Em 1969, Menorca mal recebia 40.000 visitantes anuais. Nada que ver com os 1,8 milhões que frequentam a ilha na actualidade. Nesse mesmo ano, inaugurou-se o Aeroporto de Menorca (Mahón), substituindo ao antigo aeródromo de Sant Lluís, e abriu o restaurante Trébol, que adaptou o interior de uma gruta de Cales Fonts (É Castell), plantou umas mesas no berço deste precioso porto pesqueiro e começou a servir os melhores pescados da ilha.
Agora que de todo isso faz já mais de meio século, falamos com Damián Olives, o atual proprietário desta casa de comidas à que um sempre volta, verão depois de verão, em procura da felicidade.
--Tudo começou em 1969 com Nito e Marietta, seus pais.
--Minhas primeiras lembranças são correndo por Cales Fonts, comendo gelados sem parar. Era o menino que não parava quieto por aí abaixo. Eu gostava de estar com meus pais e comer imperador (peixe espada), mas com os anos começaram a contratar canguros porque estavam todo o dia no restaurante.
--Sua mãe, Marietta, ainda se deixa ver pelo restaurante.
--Baixa, sobretudo, à hora de comer. E segue fazendo seu famoso brownie!
--O Trébol é famoso pelo brownie, mas, sobretudo, pelo pescado, o lugar e a amabilidad de seus trabalhadores, por sua forma de cuidar ao comensal e pelo carisma de Camacho.
--José Camacho é o alma do restaurante e parte de minha família trabalhista. Leva toda a vida. Temos crescido juntos. É uma máquina. Sempre tem sido o motor e o coração do restaurante, e fico curto…
--Surpreende ver aos mesmos trabalhadores década depois de década.
--Cuidamos-nos os uns aos outros. Levamos muitos anos juntos. De vez em quando, aparece algum jovem e o somámos ao grupo.
--"Visitei É Castell pela primeira vez e recomendaram-me o Trébol", tem escrito uma utente recentemente em TripAdvisor.
--Que nos recomendem é o melhor halago que possa ter. Às vezes, é complicado saber administrar o sucesso e contentar a todo mundo porque, ao final, somos bastante singelos: não usamos molhos, não enmascaramos o produto. Às vezes, criámos expectativas muito altas, e somos simples: temos pescado fresco do dia.
--Nos últimos anos, todo tem subido de preço. Vossas famosas gambas, corvinas e rodaballos também se têm encarecido?
--Teve-se que ajustar o preço e é complicado, mas sempre tentamos dar a quantidade e a qualidade a um preço razoável. A qualidade sempre é máxima, e a quantidade, às vezes, se tem que ajustar. Trata-se de encontrar o equilíbrio.
--E assim se ganharam um oco entre os melhores restaurantes de Menorca.
--Dantes de Camacho estava Vicente Costa. Meu pai morreu em 91 e foi um momento de dúvida no que, graças a Vicente e a Camacho, saímos adiante. E fizeram-no sem muitas pretensões, fazendo sempre o mesmo, com a mesma gente, com o mesmo serviço e a qualidade que nos caracteriza. Temos sido muito constantes em isso, que é algo difícil de ver hoje em dia.
--Seguro que têm clientes tão fiéis que vão a cenar ao Trébol desde seus inícios.
--Há gente que vem desde faz 30, 40 e 50 anos. Lamentavelmente, alguns vão caindo, mas temos uma freguesia de toda a vida que é uma passada. Demonstram uma fidelidade inquebrantável a Menorca e a nós. Temos clientes britânicos dos anos sessenta e é bonito, porque alguns, inclusive, te convidam aos ir visitar a suas terras. Há muito cariño. Para eles é voltar a seu lugar de refúgio e para nós é ver crescer a suas famílias. Ao princípio eram só um casal, depois chegaram os filhos, e agora essas mesas de duas e de quatro se converteram em mesas de oito.
--Entre vossa freguesia também há várias personagens ilustres…
--Há muitos. Costumam vir a cada verão Iñaki Gabilondo, Àngels Barceló, o crítico gastronómico Borja Benyto, conhecido como 'Matoses', entre muitos outros.
--Com quantos dias aconselha reservar mesa em temporada alta?
--Pois olha, agora tenho um amigo que me estava a apertar para uma mesa... E esta semana é impossível. Em agosto seria aconselhável reservar com um par de semanas de antelación, se é uma mesa grande. Se é para um casal com certa flexibilidade, pode ser que encontre mesa na mesma semana.
--São mais de cinquenta anos de histórias… Conte-me alguma.
--Há tantas… A verdade é que sempre temos tido muito bom ambiente. Nas festas de É Castell, que são no final de julho, fechamos e nos juntamos em casa de Camacho para nos colar uma boa festa dantes de começar o agosto. É um pequeno parón dantes de arrancar o mês mais forte do ano, que passa voando.
--Como dizia, a constancia se está a perder e a cada vez ficam menos restaurantes de toda a vida em Menorca… Qual gostaria de recomendar?
--Fazendo um guiño familiar: Cap Roig (Cala Sa Mesquida). Climent e Tòfol, seu irmão, têm um mérito impressionante, porque Cap Roig é um barco enorme e a verdade é que sempre tenho admirado sua dedicação e bom fazer. E também a família de Café Balear (Ciutadella). Está toda a família aí metida e o souberam levar de uma maneira muito adequada. Tiro-me o chapéu com eles.
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