Bloqueiam o site da AllZone e a loja reaparece sob outro domínio entre milhares de denúncias

Consumidor Global segue de perto este caso, com a obrigação de atender a dezenas de clientes que criticam atrasos, reembolsos que não chegam e uma opacidade difícil de justificar numa loja que se apresenta como "o comércio do ano"

Ilustração do domínio bloqueado da AllZone / Montagem CG
Ilustração do domínio bloqueado da AllZone / Montagem CG

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AllZone, a loja online de produtos tecnológicos que acumula milhares de denúncias por retenção indevida de fundos e falta de entrega de produtos, entrou numa nova e complexa fase. Segundo pode verificar a Consumidor Global, o domínio original da companhia (allzone.es) foi bloqueado oficialmente pela Red.es, a entidade pública adscrita ao Ministério para a Transformação Digital.

No entanto, esta actuação não pôs fim à actividade comercial. AllZone transferiu a sua operação para um novo domínio, shopenzona.es, onde replicou o seu site original. Este site espelho, registado por uma empresa diferente –Alcalink–, reproduz o mesmo catálogo de produtos, a mesma identidade visual e a mesma política de preços, sem que vários clientes tenham sido informados da mudança. O resultado é um emaranhado que levanta questões incómodas sobre a responsabilidade empresarial, a transparência para os consumidores e os limites da supervisão no comércio eletrónico.

AllZone não desapareceu

O acesso à allzone.es é hoje impossível. Fontes da Red.es consultadas por este meio confirmam que o domínio se encontra bloqueado, ainda que, envocando o regulamento de protecção de dados, sublinham que não podem "facultar informação particular" sobre as causas concretas dessa medida nem esclarecer se responde a uma actuação da Polícia Nacional, da Policia civil ou é uma inquietante estratégia de Pablo Moscoloni, CEO da AllZone.

El dominio de allzone.es bloqueado CAPTURA
O domínio da allzone.es bloqueado / CAPTURA

O que é de facto verificável é que, desde 5 de agosto, a atividade comercial passou a decorrer no domínio shopenzona.es, um site que parece desenhado para herdar o tráfico, a visibilidade e as vendas de uma marca denunciada pela opinião pública e as associações de consumidores como OCU e Facua.

La web bajo el dominio de shopenzona.es CAPTURA (1)
O site sob o domínio de shopenzona.es / CAPTURA

A empresa que há por trás do domínio

A perícia por trás deste movimento não é casual. Segundo os dados do registro aos que teve acesso este meio, o novo domínio não está sob o nome de AllZone nem de All In Digital Marketing S.L. (a empresa à qual está vinculada a loja online), mas sim de Alcalink e-Commerce SEO SLL. À frente desta entidade encontra-se Pedro Enrique, CEO de Alcalink, uma empresa especializada no desenvolvimento de sites e marketing para lojas de comércio eletrónico.

Información pública de la empresa que tiene el dominio de AllZone CAPTURA
Informação pública da empresa que tem o domínio da AllZone / CAPTURA

Até datas recentes, e segundo pode constatar este meio, a Alcalink apresentava a AllZone como um "caso de sucesso" no seu portfolio. O dado não é menor. Uma empresa tecnológica especializada em comércio eletrónico –com conhecimento profundo do sector– figura como titular do domínio que hoje permite operar uma companhia sobre a qual, durante mais de um ano, a Consumidor Global publicou informações documentadas sobre atrasos reiterados na entrega de pedidos, dificuldades para obter reembolsos e retenções de dinheiro denunciadas por consumidores. Actua Alcalink como um mero fornecedor técnico ou um parceiro necessário na sobrevivência de um negócio sob suspeita?

Movimentos bancários em nome de outra empresa ligada à AllZone

A investigação detectou, além disso, uma mudança na estrutura financeira desta nova fase. Recentemente, compradores que pensavam estar a interagir com a AllZone relataram débitos bancários em nome da The Geekland, uma empresa constituída em 2012, sobre a qual há pouca informação pública, mas que está historicamente ligada ao círculo do fundador e CEO da AllZone. «Continua a operar e é a matriz de marcas como a Just Deal», confirmou Moscoloni à Consumidor Global no âmbito da reportagem intitulada A origem de AllZone: assim construiu Pablo Moscoloni o seu polémico império de vendas online.

A utilização de uma empresa diferente para processar os pagamentos pode indicar que as plataformas de pagamento associadas ao número de identificação fiscal principal da AllZone foram provavelmente canceladas ou bloqueadas pelos bancos. A reativação da The Geekland permite à organização continuar a angariar liquidez de novos clientes, desviando o fluxo de dinheiro para contas que ainda não foram alvo de intervenção.

A estratégia de AllZone é velha: o polémico historial de Pablo Moscoloni

Como já adiantou este meio na extensa reportagem de investigação citada, existe um padrão de comportamento na trajectória do empresário. O nome de Pablo Moscoloni está vinculado a diversas empresas do sector do comércio eletrónico, como The Geekland S.C. (Just Deal), Spain On-line S.L., Systems And Phones Net Moviles S.L., Moviles Netlines S.L. e Smartyyou S.L.

A nossa investigação anterior documentou como todas as empresas associadas a Moscoloni, após períodos de ofertas abaixo do preço de mercado, acabavam por acumular reclamações devido a irregularidades recorrentes, incluindo atrasos na entrega de produtos, dificuldades na gestão de reembolsos e um serviço de apoio ao cliente deficiente, bem como denúncias e processos junto da Autoridade da Defesa do Consumidor. A estratégia atual (mudança de domínio, utilização de testa-de-ferro tecnológicos e desvio de cobranças) enquadra-se nas táticas de sobrevivência empresarial descritas nos nossos relatórios anteriores para evitar o encerramento definitivo. 

A polícia está atrás disso?

As principais associações de defesa do consumidor, como OCU e Facua, apresentaram denúncias públicas. As reclamações alojam-se em plataformas públicas e fóruns especializados. Enquanto, AllZone, indiferente às queixas dos clientes, gaba-se de ter sido nomeada em 2025 pela controversa entidade "Melhor Comércio Online em Tecnologia pelo terceiro ano consecutivo".

El equipo de AllZone y su CEO, Pablo Moscoloni, en el centro / LINKEDIN - CG
A equipa da AllZone e o seu CEO, Pablo Moscoloni, no centro / LINKEDIN - CG

Fontes policiais consultadas por este meio explicam que "quando há uma acumulação de denúncias por supostas fraudes, inicia-se uma investigação que costuma derivar no encerramento preventivo por parte da Polícia Nacional ou a Policia civil". "É um caso complexo porque escondem-se depois de um site; fechas um e não sabes se operam a partir de Madrid ou a partir de fora de Europa", reconhecem. "De todas, forma, não podemos dar informação sobre se há ou não um processo em curso", concluem.

A opacidade da AllZone

A Consumidor Global contactou a direção da AllZone para lhe dar a oportunidade de explicar por que razão o seu domínio original foi bloqueado e por que razão continua a operar através do site shopenzona.es, comercializando os mesmos produtos e utilizando a mesma identidade visual. 

Até o momento, não se recebeu resposta. O que permanece é, no entanto, uma pergunta incómoda: pode uma empresa continuar a vender com normalidade enquanto se acumulam as reclamações e se bloqueiam domínios, sem informar com clareza os seus clientes?