Loading...

A "evidência científica" é uma das expressões pior interpretadas

A sozinha menção de "a evidência científica" não faz que uma recomendação seja verdadeira. Dantes de aceitar um argumento convém entender que significa a evidência neste contexto e daí pode, ou não, se respaldar em nome da ciência

a vintage poster sign illustration 1250x700

Há poucas expressões capazes de blindar um argumento com tanta facilidade como "a evidência científica". Faz parte de debates em congressos, contidos de TikTok, conversas de elevador e artigos jornalísticos. No entanto, em não poucas ocasiões, é possível que os interlocutores não saibam que o que apoiam com essa expressão não coincide com a realidade. Ainda que eles achem que si.

Repete-se continuamente quando se fala de alimentação e saúde. "A evidência científica afirma que o café é beneficioso", "há evidência de que os ultraprocesados aumentam o risco de doença" ou "não há evidência de que o ayuno intermitente funcione". Utilizam-na investigadores, profissionais sanitários, divulgadores, influencers e jornalistas. E, no entanto, em muitas ocasiões, dita expressão contribui mais confusão que certezas. É possível que a origem de própria palavra tenha muito que ver. Explico-me.

Em espanhol, quando algo é evidente, costumamos entender que resulta claro, manifesto ou dificilmente discutível. No entanto, quando um cientista fala de "evidência científica", rara vez tem (ou deveria ter) tanto aplomo.

Do inglês ao espanhol: pequenas diferenças com grandes consequências

O inglês é o idioma da ciência e boa parte da linguagem científica atual procede do inglês. Com este ponto de partida, é preciso coincidir em que uma das palavras mais influentes é 'evidence', um termo que, nesse contexto, se refere principalmente às provas que respaldam uma afirmação.

O espanhol tem incorporado também esse significado técnico e hoje faz parte do vocabulário habitual da investigação biomédica. Mas ao mesmo tempo convive com o significado que já tinha anteriormente em nossa língua: o que resulta irrefutable. Este duplo significado pode estar detrás (em todo ou em parte) de uma habitual e péssima interpretação do conhecimento científico.

Desta forma, quando alguém lê que "existe evidência científica", é fácil que interprete que algo tem ficado definitivamente demonstrado, quando o que realmente se está a dizer é algo bastante mais preciso, ao mesmo tempo que modesto: existem (certas) provas que apoiam uma determinada conclusão. Depois, claro está, terá que sospesar o alcance destas provas.

As provas são diferentes e por isso costuma ser necessário mais de uma

Imaginemos um julgamento por assassinato. Ninguém ficaria convencido porque o promotor enunciara um escueto "há provas de que o arguido é culpado." O primeiro que perguntaríamos que provas são e quantas existem; avaliaríamos sua confiabilidade, se coincidem entre si, ou se há outras provas que apontam em sentido contrário. Pois em ciência sucede exactamente o mesmo. Há provas de muitas coisas, mas… não todas as provas têm o mesmo valor.

Não tem o mesmo nível probatório um estudo que se realiza in vitro, que outro em animais ou que outro em pessoas. Não são o mesmo. Se é com pessoas, mas com poucos participantes, não oferece a mesma solidez que outro realizado com milhares de participantes. Um trabalho observacional pode sugerir uma associação, mas não demonstrar uma relação de causa e efeito entre variáveis. Um ensaio clínico bem desenhado costuma contribuir informação mais robusta que uma série de casos. E uma revisão sistémica pode oferecer uma visão bem mais completa ao analisar conjuntamente todas as investigações disponíveis. Sempre que os estudos de dita revisão tenham uma boa qualidade metodológica.

Por isso, a pergunta do milhão não é se existe "evidência", sina que qualidade tem essa evidência, essas provas. E até que ponto, em definitiva, servem para respaldar realmente uma recomendação.

A evidência científica não é um interruptor

Na conversa quotidiana costumamos propor as coisas como se só tivesse duas possibilidades: há evidência ou não a há. Que é precisamente a forma na que NÃO funciona a ciência.

A evidência não aparece inesperadamente nem desaparece de um dia para outro. Constrói-se gradualmente conforme acumulam-se novas investigações. Em ocasiões as provas são escassas. Outras vezes são contraditórias. Isto é, a evidência não é uma propriedade inerente a um conhecimento. É uma forma de expressar o peso que têm as provas disponíveis num momento determinado.

A ciência não é um sistema de verdades absolutas. Sua fortaleza reside precisamente em que suas conclusões estão sempre abertas para ser revisadas assim que apareçam novas provas, novas evidências.

Em nutrição e dietética esta é uma batalha constante e quotidiana

Como é fácil comprovar, em nutrição é verdadeiramente complicado obter certezas apesar de contar com múltiplas evidências.

Diariamente aparecem centenas de titulares e milhões de conteúdos em redes sociais que anunciam que um alimento (ou suplemento) protege em frente a uma doença ou, pelo contrário, que aumenta o risco da padecer. Muitos desses titulares procedem de um único estudo, cuidadosamente seleccionado com o fim de oferecer uma conclusão llamativa dantes que um conselho realista. No entanto, um estudo isolado rara vez muda por si só o conhecimento científico.

A importância da cada publicação deve valorizar-se integrando com o resto das investigações sobre o mesmo tema. Às vezes confirma o que já se sabia. Outras vezes contribui um pequeno matiz. Em ocasiões contradiz trabalhos anteriores, o que obriga a estudar por que tem ocorrido. E só excepcionalmente modifica de maneira substancial o consenso existente. A ciência avança acumulando provas e conhecimento, não coleccionando titulares.

Cuidemos a linguagem e cultivemos um saudável espírito crítico

No mundo da ciência não existe uma espécie de autoridade com toga que emita veredictos definitivos do tipo "a evidência demonstra" ou "a evidência diz". Ainda que lamentavelmente sejam expressões habituais.

Poderíamos solventar este problema se ao falar de ciência expressássemos-nos de uma forma mais conforme com seu funcionamento. Em muitos casos bastaria com dizer que as provas disponíveis sugerem, indicam, respaldam ou permitem concluir uma determinada afirmação com um verdadeiro grau de confiança. Não é questão de ser tiquismiquis se não de ser precisos com algo tão importante como a saúde.

Assim, a próxima vez que alguém afirme que "a evidência científica demonstra", quiçá convenha não dar a conversa por terminada. Ao invés. É o momento de começar a fazer perguntas.

Que provas existem? Quantas são? Que qualidade têm? Coincidem entre si? Até que ponto respaldam essa conclusão?

A evidência científica não consiste em que algo seja evidente. Consiste em valorizar, com o maior rigor possível, o peso das provas disponíveis. E essa diferença, ainda que só ocupe uma palavra, muda por completo a maneira de entender como funciona a ciência.

Adicione Consumidor Global como fonte preferida do Google de forma gratuita

Mantenha-se informado com as últimas notícias da atualidade.

Ativar agora