta e que a tipo 2 aparece também em adolescentes e inclusive em meninos. Nesse contexto, "diabetes do adulto" deixou de ser uma denominação útil e passou a ser, singelamente, uma má explicação.
Terceira meta: nascimento do termo "prediabetes"
Enquanto, outra palavra ia ganhando terreno: prediabetes. A medicina precisava nomear a quem não tinham ainda diabetes, mas também não apresentavam valores normais de glucosa. Esse território intermediário foi-se dimensionando com diferentes categorias, como a glucemia basal alterada e a intolerância à glucosa. O NDDG já tinha definido em 1979 uma faixa de alto risco mediante a intolerância à glucosa, e a ADA introduziu em 1997 a glucemia basal alterada como uma condição de risco. Em 2003 rebajó ademais o ponto de corte de glucosa basal para ampliar essa categoria, e em 2010 assentou-se também o uso da hemoglobina glicosilada como uma nova variável indicadora do risco de padecer diabetes.
A palavra "prediabetes" triunfou porque soava compreensível, sugeria alerta e transmitia a ideia de que algo estava a começar a torcerse. Mas desde o princípio arrastou um problema: dava a entender que se tratava de uma antessala quase natural da diabetes tipo 2, quando a realidade não é tão linear. Não todas as pessoas catalogadas como "prediabéticas" evoluem a diabetes, nem o fazem ao mesmo ritmo, nem compartilham o mesmo risco. Por isso a OMS tem preferido historicamente falar de hiperglucemia intermediária.
Quarta meta: adeus prediabetes, olá etapas da diabetes
O termo "prediabetes" inclui perfis muito diferentes: pessoas que provavelmente desenvolverão diabetes tipo 2 em poucos anos, outras cujo risco é moderado e outras que quiçá nunca cruzem essa ombreira. Isto é, a etiqueta simplifica demasiado e acrescenta outro matiz delicado: converte a milhões de pessoas em "quase doentes" (mas não doentes) com diversos envolvimentos.
Por esta razão nos últimos anos, têm aparecido propostas para abandonar a lógica binária de "normalidade-prediabetes-diabetes" e substituí-la por outra mais gradual. A ideia não é completamente nova: em realidade, responde a um facto bastante elementar, que o risco metabólico não funciona como um interruptor sina como um regulador. Não há uma fronteira biológica nítida onde um dia um "não tem nada" e ao seguinte "entra em prediabetes". O que há é um contínuo.
Em 2024, a International Diabetes Federation publicou um protocolo para detectar dantes a disglucemia e o risco de diabetes tipo 2. A partir desse marco, diversos autores têm proposto um sistema de estádios ou etapas que identifique com mais precisão onde se encontra a cada pessoa na evolução para a diabetes tipo 2. Em 2025 publicou-se uma avaliação desse esquema, e em 2026 um comentário em The Lancet Diabetes & Endocrinology lançou uma mensagem inequívoca já desde o título: tem chegado o momento de começar a falar de "estadificación" da prediabetes e a diabetes tipo 2.
Agora bem, convém não exagerar a novidade. A terminologia da "prediabetes" não tem desaparecido, ao menos não de maneira oficial. A ADA segue utilizando o termo em seus Standards of Care de 2026, e de facto uma das revisões deste ano amplia a recomendação de monitorar a progressão da prediabetes. Isto é, o debate está aberto e ainda que a mudança terminológico não se consumou existe uma probabilidade importante de que ocorra.