Claudio Arós: "Meliá sairá prejudicada por operar seus hotéis com a cúpula militar de Cuba"

O professor de OBS Business School explica que está a ocorrer com o turismo na ilha depois do ultimato de Estados Unidos às empresas vinculadas a Gaesa

La fachada de un edificio de la cadena hotelera española Meliá en Cuba   Ernesto Mastrascusa   EFE
La fachada de un edificio de la cadena hotelera española Meliá en Cuba Ernesto Mastrascusa EFE

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Quando Ry Cooder gravou junto aos músicos de Boa Vista Social Clube, o mundo redescubrió uma Cuba alheia ao passo do tempo. Aquelas canções falavam de caminhos de terra, de amores e despedidas, de bairros onde a vida decorria a outro ritmo. Contribuíram a imaginar uma ilha nostálgica e fascinante que parecia existir à margem da geopolítica e dos conflitos do mundo.

Ainda rezuma Chan Chan em algum pátio de Havana e Cienfuegos ainda tem seu guaguancó. Os almendrones seguem percorrendo o Malecón e as fachadas desconchadas continuam fazendo parte de uma estampa reconocible em qualquer rincão do planeta. Mas, durante décadas, por trás dessa postal romântica escondia-se uma economia a cada vez mais debilitada, infra-estruturas deterioradas e uma crescente dependência do turismo como fonte de divisas.

Chega no dia do ultimato

As dificuldades de fornecimento, os blecautes elétricos, a escassez de combustível e a deterioração dos serviços levavam anos erosionando o atractivo turístico de Cuba. No entanto, uma crise que se vinha gestando lentamente se acelerou de forma abrupta o 5 de junho depois do ultimato imposto pela Administração estadounidense e o posterior veto às empresas vinculadas a Gaesa, o conglomerado empresarial controlado pelas Forças Armadas cubanas.

O golpe tem posto em xeque a um dos pilares fundamentais da economia cubana: o turismo. Correntes hoteleiras internacionais como Meliá ou Iberostar têm iniciado sua retirada, aerolíneas como Iberia têm cancelado rotas e milhares de viajantes viram-se obrigados a repensar suas férias. Ante este novo palco, Consumidor Global conversa com Claudio Arós, professor de OBS Business School, para entender que está a ocorrer realmente com o turismo em Cuba e quais podem ser as consequências para o futuro da ilha.

Fotografía que muestra vehículos clásicos en Cuba Ernesto Mastrascusa EFE
Fotografía que mostra vehícus clásicos em Cuba / Ernesto Mastrascusa - EFE

--Pergunta: Para entender a magnitude do problema, convém começar pelo princípio: que está a passar realmente com o turismo em Cuba?

--Resposta: O que ocorre é que o turismo já levava tempo diminuindo. E diminuía, sobretudo, pelas carências e dificuldades que ia acumulando a ilha. Pouco a pouco Cuba foi-se afogando economicamente e problemas como a falta de electricidade ou de combustível têm feito que deixe de ser um destino tão atraente.

--P: Agora se soma o veto estadounidense.

--R: A administração Trump é consciente de que o turismo supunha uma entrada importantíssima de divisas. Parte desses rendimentos terminavam passando por empresas controladas por sectores da cúpula militar cubana. O ponto finque tem sido precisamente Gaesa. O que tem feito Estados Unidos é lançar um golpe dirigido a esse conglomerado, advertindo de possíveis sanções às empresas que trabalhem com ele.

--P: Uma malha que tem acabado provocando uma saída em estampida.

--R: Muitas correntes estrangeiras, incluídas várias espanholas como Meliá, operavam conjuntamente com Gaesa. Ante o risco de sanções, retiraram-se com rapidez. Isso tem debilitado ainda mais ao sector turístico cubano. O mesmo tem ocorrido com algumas conexões aéreas. Agora chegar a Cuba é mais complicado e, ademais, muitos viajantes descobrem que os hotéis que se lhes vendiam como estabelecimentos de luxo já não estão operativos ou têm ficado afectados pela situação.

--P: Por que correntes espanholas como Meliá ou Iberostar operavam sabendo que Gaesa estava no ponto de olha?

--R: Gaesa proporcionava-lhes acesso a infra-estruturas, fornecimentos e capacidade operativa. Desde uma lógica empresarial era o sócio que podia garantir o desenvolvimento desses projectos. Outra questão é que também era evidente que existia um risco associado, porque se tratava de uma estrutura opaca e se sabia que detrás tinha uma importante presença militar.

--P: Acha que as empresas vinculadas ao conglomerado militar pecaram de falta de transparência ao seguir vendendo pacotes turísticos pese ao risco evidente de bloqueio?

--R: Eu não o vejo exactamente assim. Estas empresas realizaram investimentos importantíssimos para aceder ao segmento hoteleiro de alta faixa em Cuba. E para fazê-lo tiveram que pactuar com quem tinha o poder e os recursos. Provavelmente pensaram que a situação manter-se-ia estável durante muitos anos, como tinha ocorrido em outras ocasiões. Cuba tem sobrevivido a momentos muito complexos e seguramente muitos investidores assumiram que desta vez sucederia o mesmo.

--P: Acha que a imagem de marcas tão reconhecidas como Meliá sofrerão um dano reputacional?

--R: Sim, acho que existe um dano reputacional. No turismo a imagem é um ativo fundamental. Ter estado operando junto a uma estrutura como Gaesa já gera controvérsia. Seguir gerindo hotéis de luxo com electricidade 24 horas e gasolina, enquanto a população estava a escuras… Não têm estado demasiado acertados. A imagem de Meliá sairá prejudicada por operar seus hotéis com a cúpula militar de Cuba.

Vendedores esperan en una calle en La Habana (Cuba) Ernesto Mastrascusa EFE
Vendedores esperam numa rua em Havana (Cuba) / Ernesto Mastrascusa - EFE

--P: A retirada tem deixado reservas, voos e pacotes turísticos no ar. Que opções reais tem o consumidor para recuperar seu dinheiro?

--Em general, o consumidor está bastante protegido pela legislação espanhola e européia. O que ocorre é que a retirada tem sido relativamente pouco cara para muitas empresas porque a demanda já vinha caindo. Os hotéis tinham níveis de ocupação baixos e os voos chegavam cada vez com menos passageiros.

--P: Por que?

--R: O viajante medeio observa que há problemas de combustível, blecautes, dificuldades de fornecimento ou inclusive risco de protestos sociais e se pergunta por que assumir esse risco quando pode eleger República Dominicana ou México, onde encontra uma oferta similar e muita mais estabilidade. O turista, ao final, o último que procura é assumir riscos desnecessários.

--P: Os seguros de viagem cobrem realmente situações derivadas de sanções internacionais ou crises geopolíticas?

--R: Depende muito de cada póliza e da letra pequena. O que demonstra esta situação é que os viajantes deveriam revisar com muito cuidado as exclusões dantes de contratar um seguro. Em contextos de instabilidade política ou sanções internacionais é frequente que existam limitações importantes. Por isso é fundamental não dar por facto que qualquer circunstância extraordinária estará coberta.

--P: Que pesa mais hoje na decisão de compra: o preço, a segurança ou a estabilidade política?

–R: As três coisas são importantes, mas quando a percepção de risco aumenta, a estabilidade passa a ter um peso enorme. O que temos visto é que boa parte da demanda se deslocou rapidamente para outros destinos do Caraíbas. Esses destinos já ofereciam preços competitivos e uma infra-estrutura turística muito desenvolvida. Para muitos viajantes a mudança tem sido singelo.

--P: De facto, o 60% do turismo que perde Cuba se está a desviar rapidamente a destinos vizinhos como Ponta Cana ou Cancún. Pode esta sobredemanda provocar uma subida de preços?

--R: Em curto prazo não o creio. São destinos muito preparados e com uma capacidade hoteleira enorme. Têm absorvido boa parte da demanda sem grandes problemas. Agora bem, se a situação em Cuba se prolonga durante muito tempo, então sim poderia ter margem para reajustes de preços. Em médio prazo é possível que vejamos algum efeito derivado de uma demanda mais elevada.

--P: Também aerolíneas como Iberia têm cancelado rotas e assumem perdas importantes. Existe o risco de que esses custos terminem transladando ao consumidor em outras rotas?

--R. Sim, totalmente, eram linhas rentáveis. Agora para ir à ilha há que dar um rodeio e sai mais caro. Mas não falamos unicamente das aerolíneas, também há toda uma indústria afectada. Existe toda uma rede de provedores e empresas auxiliares. De facto, Espanha tinha uma presença importante porque parte dos fornecimentos destes hotéis vinham de Espanha. Há um tecido de pequenas e médias empresas, pois, que também se ficaram paradas totalmente.

Un avión de Iberia / EP
Um avión de Iberia / EP

--P: E a isso se suma a retirada fulminante de Visa e Mastercard.

--R: Totalmente. É muito grave porque o objectivo destas medidas é precisamente cortar o fluxo de divisas. Hoje resulta difícil imaginar um destino turístico onde não possas utilizar um cartão de crédito com normalidade. Se ademais tens dificuldades para chegar em avião e os serviços turísticos apresentam carências, a percepção do destino piora ainda mais. Foi-se fechando pouco a pouco a cada uma das vias primeiramente de dinheiro. E isso complica enormemente a situação económica da ilha.

--P: Os alojamentos privados e os hotéis geridos fora do meio de Gaesa ficam à margem do veto, podem sustentar por si sozinhos a actividade turística?

--R: Não nos níveis que existiam dantes. Seguirá tendo viajantes. Há pessoas com familiares na ilha, gente que viaja por motivos pessoais ou que simplesmente aprecia Cuba e seguirá a visitando. Mas a capacidade destes alojamentos é limitada. Ademais, não costumam pertencer ao segmento de luxo que tinham desenvolvido as grandes correntes internacionais. Existe oferta, mas não suficiente para absorver todo o volume turístico que chegava anteriormente.

--P: Existe o risco de que Cuba fique deslocada de forma permanente em frente a outros destinos do Caraíbas?

--R: Eu acho que Cuba seguirá tendo turismo. A ilha tem uma identidade própria, uma história e um atractivo que não desaparecem de um dia para outro. Se produz-se algum tipo de abertura ou acordo que permita normalizar a situação, parte desse turismo regressará. O que sim veremos é uma redução importantíssima do turismo em massa tal e como o entendíamos até agora.

--P: Vendo a rapidez com a que se deteriorou a situação, deveriam os viajantes descartar os regimes autoritarios de seu radar turístico?

--R: São destinos que implicam riscos adicionais, isso é evidente. Podes ir a Afeganistão ou a Irão, mas quando um viaja quer desfrutar, não estar permanentemente preocupado por possíveis mudanças políticas ou decisões inesperadas.

--P: Mas, a diferença é que o risco num país em guerra resulta visível para o turista. Em mudança, em Cuba não era tão óbvio.

--R: Durante anos Cuba manteve uma imagem internacional muito positiva baseada em sua cultura, sua gente e sua exclusividade. Isso fez que muitos visitantes deixassem em segundo plano questões relacionadas com a falta de liberdades ou de garantias jurídicas. Agora essa realidade resulta bem mais visível e gera uma rejeição que dantes não existia com a mesma intensidade.

--P: Há algum outro destino no mundo ao que poderia lhe ocorrer algo parecido ao que está a passar em Cuba?

--R: Qualquer país cuja indústria turística dependa de estruturas muito vinculadas ao poder político e que ademais esteja submetido a fortes tensões internacionais pode se enfrentar a situações similares. No caso de Cuba, ademais, estamos a falar de um vizinho estratégico para Estados Unidos. Por isso a pressão é especialmente intensa.

Estamos num momento de grande incerteza e seguem aparecendo notícias e especulações sobre possíveis movimentos futuros. Pessoalmente, não acho que se vá produzir uma invasão. Cuba não é Venezuela e tem uma realidade completamente diferente.

O que sim creio é que Estados Unidos tem identificado um momento de especial debilidade para aumentar a pressão e tratar de resolver um conflito que leva décadas marcando a relação entre ambos países.

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