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O filho que só lhe pede a Facebook fechar a conta de sua mãe falecida ao que Meta ignora

A rede social acumula milhares de perfis de pessoas morridas, que também têm o direito a descansar em paz e a abraçar o esquecimento digital

Ana Carrasco González

Mark Zuckerberg, fundador de Facebook CHRIS TORRES EFE

Xavier Sánchez tem 48 anos e uma biografia salpicada de despedidas prematuras. Depois de superar um cancro herdado de seu pai —falecido aos 65 anos—, Xavier enfrentou faz três anos a perda de sua mãe, Joana Ortiz, que morreu em seus braços aos 70.

Não suportava a ideia do esquecimento total, do desaparecimento definitivo, e decidiu converter o perfil de Facebook de sua mãe numa conta conmemorativa. Era, de algum modo, a forma de mantê-la viva e ativa numa rede social onde os mortos seguem tendo rosto, aniversário e fotografias. Foi um trâmite rápido.

Fechar a ferida

O tempo passa, o luto transforma-se e as necessidades mudam. "Dei-me conta de que não servia de nada que o perfil de minha mãe estivesse ativo. Pára que se não se pode interatuar com ela?", relata a Consumidor Global. "Não me faz graça que as fotos de minha mãe estejam expostas publicamente, e decidi então solicitar o fechamento definitivo da conta", continua. Queria despedir-se, seguir adiante e sellar sua ferida pela dolorosa perda.

No dia de San Valentín, o do amor, enviou a solicitação a Facebook. Copiou a direcção do perfil, anexou o certificado de morte oficial e enviou a solicitação. Esse mesmo 14 de fevereiro, recebeu um correio eletrónico do departamento de privacidade de Meta, a empresa proprietária de Facebook.

A resposta falsa de Facebook

"Sento muito sua perda. Tal como solicitou, tenho eliminado a conta de sua ser querido de Facebook. Isto significa que ninguém poderá procurar a conta nem ver sua informação". A mensagem era clara: a conta tinha sido eliminada. No entanto, até a data, o perfil de Joana Ortiz segue ativo e acessível.

Resposta de Facebook à solicitação de Xavier Sánchez / CEDIDA

Xavier tem voltado a enviar a documentação até em quatro ocasiões. A companhia de Mark Zuckerberg não lhe voltou a responder. "Já me passou o mesmo com meu pai. Para conseguir que Facebook apagasse o perfil após falecer em 2017, tive que enviar a solicitação dez vezes", evoca.

Os passos para apagar o perfil de um falecido em Facebook

"Para poder eliminar a conta de tua ser querido de Facebook, precisamos que nos proporciones certa documentação para verificar que és um familiar próximo ou albacea do proprietário da conta. A forma mais rápida de tramitar tua solicitação é que nos envies uma cópia escaneada ou uma foto do certificado de morte do proprietário da conta", explicam desde Facebook.

"Se não tens o certificado de morte, deverás nos proporcionar um documento que acredite que podes representar à pessoa falecida e um documento que verifique seu fallecimiento (poder notarial, certificado de nascimento em caso que o falecido seja menor, última vontade e testamento, declaração de bens, obituario, cartão conmemorativa)", realçam na rede social.

O maior cemitério do mundo não tem lápidas

Um estudo da Universidade de Oxford realizado pelos pesquisadores Carl J. Öhman e David Watson assinala que a acumulação de perfis de falecidos em Facebook é insostenible e suas projeções são estremecedoras. Estimou-se que ao menos 1.400 milhões de utentes de Facebook terão falecido dantes do ano 2100. Se a rede social continua crescendo ao ritmo atual, a cifra poderia atingir os 4.900 milhões de perfis de pessoas falecidas. Em outras palavras, dentro de umas décadas poderia ter mais perfis de mortos que de vivos na plataforma.

Isto propõe dilemas éticos, ecológicos (pela imensa despesa energética de manter esses dados em servidores) e psicológicos. Como assinalou em seu momento Sheryl Sandberg, exdirectiva de Meta, a cada mês se visitam uns 30 milhões de perfis conmemorativos. A companhia tem tentado implementar inteligência artificial para evitar situações dolorosas —como sugerir convidar a uma festa a alguém que leva anos enterrado—, mas a realidade operativa, como demonstra o caso de Xavier, segue sendo deficiente.

Que ocorre com as contas depois da morte

Para enfrentar este problema, as plataformas têm começado a desenhar ferramentas específicas. Meta (Facebook e Instagram) permite nomear em vida a um "contacto de legado" para gerir a conta conmemorativa ou solicitar a eliminação pós mortem acreditando o fallecimiento.

Google, por sua vez, oferece um "gestor de contas inativo" que permite decidir que fazer com os dados depois de verdadeiro tempo sem actividade. No entanto, a maioria de utentes nunca chega a configurar estas opções. Se em vida mal praticamos higiene digital, menos ainda pensamos em nosso legado virtual.

LinkedIn, por sua vez, foca-se mais na vida profissional. Quando uma pessoa falece, a plataforma permite aos familiares ou conhecidos reportar o fallecimiento mediante um formulário em linha. Uma vez verificada a informação, a conta pode ser eliminada. Não existe a opção de comemorar o perfil, já que sua função é mais trabalhista que social.

O direito ao esquecimento

O que não está do todo claro é o destino final desses dados. Em Espanha, a Lei Orgânica de Protecção de Dados e Garantia de Direitos Digitais (LOPDGDD) reconhece a possibilidade de que familiares ou herdeiros giram os dados de uma pessoa falecida. Este marco liga-se com o direito ao esquecimento, recolhido no artigo 17 do Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD).

A Agência Espanhola de Protecção de Dados (AEPD) é tajante com respeito ao direito ao esquecimento: "O direito ao esquecimento é a possibilidade de voltar a ter controle sobre a própria narrativa digital. Não se trata de reescribir a história, sina de evitar danos injustificados derivados da exposição permanente".

Para Xavier, trata-se da dignidade de sua mãe. Sempre temos procurado a maneira de permanecer, mas quando a permanência é imposta pelo algoritmo de uma rede social, abraçar o esquecimento se converte no acto mais profundo de humanidade.

Consumidor Global pôs-se em contacto com Meta para conhecer sua postura oficial ao respeito, mas ao fechamento desta reportagem não se obteve resposta por parte da companhia.