Claudio Arós: "Meliá sairá prejudicada por operar seus hotéis com a cúpula militar de Cuba"
O professor de OBS Business School explica que está a ocorrer com o turismo na ilha depois do ultimato de Estados Unidos às empresas vinculadas a Gaesa
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Quando Ry Cooder gravou junto aos músicos de Boa Vista Social Clube, o mundo redescubrió uma Cuba alheia ao passo do tempo. Aquelas canções falavam de caminhos de terra, de amores e despedidas, de bairros onde a vida decorria a outro ritmo. Contribuíram a imaginar uma ilha nostálgica e fascinante que parecia existir à margem da geopolítica e dos conflitos do mundo.
Ainda rezuma Chan Chan em algum pátio de Havana e Cienfuegos ainda tem seu guaguancó. Os almendrones seguem percorrendo o Malecón e as fachadas desconchadas continuam fazendo parte de uma estampa reconocible em qualquer rincão do planeta. Mas, durante décadas, por trás dessa postal romântica escondia-se uma economia a cada vez mais debilitada, infra-estruturas deterioradas e uma crescente dependência do turismo como fonte de divisas.
Chega no dia do ultimato
As dificuldades de fornecimento, os blecautes elétricos, a escassez de combustível e a deterioração dos serviços levavam anos erosionando o atractivo turístico de Cuba. No entanto, uma crise que se vinha gestando lentamente se acelerou de forma abrupta o 5 de junho depois do ultimato imposto pela Administração estadounidense e o posterior veto às empresas vinculadas a Gaesa, o conglomerado empresarial controlado pelas Forças Armadas cubanas.
O golpe tem posto em xeque a um dos pilares fundamentais da economia cubana: o turismo. Correntes hoteleiras internacionais como Meliá ou Iberostar têm iniciado sua retirada, aerolíneas como Iberia têm cancelado rotas e milhares de viajantes viram-se obrigados a repensar suas férias. Ante este novo palco, Consumidor Global conversa com Claudio Arós, professor de OBS Business School, para entender que está a ocorrer realmente com o turismo em Cuba e quais podem ser as consequências para o futuro da ilha.

--Pergunta: Para entender a magnitude do problema, convém começar pelo princípio: que está a passar realmente com o turismo em Cuba?
--Resposta: O que ocorre é que o turismo já levava tempo diminuindo. E diminuía, sobretudo, pelas carências e dificuldades que ia acumulando a ilha. Pouco a pouco Cuba foi-se afogando economicamente e problemas como a falta de electricidade ou de combustível têm feito que deixe de ser um destino tão atraente.
--P: Agora se soma o veto estadounidense.
--R: A administração Trump é consciente de que o turismo supunha uma entrada importantíssima de divisas. Parte desses rendimentos terminavam passando por empresas controladas por sectores da cúpula militar cubana. O ponto finque tem sido precisamente Gaesa. O que tem feito Estados Unidos é lançar um golpe dirigido a esse conglomerado, advertindo de possíveis sanções às empresas que trabalhem com ele.
--P: Uma malha que tem acabado provocando uma saída em estampida.
--R: Muitas correntes estrangeiras, incluídas várias espanholas como Meliá, operavam conjuntamente com Gaesa. Ante o risco de sanções, retiraram-se com rapidez. Isso tem debilitado ainda mais ao sector turístico cubano. O mesmo tem ocorrido com algumas conexões aéreas. Agora chegar a Cuba é mais complicado e, ademais, muitos viajantes descobrem que os hotéis que se lhes vendiam como estabelecimentos de luxo já não estão operativos ou têm ficado afectados pela situação.
--P: Por que correntes espanholas como Meliá ou Iberostar operavam sabendo que Gaesa estava no ponto de olha?
--R: Gaesa proporcionava-lhes acesso a infra-estruturas, fornecimentos e capacidade operativa. Desde uma lógica empresarial era o sócio que podia garantir o desenvolvimento desses projectos. Outra questão é que também era evidente que existia um risco associado, porque se tratava de uma estrutura opaca e se sabia que detrás tinha uma importante presença militar.
--P: Acha que as empresas vinculadas ao conglomerado militar pecaram de falta de transparência ao seguir vendendo pacotes turísticos pese ao risco evidente de bloqueio?
--R: Eu não o vejo exactamente assim. Estas empresas realizaram investimentos importantíssimos para aceder ao segmento hoteleiro de alta faixa em Cuba. E para fazê-lo tiveram que pactuar com quem tinha o poder e os recursos. Provavelmente pensaram que a situação manter-se-ia estável durante muitos anos, como tinha ocorrido em outras ocasiões. Cuba tem sobrevivido a momentos muito complexos e seguramente muitos investidores assumiram que desta vez sucederia o mesmo.
--P: Acha que a imagem de marcas tão reconhecidas como Meliá sofrerão um dano reputacional?
--R: Sim, acho que existe um dano reputacional. No turismo a imagem é um ativo fundamental. Ter estado operando junto a uma estrutura como Gaesa já gera controvérsia. Seguir gerindo hotéis de luxo com electricidade 24 horas e gasolina, enquanto a população estava a escuras… Não têm estado demasiado acertados. A imagem de Meliá sairá prejudicada por operar seus hotéis com a cúpula militar de Cuba.

--P: A retirada tem deixado reservas, voos e pacotes turísticos no ar. Que opções reais tem o consumidor para recuperar seu dinheiro?
--Em general, o consumidor está bastante protegido pela legislação espanhola e européia. O que ocorre é que a retirada tem sido relativamente pouco cara para muitas empresas porque a demanda já vinha caindo. Os hotéis tinham níveis de ocupação baixos e os voos chegavam cada vez com menos passageiros.
--P: Por que?
--R: O viajante medeio observa que há problemas de combustível, blecautes, dificuldades de fornecimento ou inclusive risco de protestos sociais e se pergunta por que assumir esse risco quando pode eleger República Dominicana ou México, onde encontra uma oferta similar e muita mais estabilidade. O turista, ao final, o último que procura é assumir riscos desnecessários.
--P: Os seguros de viagem cobrem realmente situações derivadas de sanções internacionais ou crises geopolíticas?
--R: Depende muito de cada póliza e da letra pequena. O que demonstra esta situação é que os viajantes deveriam revisar com muito cuidado as exclusões dantes de contratar um seguro. Em contextos de instabilidade política ou sanções internacionais é frequente que existam limitações importantes. Por isso é fundamental não dar por facto que qualquer circunstância extraordinária estará coberta.
--P: Que pesa mais hoje na decisão de compra: o preço, a segurança ou a estabilidade política?
–R: As três coisas são importantes, mas quando a percepção de risco aumenta, a estabilidade passa a ter um peso enorme. O que temos visto é que boa parte da demanda se deslocou rapidamente para outros destinos do Caraíbas. Esses destinos já ofereciam preços competitivos e uma infra-estrutura turística muito desenvolvida. Para muitos viajantes a mudança tem sido singelo.
--P: De facto, o 60% do turismo que perde Cuba se está a desviar rapidamente a destinos vizinhos como Ponta Cana ou Cancún. Pode esta sobredemanda provocar uma subida de preços?
--R: Em curto prazo não o creio. São destinos muito preparados e com uma capacidade hoteleira enorme. Têm absorvido boa parte da demanda sem grandes problemas. Agora bem, se a situação em Cuba se prolonga durante muito tempo, então sim poderia ter margem para reajustes de preços. Em médio prazo é possível que vejamos algum efeito derivado de uma demanda mais elevada.
--P: Também aerolíneas como Iberia têm cancelado rotas e assumem perdas importantes. Existe o risco de que esses custos terminem transladando ao consumidor em outras rotas?
--R. Sim, totalmente, eram linhas rentáveis. Agora para ir à ilha há que dar um rodeio e sai mais caro. Mas não falamos unicamente das aerolíneas, também há toda uma indústria afectada. Existe toda uma rede de provedores e empresas auxiliares. De facto, Espanha tinha uma presença importante porque parte dos fornecimentos destes hotéis vinham de Espanha. Há um tecido de pequenas e médias empresas, pois, que também se ficaram paradas totalmente.

--P: E a isso se suma a retirada fulminante de Visa e Mastercard.
--R: Totalmente. É muito grave porque o objectivo destas medidas é precisamente cortar o fluxo de divisas. Hoje resulta difícil imaginar um destino turístico onde não possas utilizar um cartão de crédito com normalidade. Se ademais tens dificuldades para chegar em avião e os serviços turísticos apresentam carências, a percepção do destino piora ainda mais. Foi-se fechando pouco a pouco a cada uma das vias primeiramente de dinheiro. E isso complica enormemente a situação económica da ilha.
--P: Os alojamentos privados e os hotéis geridos fora do meio de Gaesa ficam à margem do veto, podem sustentar por si sozinhos a actividade turística?
--R: Não nos níveis que existiam dantes. Seguirá tendo viajantes. Há pessoas com familiares na ilha, gente que viaja por motivos pessoais ou que simplesmente aprecia Cuba e seguirá a visitando. Mas a capacidade destes alojamentos é limitada. Ademais, não costumam pertencer ao segmento de luxo que tinham desenvolvido as grandes correntes internacionais. Existe oferta, mas não suficiente para absorver todo o volume turístico que chegava anteriormente.
--P: Existe o risco de que Cuba fique deslocada de forma permanente em frente a outros destinos do Caraíbas?
--R: Eu acho que Cuba seguirá tendo turismo. A ilha tem uma identidade própria, uma história e um atractivo que não desaparecem de um dia para outro. Se produz-se algum tipo de abertura ou acordo que permita normalizar a situação, parte desse turismo regressará. O que sim veremos é uma redução importantíssima do turismo em massa tal e como o entendíamos até agora.
--P: Vendo a rapidez com a que se deteriorou a situação, deveriam os viajantes descartar os regimes autoritarios de seu radar turístico?
--R: São destinos que implicam riscos adicionais, isso é evidente. Podes ir a Afeganistão ou a Irão, mas quando um viaja quer desfrutar, não estar permanentemente preocupado por possíveis mudanças políticas ou decisões inesperadas.
--P: Mas, a diferença é que o risco num país em guerra resulta visível para o turista. Em mudança, em Cuba não era tão óbvio.
--R: Durante anos Cuba manteve uma imagem internacional muito positiva baseada em sua cultura, sua gente e sua exclusividade. Isso fez que muitos visitantes deixassem em segundo plano questões relacionadas com a falta de liberdades ou de garantias jurídicas. Agora essa realidade resulta bem mais visível e gera uma rejeição que dantes não existia com a mesma intensidade.
--P: Há algum outro destino no mundo ao que poderia lhe ocorrer algo parecido ao que está a passar em Cuba?
--R: Qualquer país cuja indústria turística dependa de estruturas muito vinculadas ao poder político e que ademais esteja submetido a fortes tensões internacionais pode se enfrentar a situações similares. No caso de Cuba, ademais, estamos a falar de um vizinho estratégico para Estados Unidos. Por isso a pressão é especialmente intensa.
Estamos num momento de grande incerteza e seguem aparecendo notícias e especulações sobre possíveis movimentos futuros. Pessoalmente, não acho que se vá produzir uma invasão. Cuba não é Venezuela e tem uma realidade completamente diferente.
O que sim creio é que Estados Unidos tem identificado um momento de especial debilidade para aumentar a pressão e tratar de resolver um conflito que leva décadas marcando a relação entre ambos países.
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