Rafa Tatay, engenheiro e tiktoker: "Muitos só procuram ficar bem com as marcas"
Este jovem experiente, que está a impulsionar uma comunidade para ligar a programadores, defende a espontaneidad nas redes sociais
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Critica sem saña o Black Friday ou Claude Cod, viste pantalones de Scuffers e jerséis de Eme Estudos e, de vez em quando, expõe a algum famoso (também sem cebarse). É valenciano, engenheiro informático, trabalha em remoto, no ano passado viveu no sudeste asiático durante uns meses ("preferiria cobrar menos a mudança de ter mais liberdade", afirma, sobre a vantagem de teletrabajar) e tem três milhões de seguidores em TikTok.
Rafa Tatay compartilha com esta enorme audiência sua visão do sector tech. Fá-lo com dose de humor e sem tecnicismos, consciente de que o valor real da tecnologia reside em seu impacto nas pessoas e não só na complexidade de seus componentes. Quiçá por isso olha com nostalgia sua antiga Nintendo e se entusiasma com a aerodinâmica de uma bola de futebol. Falamos com ele sobre inteligência artificial, criar conteúdo e… poquito mais.
--Por que decidiste dedicar à criação de conteúdo tech e como foram esses primeiros passos?
--Sempre me interessou a criação de conteúdo, desde pequeno. Na pandemia dei-me conta de que não tinha contido tech em TikTok, e pensei que aí podia ter um nicho. Comecei com tips informáticos, truques, e todo tem ido evoluindo desde então junto com minha paixão, que é a parte de desenvolvedor, para um conteúdo tech que seja pára todos. Afasto-me um pouco da parte mais técnica, na que há que relatar todas as especificações, e tentativa me acercar a um público mais genérico.
@rafatatay O mundo tech está cheio de Tech Bros #tech #españa #lifestyle ♬ som original - TAY
--Com frequência falas de marcas e produtos. Por exemplo, faz umas semanas subiste um vídeo sobre o MacBook Neo, o último computador de Apple. Que te parece?
--Acho que para Apple é uma muito boa jogada. A um utente techie que ande procurando prestações determinadas lhe dão igual 100 euros mais ou menos, mas para um utente médio, é bastante interessante o que oferece a marca por essa quantidade de dinheiro [está à venda desde 699 euros]. Ademais, a gente que utilize um iPhone desfrutará de uns níveis de vinculação que não oferecem Windows ou Samsung nem de longe. Não existe tal compatibilidade. Se meu pai perguntasse-me que computador se compra, dizer-lhe-ia que esse.

--Se pudesses apagar uma tendência tecnológica atual da face da terra, qual seria?
--Referes-te a que é o que mais raiva me dá? Os telefones plegables poderiam estar aí, mas gosto, parecem-me divertidos. Acho que escolheria o auge das assinaturas, as APIs (Application Programming Interface), que geram uma dependência tecnológica total, e demais. Está a tender para o monopólio. É um saco ter que ter um montão de membresías. De repente, Netflix ou Spotify sobem-te a quota duas ou três euros e sabem que é muito complicado que te descadastres.
--Também és natural em tuas críticas. Achas que falta naturalidad em redes, particularmente no âmbito tech?
--Sim, acho que a dia de hoje muitos criadores de conteúdo tech têm encontrado um bom nicho, mas fazem-no desde uma posição parecida à que poderia ter uma revista, na que, a meu julgamento, falta espontaneidad. Muitos simplesmente procuram ficar bem com as marcas. E eu acho que está bem poder ser tu mesmo, te molhar, ter a liberdade de dizer o que te sai dos narizes sem depender das publicidades… Actuar, em definitiva, com um pouco mais de criatividade.

--Que dizer-lhe-ias a uma pessoa interessada em criar este tipo de conteúdo?
--Que fosse muito crítico, que se formasse no que lhe apasiona e aprendesse sem se vender ao melhor postor. Estamos numa era na que parece que quase tudo é acessível grátis. Também animaria a ver o tema da inteligência artificial desde outro ponto de vista, a que a gente não tenha tanto medo, porque a IA não vai fazer que desapareçam todos os trabalhos.
--Precisamente, em redes a cada vez há mais experientes que falam de inteligência artificial. Achas que no contexto espanhol, os diferentes actores estão a adaptar-se o suficientemente rápido?
--Meu primeiro approach é que somos o último macaco. Um dia pode chegar Estados Unidos ou Chinesa e limitar o acesso a estas ferramentas, das que ademais temos grande dependência. Por outro lado, acho que há uma tremenda farsa com respeito ao que a IA pode fazer actualmente. Falei-o com muitos desenvolvedores, e penso que estamos a fomentar que a cada vez tenha mais gente torpe que o fia tudo à IA e prefere não investir dez ou quinze minutos em ler um arquivo. A nível de desenvolvimento, há muito pouca segurança ao redor disto. Parece-me que é uma borbulha que é muito provável que em algum momento acabe explodindo, e todos os desenvolvedores o intuimos.

--Fala do evento privado para programadores que tens montado, em que consiste e como estão a ir essas sessões.
--É verdadeiro que já existiam eventos presenciais, como Valencia Digital Summit, mas o que eu via é que neste tipo de actos tinha uma pessoa em cima de um palco (à qual se endiosaba) que em ocasiões estava a vender a moto. Enquanto, o resto simplesmente escutava, e muita gente desligava. Eu queria imaginar como seria um espaço para valer de gente tech para gente tech, onde todos os programadores estivéssemos ao mesmo nível e um junior não se sentisse inferior por não saber determinadas coisas. De alguma forma, queria que todos tivéssemos protagonismo. A dinâmica do evento é que quando chegas, propões um tema do que queres falar. Depois, quando chega teu turno sais ao centro ao expor, seja qual seja tua posição: um estudante em primeiro de carreira preocupado por suas saídas profissionais ou um senhor que fala de frameworks. Nós somos o centro de atenção, falamos de realidades e compartilhamos nossos pontos de vista. Não há esse fantasmeo que sim está em outros lugares.
@rafatatay Dia 7. Criando um EVENTO para programadores em Valencia #tech #lifestyle #españa ♬ som original - TAY
--Como está a responder a comunidade?
--Realmente bem, para mim está a ser um boom. Organizar dois eventos presenciais em Valencia e ver que há pessoas que percorrem média Espanha para ir e depois saem contentes é muito satisfatório. Face ao futuro, oxalá nuns anos possamos ser a maior comunidade tech de toda Espanha, mas ao mesmo tempo queremos que se mantenha uma parte mais íntima, de petit comité ("logia" ou "seita", o chamamos), onde falamos mais em confiança.
--A popularidade das assinaturas asiáticas é a cada vez maior. Achas que Ásia realmente está a passar acima dos fabricantes europeus e americanos?
--Totalmente. Acho que em Europa não temos tido um investimento para valer e que, em vez de políticas que fomentem o desenvolvimento e expansão, temos assumido muitas políticas limitantes, a nível de engenharia automobilística, por exemplo. Pensemos que a fabricação de microchips em Estados Unidos se delegó a formar gente dentro de Ásia. É vergonzoso que em Europa uma parte importantísima de rendimentos vinga de multas que lhes põe a UE às tecnológicas, e não por benefícios.

--Faz umas semanas subiste um vídeo com a marca Nothing [telefonia e auriculares com carácter inovador e europeu]. Que vídeo sonhado te fica por gravar?
--O de Nothing para mim foi incrível. Acho que um sonho por cumprir seria falar de tecnologia aplicada à esfera desportiva: encantar-me-ia poder focar o tech ao mundo do futebol, ou falar com engenheiros de Fórmula 1 num paddock sobre o que há por trás desses projectos.
