Por trás dos cristais da terceira planta do edifício Fiteni, na rua Anabel Segura de Alcobendas (Madri), geria-se um negócio que chegou a facturar 34 milhões de euros anuais. Desde ali dirigia sua actividade AllZone, a plataforma de comércio eletrónico que chegou a autoproclamarse "o comércio on-line do ano" graças a uma oferta de produtos tecnológicos a preços imbatibles.
Hoje, a empresa matriz da loja on-line, All In Digital Marketing S.L., tem caído oficialmente em bancarrota, deixando depois de de sim um reguero de milhares de clientes defraudados, empregados ao limite e um buraco económico de dimensões ainda incalculables.
Uma condenação para os afectados
Consumidor Global leva mais de um ano seguindo o rastro de AllZone que, segundo os últimos registros da Organização de Consumidores e Utentes (OCU), acumula mais de 7.000 denúncias por retenção indevida de fundos e falta de entrega de produtos. Mas o que durante meses se disfarçou de "incidências logísticas" ou "atrasos do provedor" tem agora um nome jurídico inapelable: concorro voluntário de credores.
A entrada em concurso de credores condena a milhares de consumidores que pagaram por telefones móveis, electrodomésticos e outros produtos que jamais receberam. Como costuma ocorrer nestes procedimentos, serão os últimos na lista de credores com opções de recuperar seu dinheiro.
A hierarquia do colapso
A queda de AllZone não responde a um tropeço inesperado, sina à crónica de um desplome anunciado que a própria direcção da empresa tentou negar a este meio. No entanto, ao fim, o próprio Registro Público Concursal tem confirmado oficialmente uma situação que já resultava impossível ocultar. E é que facturar grandes volumes vendendo por embaixo do preço de mercado gera uma liquidez imediata mas fictícia se a cada operação se salda com perdas ou se o serviço pós-venta é incapaz de sustentar a estrutura.
"Esta insolvencia não explode de um dia para outro; é um colapso que vinha avisando com a cada reembolso não executado", explica Iván Rodríguez, advogado especializado em direito de consumo. Para o letrado, a situação do cliente é crítica e as esperanças de recuperar o dinheiro são minúsculas. Dantes de que um sozinho cliente recupere seu reembolso, o administrador concursal deverá saldar as dívidas com a Administração Pública, a Segurança Social, os trabalhadores e as entidades bancárias.
Os rostos das vítimas
Isso sim, tal e como tem comprovado este meio, a página site de AllZone segue ativa e as denúncias de utentes defraudados continuam gotejando com mal horas de diferença. Depois do bloqueio do domínio original de AllZone por parte da entidade pública Red.es o passado janeiro, a actividade comercial transladou-se ao domínio shopenzona.com, onde se segue oferecendo material tecnológico de alta faixa.
"Está claro que Allzone era todo a mentira. Que tenha entrado em concurso de credores é o menos que lhe podia passar. O dono deveria ir ao cárcere e deveriam ter retirado já de internet esta página", declara a esta médio Esperança Ureña, uma trabalhadora da limpeza cuja economia doméstica ficou seriamente danificada pelos impagos da plataforma, depois de conhecer a publicação oficial do concurso.
A impotencia também calou na experiência de Francisco Sánchez, quem conseguiu salvar da fraude graças a sua insistencia e à pressão mediática. "Muita gente com poucos recursos sai prejudicada para que estes caraduras cometam fraudes e, com esta artimaña, deixem na mais absoluta indefensión a multidão de clientes honrados. Aproveitam-se de uma lagoa legal consentida com a passividade de todos", comenta.
A indefensión do consumidor ante um padrão
"Desde minha experiência como afectado, a entrada de AllZone em concurso de credores não me surpreende, ainda que sim deixa uma sensação de indignação e desprotección absoluta como consumidor", destaca o cliente Gerard Martín. "Senti-me mais escutado e arropado por um meio de comunicação como Consumidor Global que pelas próprias instituições e departamentos estatais destinados à defesa do consumidor, os quais deveriam ser os primeiros em nos dar amparo ante estes abusos", acrescenta.
"O mais preocupante é que este desvincule encaixa com um padrão que, segundo temos observado vários afectados e tal como já se recolheu em anteriores artigos deste jornal, poderia se repetir: empresas que operam durante um tempo gerando reputação, acumulam dívidas com clientes e provedores, e finalmente acabam em concurso", avança Martín.
Os precedentes de Pablo Moscoloni, CEO de AllZone
Por trás de toda a polémica de AllZone, se encontra sua CEO, Pablo Sebastián Moscoloni Medina. Tal e como desvelou Consumidor Global na reportagem de investigação A origem de AllZone: assim construiu Pablo Moscoloni seu polémico império de vendas on-line, o diretor executivo da companhia tem um extenso historial no comércio eletrónico que deixa muitas dúvidas.
Seu nome está vinculado a diversas empresas do sector do comércio eletrónico, como The Geekland S.C. (Just Deal), Spain On-line S.L., Systems And Phones Net Moviles S.L., Moviles Netlines S.L. e Smartyyou S.L., compartilham o mesmo padrão.
A investigação prévia deste meio documentou como todas as companhias associadas a Moscoloni, depois de períodos de ofertas por embaixo de preço de mercado, terminavam acumulando queixas por irregularidades recorrentes, incluindo atrasos na entrega de produtos, obstáculos na gestão de reembolsos e um deficiente serviço de atenção ao cliente, bem como denúncias e expedientes de Consumo. Todas elas, a excepção de The Geekland S.C. (segue ativa), têm tido um processo de liquidação difuso. AllZone só tem seguido os passos de seus antecedentes.
Uma empresa em quebra
A dia de hoje, comprar na plataforma vinculada a AllZone não é adquirir um produto, sina fazer uma doação a fundo perdido a uma empresa em quebra.
Consumidor Global tem tentado obter a versão de All In Digital Marketing S.L. depois do auto judicial. Ao fechamento desta reportagem, o mesmo silêncio que desespera a seus milhares de vítimas é a única resposta da companhia.