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Elma Roura, terapeuta: "O boom de influencers cristãs é muito impactante"

Entrevistamos à autora do livro 'O caminho ao êxtase' (5ª edição) para falar de desenvolvimento pessoal, tantra e outras ferramentas para sair do sofrimento

Teo Camino

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Esperava outro maldito livro de autoayuda e tenho descoberto uma janela aberta ao conhecimento da terapeuta Elma Roura sobre a gestão da dor e do prazer.

Escrito de uma maneira direta e eficaz, o livro O caminho ao êxtase (editorial Kôan) é um convite, sem subterfugios, a trabalhar nossa relação com o corpo para tentar sair do sofrimento. Falamos com Elma Roura, experiente em desenvolvimento pessoal, na redacção de Consumidor Global.

--Como definiria, brevemente, o caminho ao êxtase?

--A experiência humana é uma experiência doliente. Temos que partir desta premisa e ter a humildad de reconhecer que todos sofremos, por muitas razões. Portanto, precisamos ferramentas práticas para ocupar-nos do que nos passa.

--O desenvolvimento pessoal oferece estas ferramentas para sair do sofrimento?

--O tema do desenvolvimento pessoal converteu-se num supermercado e não estou feliz com isto. Eu faz mais de vinte anos que me dedico ao desenvolvimento pessoal, e quando comecei, nessa Barcelona da que sento um pouco de nostalgia, tínhamos fome para valer e experimentávamos porque queríamos essa verdade, não porque quiséssemos intensidade. Porque a verdade existe, é o que nos diz a mística, que é uma sabedoria perenne. O desenvolvimento pessoal começou para dar-nos recursos àqueles que não estávamos apegados a doutrinas religiosas e era uma proposta muito interessante, era uma experiência alternativa.

--E em nossos dias?

--Agora a gente quando tem crises profissionais se mete a fazer isto, porque é a opção mais fácil, mas tem baixado muito o nível. O mais importante do livro é transmitir que os processos vitais, que as mudanças, que as crises existenciales, são dolientes. E, em vez de fazer tanto show de todo isso, o que há que fazer é um trabalho de imersão num mesmo, um trabalho silencioso, íntimo, comprometido, e isto requer tempo, ainda que nas redes sociais nos digam que temos que nos transformar rápido e mostrar a lagrimita em Instagram. Não há coisa mais afastada da realidade. Os terapeutas temos o papel de sacar do buraco e de tender mãos quando um está a experimentar muita solidão. Ao final, sabemos que o trauma tem mais que ver com como vives o que te passa, que com o que realmente te passa. Por isso meu obsesión é oferecer ferramentas numa cultura que carece delas.

--"O capítulo 10 começa assim: "O pensamento positivo converteu-se numa moda nos últimos anos. Quando nos acercamos ao âmbito do desenvolvimento pessoal, inconscientemente começamos a querer ter mais pensamentos positivos e eliminar os negativos. Isto não funciona". Seu livro 'O caminho ao êxtase' vai na contramão das frases bonitas e do desenvolvimento pessoal acelerado?

--É que não funciona. É como quando de pequeno te diziam que comesses Kellogg's para desayunar e agora dizes: 'Deus meu de minha vida, mas que loucura!'. Pois com o desenvolvimento pessoal passa o mesmo. O pensamento positivo introduziu-se por influência de Estados Unidos, veio com o coaching, com o livro 'The secret', que entrou com muita força em Espanha. E tem feito mau. Primeiro porque os pensamentos não os podemos controlar, aparecem e ponto. Não se podem transformar nem eliminar, o único que podemos fazer é os questionar, e que questiones teus pensamentos não significa que amanhã não voltem a sair.

--Há muito vendehumos no sector…

--Se alguém te promete que poderás controlar teus pensamentos, é mentira. Há que entender a natureza da mente, porque grande parte do cérebro está facto para sobreviver. Então, por muito que tente ser positiva, minha tendência é ver o copo médio vazio, porque meu cérebro me quer proteger. Por outro lado, está o tema de que se eu, em meu fuero interno, acho que a vida é uma mierda, por muito que me diga que é bonita, pois não mo vou a crer. Então, a que estamos a jogar?

--À armadilha do pensamento positivo?

--Também têm feito muito danifico todas estas tendências new age de: 'O que tu cries, creias'. Às vezes a vida já aperta o suficiente. Quando vives um momento realmente difícil, o que se precisa é humildad ante a vida, que não sabemos muito bem como funciona e que, pese a que a estudamos, segue sendo um mistério. Todas essas mensagens criam muita pressão para um mesmo. Refiro-me a mensagens do tipo: 'Tenho que controlar meus pensamentos porque se não tudo irá muito pior'.

--Então, que fazemos? Por quem nos deixamos guiar? A quem ou a que nos agarramos?

--Eu acho que do que se trata é do que diziam os místicos, de aprender a observar e daí questionar e acompanhar em nossos processos vitais, e nos acompanhar não significa deixar de sentir essa incomodidad. Muitas vezes do que se trata é de me ficar nessa incomodidad. Imagino-me numa situação onde a alguém se lhe morre um familiar e jamais na vida ocorrer-se-me-ia lhe dizer: 'Bom, pensa em positivo'. O que dar-lhe-ia é um abraço e dizer-lhe-ia: 'Estou aqui. Conta comigo'.

--Escutando-a surgiu-me a seguinte pergunta: O ser humano é especialista em esconder o doloroso e autoengañarse? Esquecemos-nos do corpo e temos entregado as riendas de nossa saúde à mente?

--Ensinaram-nos a não dar espaço ao sentir. Em teu caso, és um homem, e também é verdadeiro que não há tantos homens que façam desenvolvimento pessoal. E a cada vez há mais, mas sempre há mais mulheres. Vimos de gerações onde tudo fica em casa guardadito e agora nos fomos ao outro extremo das redes sociais, mas há pontos médios nos que temos que entender que sentimos. Uma pergunta muito muito singela, mas muito difícil de responder é: 'E agora tu que estás a sentir? Que sentes? Que emoção sentes?'. Às vezes sentir associamo-lo a algo muito intenso e só somos conscientes quando estou muito triste ou quando estou com muita ansiedade. Mas não é assim. Ainda que às vezes é tão subtil que me custa lhe pôr nome. E em que parte de teu corpo o sentes ou onde está tua sensação mais intensa em teu corpo? Este trabalho de acercar-nos ao que sentimos é importantíssimo à hora de nos vincular.

--Sair do sofrimento só é possível através do trabalho diário com o próprio sofrimento, através da meditación entendida como a conexão com a realidade?

--Sim. A meditación convencional é maravilhosa, mas não é prática. É complicado sentar-se 45 minutos pela manhã e pela noite. Muita dessa gente que diz que medita mente. Quase ninguém se senta a meditar. Eu falo de autoindagación, na que usamos o trabalho de The Work, tal e como explico no livro, que consiste em utilizar a mente para sair de uma experiência concreta. Sabemos que a época mais plástica do cérebro se situa entre os zero e os seis anos, pelo que te imagina todo o que se nos tem ficado guardadito. Tudo isto há que ir o colocando, e muitas vezes a terapia fica numa parte muito cognitiva, muito racional, muito reflexiva, mas não é suficiente.

--Falta o corpo.

--Tenho provado 3.000 terapias e nunca tenho encontrado nada como The Work. Não é pomposo, não é intenso, não é pum! Não é uma respiração catártica. Não, é uma experiência silenciosa, íntima, mas muito potente. É questionar-te e é meditación, porque trabalhamos num momento específico no tempo. Se tu não trabalhas num momento específico no tempo, começas a usar a mente reflexiva. The Work não te deixa, porque te leva ao corpo e ao que estavas a viver nesse momento concreto.

--Trabalhas as situações que te fizeram dano, não?

--Exato. Vou ao momento em que fiquei em choque e apareceu o pensamento de que ela não me quer, por exemplo. Trabalho desde essa situação porque é aí onde se gerou o desequilíbrio e se sacou a presença, mas podemos recuperar a presença. É um processo de autoindagación. Há que aprofundar, porque isto não se acaba até que entremos na caixa de mortos. Há que se trabalhar.

--Como podemos voltar ao corpo, ao humano, ao que requer tempo, que é mais necessário que nunca agora que tantas pessoas vão à 'consulta' da inteligência artificial (IA)?

--O humano nunca poderá ser substituído. Por isso é muito interessante que usemos a IA, para nos dar conta de que se não pomos o cu a meditar, por muito que nos dêem explicações, não será suficiente. Fixa-te o que está a passar em Instagram agora. A gente entra e já não flipa quando lê uma frase ou quando escuta algo. Por que? Está muito trillado. Já tens lido muito sobre a mente humana, os apegos, a dependência emocional, já to sabes. Então, que te demonstra isto? Que teu crescimento, que teu desenvolvimento pessoal estava baseado em ler frases, mas nunca te puseste a currar. O que passa é que dá uma verdadeira sensação de segurança e de confort.

--Mas não é suficiente.

--Claro que não. Como também não é suficiente trabalhar só a parte cognitiva. É necessária, mas não é suficiente. Aí está o ponto. Compreender que isto se chama dependência emocional, compreender isto que se pôs de moda de que todos os ex de todas as mulheres são narcisistas, compreender o que me passa, me liberta um pouco da culpa, mas não é suficiente. Igual toca-te pôr-te a praticar um pouco mais. Há que olhar para adentro, há que se acompanhar e isso não se faz com uma câmara diante, sina na intimidem de tua casa. Precisamos dar esse clique.

--O caminho para sair do sofrimento vai bem mais lá de ir um par de vezes ao mês a terapia?

--Sim, e agora também não a vais poder pagar, porque com a quantidade de impostos que pagamos os autónomos, cobrar 60 euros por sessão será absolutamente impossível. Dantes podias cobrar 60 euros, agora com isso não vives. Por isso muitas pessoas estão a deixar de fazer sessões individuais e procuram formatos coletivos. Porque com uma sessão individual ao mês não fazes nada. Não fica outra que ter ferramentas para te trabalhar em casa, mas, claro, era bem mais cómodo que o terapeuta fizesse o 80%. O formato de terapeuta individual vai esgotar-se. Em meu caso, tenho apostado por um modelo mais de comunidade no que ensino ferramentas e meditamos em comunidade, e depois dou acompanhamento. Quando estamos numa situação de crise, precisamos ser acompanhados. O problema é que a psicologia e inclusive no mundo alternativo não têm ferramentas. Não há ferramentas onde possas trabalhar, em grande parte, em tua casa.

--A segunda parte do livro aprofunda no tantra como filosofia de vida. Você introduziu junto a Borja Vilaseca The Work e o tantra na Universidade de Barcelona. Como foi?

--Falamos de faz muitíssimos anos, em Barcelona, onde não tinha mal desenvolvimento pessoal. E metemos-nos na Universidade de Barcelona. Eu estava a dar uma classe de The Work, que não é psicologia, e tantra, que não é sexología. Imagina-te! A mim isto me punha muito. Foi uma época fascinante e era das classes mais potentes. Fazíamos demonstrações em classe. Era todo experiencial, púnhamos o corpo, fazia uma classe de ligar com as pessoas desde um lugar sagrado, honrando ao corpo, não consumindo corpos. No fundo, todos almejamos nos sentir vistos e sentir que nos respeitam. Eram muito bonitas essas classes.

--Eu acho que há muito desconhecimento sobre o tantra. Na contramão do que muitos pensam, vai bem mais lá do sexo. É a busca do êxtase na vida diária. Para o que não tenha nem ideia do que é, quais seriam os primeiros passos para acercar a este estilo de vida?

--Pois tantra para comer, tantra para relacionar-se, tantra para ter sexo. É um termo mau empregado. Ao final, tudo isto te leva a te repensar tua vida. É pôr-lhe consciência. Ademais, o tantra é das poucas vias que inclui a sexualidad, mas também a comida, o respirar… tudo. O tantra é uma filosofia, é uma disciplina mística, que não tem Deus e que o que trabalha muito é a polaridad entre masculino e feminino. É uma linha mais advaita, não dualista. No mundo no que vivemos estamos a anos luz disso. Ao final, leva-te a estar mais presente, a estar mais no corpo, a ver como te relacionas com o desejo, a estar com o que há, ainda que seja contraditória com o desejo, que tem que ver com a ausência, não com a presença. O tantra é o salvavidas de qualquer vínculo em longo prazo porque leva-te a tocar como se fosse pela primeira vez, a olhar como se fosse a primeira vez, a estar presente. Então, já não tens relações como de sempre, sina que tens que entrar na sensação, e isso é muito necessário hoje em dia.

--Mais necessário que nunca na era do porno. Os meninos começam a consumir porno a idades muito temporãs e depois custa-lhes não reproduzir isso que têm visto em suas relações, ou sentem medo à intimidem com o outro ao sair do mundo digital. Por isso, te queria perguntar cuán necessário é o tantra nestes tempos digitais.

--Não tem nenhum sentido consumir pornografía. Pára que, se o interessante é estar na realidade? É como preferir ter um noivo IA ou estar todo o dia vendo filmes românticos a compartilhar em tua vida real. Bom, a vida real é mais decepcionante, evidentemente, mas coño, é mais real, não? É que o melhor do sexo não é o coito, sina a conexão. Em minha via tántrica sempre vou apostar pela intimidem, pela conexão, pela profundidade no vínculo. Isso é o que te enche. Há que se entregar. Estar vulnerável ao outro é o que nos liga. Entendo que em algum momento dar-nos-emos conta disto.

--Está muito relacionado com essa baixa tolerância à frustración, ao sofrimento, à decepção que te podes levar na vida real, não?

--Ao final, tudo é medo ao abandono e à rejeição.

--A sexualidad segue sendo um tema tabu de portas para afora. Temos involucionado nesse sentido?

--O ser humano é pendular. Avançamos em muitas coisas que são muito necessárias, mas o problema é que perdemos coisas valiosas pelo caminho. Porque é um avanço poder divorciar-se, e ao mesmo tempo preocupa-me que estejamos a perder a capacidade de criar vínculos sólidos. Também é importante desenvolver um vínculo com o trascendental, ainda que um pouco mais independente da religião. Que passa com a geração que agora tem 30 anos? Esta geração, que tem crescido num mundo digitalizado, não tem conexão com o trascendente e se está a meter ao cristianismo. É muito impactante. Voltou-se um boom. Temos todas as influencers cristãs... Eles não têm vivido o que era estar numa escola religiosa. O que observamos é o péndulo. Agora mesmo tudo é muito líquido, efémero, e em vez de construir vínculos desde o sólido, como não o sabemos fazer porque não temos recursos emocionais, pois nos vamos para atrás.

--Sigo sem entender por que nos custa tanto falar de sexo quando é algo natural, biológico e comum em todos os seres humanos. Por que não se estuda?

--A gente vem avergonzzada porque não desfruta o sexo, porque temos um conflito, pois não tenho orgasmos, não tenho líbido, não tenho erecciones. Ao final, não quero reconhecer que estou a fracassar em algo, como qualquer outra área. Não queres te sentir exposta ou que te ridiculicen, ficar como a rara, a diferente, porque há uma imagem de que todo mundo desfruta muito com o sexo, mas não é verdade. A chave é que todos estejamos muito informados, mas a educação está a anos luz disto. Eu faço classes de sexualidad feminina e masculina. Receber um masaje de outra mulher respeitando uns limites pode ser muito liberador, porque nunca se sentiram tocadas desta forma. Tens que o viver. Com muito poquito, mas sendo muito bem tocadas, se exitan muito rápido. Há que trabalhar os bloqueios e ter recursos em teu próprio corpo.