Joel, barquero do restaurante Sol Cala Saona de Formentera: "Partilha 100 paellas ao dia"
Este argentino fez-se muito popular em Formentera por seu vestimenta extravagante e pela forma de conduzir a lancha com paellas gigantes na cabeça que serve aos barcos
Enquanto Joel Vinson abastece gasolina na barca, com um olho posto no surtidor para que "não me goteje", me conta o episódio de Wifi, o apodo pelo que todo mundo o conhece em Cala Saona.
Aqui, nesta praia paradisíaca de Formentera, sua figura alça-se, sobre a areia branca e o água turquesa, graças à pequena embarcação de cor amarela que dirige com a mão esquerda e a suas despampanantes vestimentas, prolongadas numas gafas de sol asimétricas a jogo, coroadas pela imensa paella que leva na cabeça, a modo de chapéu, sujeita unicamente com a mano direita, em direcção aos barcos e yates de luxo que fondean na cala.
"Já estamos em alta mar. Apago o motor para que não nos moleste", aponta Wifi, o barquero do restaurante Sol Cala Saona, quiçá o restaurante com o melhor produto da ilha, dantes de iniciar esta entrevista.
--Joel, por que todos lhe conhecem pelo apodo de 'Wifi'?
--Desde muito chiquito, por nosso apellido, a gente confunde-se e chama-nos Wilson. Anos depois, quando fazia de DJ na ilha, me propuseram fazer o fechamento de um pequeno festival e lhes disse: 'Perguntem se há wifi, se não não posso fincar'. Insisti bastante e, entre risos, puseram-me DJ Wifi. Depois, no primeiro dia que comecei a trabalhar no restaurante Sol Cala Saona, tive que lhe pôr o nome ao copo. Tinha muito bom ambiente e todos tinham apodos, de modo que pus Wifi. É um nome pegadizo e fácil de recordar quando tens que contactar com o barquero.
--Quando começou o mito de 'Wifi' em Cala Saona?
--Em 2020, no verão da pandemia.
--Barquero, paellero, repartidor de felicidade… Como se define a nível trabalhista?
--Sou o freestyle paella delivery de Cala Saona em Formentera.

--Um barquero com muito estilo.
--Pouco a pouco… No primeiro ano tinha uma colecção de camisas grande. A cada dia punha-me uma diferente e à gente gostava. Até que encontrei os conjuntos e comecei e não pude parar. Agora tenho meus conjuntos personalizados desenhados por mim.
--Quantos tem?
--No outro dia contamo-los e tenho 67.
--Como é um dia qualquer em seu 'escritório'?
--Começo cedo, para as onze. A essa hora ainda está tranquilo. Estão os barcos que fondearon à noite na cala e agora começam a chegar os Day Charter de Ibiza. À uma abre a cozinha do restaurante e à uma e vinte já sai a primeiro arroz. Assim sem parar até as cinco da tarde que fecha a cozinha. Às cinco sai a última e depois tenho que sair a recolher, porque sempre te pedem algum indentado a mais. Termino sobre as sete ou as oito da tarde.
--Qual é o segredo para levar a paella na cabeça sem que se lhe caia?
--Balanço, equilíbrio. Foi-se dando. Provei-o, vi que era factível, tenho treinado o equilíbrio e agora posso fazer um montão.
--Quantas paellas reparte um dia forte?
--Ao final, podes chegar a dar de comer a umas 100 pessoas. Umas 25 paellas por dia. Atendo a veintipico barcos.
--Que outros platos lhe pedem?
--Além de arrozes, pedem-me muito gamba vermelha com ovos fritados e batatas, navajas, almejas e a parpatana de atum, uns de meus favoritos, tenés que a provar.
--Todo isso terá que regarlo com alguma bebida, não?
--Muita gente pede indentado de cava, gelo, mojitos.
--Lendo-lhe, a muitos entrar-lhes-á inveja. Mas seguro também há momentos de estrés.
--Óbvio. Tenho bicos de estrés durante a jornada. As pressas já sabes como são. E depois tenho à gente que vem ao restaurante, aos que vou recolher ao barco e os levo.
--Você conquistou a Katy Perry com uma paella. Como sucedeu?
--Um dia vieram a comer ao restaurante Stillz, os diretores do videoclip de Bad Bunny, Rosalía e um montão de músicos, pediram arroz e gravaram-me com seu móvel. Estavam a projectar o videoclip com Katy Perry e a produtora de Ibiza contactou-me. Esteve a chamar-me todo o dia, porque durante o serviço não posso tocar o móvel.
--Não tinha wifi...
--(Risos) Essa noite, em casa, à hora do jantar, falamos por telefone e não mo podia crer. Ficamos ao dia seguinte e disseram-me: 'Preciso que venhas com esta roupa, com estas gafas…' Organizamos um arroz no restaurante, eles vieram com um barco e depois gravamos o videoclip.
--Um dia para recordar. Seguro que abordará os barcos da jet set espanhola e internacional.
--Tem tido bem mais dos que eu reconheça. Esteve Messi, Úrsula Corberó, Lamine Yamal, Alessandro do Piero, a neta do rei Juan Carlos, Leonor.
--Pede-lhes fotografias ou pedem-lhas eles a você?
--Pelo geral, não me saco fotos com ninguém. Só com Lisandro Martínez, que veio com quase toda a selecção argentina quando ganharam a Copa América de 2024. Vieram em três barcos e pediram paella no restaurante, mas não cheguei aos ver a todos.
--É você a pessoa mais popular de Cala Saona?
--(Risos) Não o sei, mas me pedem muitas fotos na praia. Estou em alguns documentários da televisão alemã.
--Que faz em inverno?
--Estou aqui, na ilha. Faço trabalhos esporádicos relacionados com a náutica e também costumo viajar e visitar a amigos e familiares.
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