O Congresso faz questão de ocultar o preço real dos medicamentos que paga a previdência pública
PP, PSOE e Somar pactuam uma emenda para blindar a confidencialidade dos acordos de financiamento enquanto o Tribunal Supremo estuda se devem fazer-se públicos
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A Comissão de Previdência do Congresso dos Deputados tem aprovado manter baixo confidencialidade o preço real que o Estado paga às farmacêuticas pelos medicamentos financiados pelo Sistema Nacional de Saúde (SNS).
A medida, respaldada por PP, PSOE e Somar, incorporou-se mediante uma emenda transacional na tramitação da Proposição de Lei sobre o programa de cribado neonatal.
Modificação da lei
A reforma modifica o artigo 97 da Lei de garantias e uso racional dos medicamentos e produtos sanitários para estabelecer que os acordos de financiamento atingidos entre a Administração e os laboratórios, bem como a informação derivada de seu aplicativo, terão carácter confidencial.
A nova redacção inclui também os preços de adjudicação dos contratos de fornecimento de medicamentos que celebrem as administrações públicas, o que impediria conhecer o custo real que finalmente assume o Estado depois dos descontos negociados com as companhias farmacêuticas.

A norma poderia chegar ao BOE em poucas semanas
Depois de receber o visto bom da comissão do Congresso, a iniciativa poderia obter em aproximadamente 20 dias a ratificação definitiva no Senado dantes de sua publicação no Boletim Oficial do Estado (BOE).
A aprovação chega num momento finque, já que o Tribunal Supremo tem pendente decidir se os preços reais dos medicamentos financiados com fundos públicos devem ser acessíveis à cidadania.
A origem do conflito: o preço de Luxturna
A disputa judicial começou em abril de 2021, quando a organização Civio solicitou ao Ministério de Previdência a resolução que fixava o preço e as condições de financiamento de Luxturna, um tratamento da farmacêutica Novartis indicado para a distrofia retiniana hereditaria.
A organização reclamava conhecer o custo real do medicamento, ao considerar que o preço publicado nas actas da Comissão Interministerial de Preços de Medicamentos (CIPM) não refletia os descontos posteriores aplicados na negociação.
O Ministério de Previdência, então dirigido por Carolina Darias, não respondeu dentro do prazo estabelecido, o que levou a Civio a apresentar uma reclamação ante o Conselho de Transparência e Bom Governo. O organismo estimou a petição e ordenou ao departamento ministerial dar audiência a Novartis e resolver a solicitação de acesso à informação.
Previdência e Novartis defenderam a confidencialidade
Tanto a farmacêutica como o Ministério se opuseram a revelar os dados alegando que a legislação protege a informação contribuída pelos laboratórios durante os processos de negociação de preços e financiamento. Ademais, argumentaram que a Lei de Transparência estabelece limites ao acesso a informação pública quando pode afectar a segredos comerciais ou interesses económicos.
Em 2022, Previdência e Novartis recorreram a decisão ante o Julgado do Contencioso-Administrativo número 9 de Madri. No entanto, um ano depois a justiça deu a razão a Civio e ao Conselho de Transparência. A resolução considerou que não se tinha acreditado um dano verdadeiro para os interesses económicos ou comerciais da companhia e destacou a relevância do interesse público ao se tratar de medicamentos financiados com recursos públicos.
Que passará agora?
O caso encontra-se admitido a trâmite no Tribunal Supremo, cuja sentença poderia se demorar até dois anos. Se o Alto Tribunal falha em prol de a transparência, sentará uma jurisprudencia que obrigaria a revelar quanto paga realmente Espanha pelos medicamentos.
No entanto, com a nova emenda aprovada por PP, PSOE e Somar, o Congresso parece ter-se adiantado à justiça, blindando por lei um segredo que move milhares de milhões de euros de dinheiro público a cada ano.

