María Sánchez, diretora de Noel: "Faltam mulheres no sector cárnico espanhol"
Uma entrevista reveladora sobre os desafios e oportunidades que transformam a indústria cárnica em Espanha, desde a igualdade de género até a exportação a Chinesa, passando pela peste porcina
Nos felizes anos 20, Isidro Bosch abriu um pequeno talho em Olot (Girona). Duas décadas depois, seu filho, Josep Bosch, comprou junto a Salvador Berga uma fábrica de embutidos na mesma localidade. Assim nasceu um legado familiar que chega até nossos dias da mão de Noel Alimentar, uma multinacional cárnica que facturar 664 milhões de euros anuais.
Aproveitamos a feira de Alimentar & Hostelco de Barcelona para conversar com María Sánchez, diretora de marketing de Noel, sobre a actualidade do sector.
--O consumo de carne levava várias décadas num ligeiro descenso, mas tem subido em 2024 e 2025. Como definiria a actualidade do sector cárnico em Espanha?
--Certamente, o consumo está a crescer moderadamente. A parte de charcutería está num crescimento do 2-3% a nível de volume, dependendo se é presunto cocido, peru ou outro produto, e em valor o crescimento é ligeiramente superior por um tema de preços. Em carne fresca, o crescimento está um pouco acima do que é charcutería, e se justifica pelo descenso de outras categorias como o pescado. As fontes de investigação de mercado dizem-nos que há um verdadeiro trasvase. Baixa de forma bastante exagerada o consumo de pescado e isto deriva num maior consumo de carne.
--Mas o preço da carne de porco sofreu uma queda histórica em dezembro…
--Estamos à expectativa, porque faz relativamente pouco e os preços vão-se regulando semanalmente. Há que esperar para sacar conclusões. Teve uma baixada quando se declarou a peste porcina e agora estamos a detectar este repunte.
--Quando surgiram Heura e outros alternativas vegetais à carne, se respirava verdadeiro temor no sector cárnico. Esses temores fazem parte do passado?
--Nos últimos anos, temos visto que esta tendência tem tido subidas e baixadas. Tem evoluído. Quiçá consolidou-se um pouco mais em outros países. A categoria plant-baseied teve seu momento e agora, como se pode ver na feira, também não tem tanta presença como anos atrás.
--Enquanto, Noel tem triplicado a facturação na última década. Qual é o segredo?
--Se digo-to, copiar-nos-ão. (Risos) Nada é por acaso, e por trás da sorte há uma forma de focar os mercados e de trabalhar de uma maneira estratégica com os clientes. Estes factores têm feito que Noel tenha triplicado sua facturação.
--Abristes-vos a novos mercados.
--A exportação sempre tem pesado muito dentro de nossas vendas e se consolidou. Estamos em mais de 66 países. Abrir novos mercados dá-te esse crescimento. O consumo de carne também nos foi a favor, contrariamente ao que parecia quando diziam que comer carne era mau entre aspas.
--O consumo de carne aumenta, o de pescado afunda-se e o estudo The Green Revolution estabelece que mal há um milhão de vegetarianos e veganos em Espanha. Esse boom 'veggie' nunca chegou a ser tal?
--As últimas cifras que lembrança dizem que os veganos não chegam ao 1%, os vegetarianos estão ao redor de 2% e os flexitarianos não chegam ao 8%.
--Tudo joga a vosso favor.
--Bom, a distribuição também vai crescendo em número de lojas, e se tu estás nesse cliente, esse crescimento vai unido ao revendedor. Também dizer-te-ia que a inovação é um pilar estratégico importantíssimo e tentamos lhe dar valor a uma categoria que já de por si é muito madura.
--Como inova o sector cárnico?
--Um presunto cocido ou um presunto serrano consumiu-se toda a vida em Espanha, não? Então, inovar neste mercado tem seus reptos, mas ponho-te um exemplo: na faixa Delizias lançamos faz poucos anos o formato pétalos, que é um formato loncheado muito finito, colocado a mão. A experiência de consumo não tem nada que ver com o formato loncheado convencional. Nestes produtos apostamos pela qualidade a topo e por uma percentagem cárnico muito alto. Todas estas inovações, todo este contribua de valor ao mercado, têm contribuído ao crescimento de Noel.

--Há algum produto cujo consumo tenha crescido mais que o resto?
--Eu dizer-te-ia que o crescimento vem pelos formatos. Detectamos que o balcão está a cair ligeiramente comparado com o formato loncheado. Também depende de se o retailer aposta ou não por um formato de loja mais ao corte. Ao final, os dados demonstram que o consumidor procura mais practicidad, por isso o formato loncheado embalado funciona melhor que ao corte.
--Também tendes lançado produtos que não têm nada que ver com a carne.
--A diversificação. Até faz uns anos, Noel era eminentemente cárnico, e recentemente temos ampliado nosso portfolio com categorias que não têm praticamente nada que ver. É alimentação, mas com Nature TapTap temos lançado cremes de verduras, gazpachos e aderezos. Trabalhamos com Nandu Jubany toda a parte de platos ready to cook, como são os canelones ou as croquetas. Entramos no mercado de pizzas. Esta diversificação, que ainda é relativamente pequena comparado com nosso negócio principal, não deixa de contribuir um crescimento extra ao que seria orgânico.

--Espanha é o principal exportador de porco a Chinesa. Que peso tem o gigante asiático dentro deste crescimento de Noel? Afectou-vos a subida de impostos ao 19,8%?
--Noel pretende ser um grupo global, e o que faz Chinesa, evidentemente, nos afecta a todos. Certamente tem tido essas dificuldades das que falas, ou esses reptos quanto aos impostos, mas nós tentamos ser mais estratégicos, mais eficientes, à hora de ver que peças, dentro da categoria de carne fresca, são as melhores para comercializar na cada mercado.
--A cada país tem seus costumes…
--Exato. Não todo o vale para todos os países. Se encontras dificuldades ou reptos, como os impostos em Chinesa, tentamos revalorizar todas estas peças do porco que não se comercializam em outros mercados.
--A que partes se refere?
--Estômagos, pulmões, coração, testículos...
--Tudo isto se exporta a Chinesa?
--Aos mercados asiáticos, sim. Agora não me sai a palavra específica.
--Casquería?
--Sim. No mercado asiático, este tipo de produto tem mais aceitação.
--Gostaria de afundar no tema da peste porcina. Não vos afectou a peste porcina?
--Contentes não podemos estar. Chegou de repente, ninguém lho esperava, mas no mercado no que estamos há muitas crises e há que lidiar com os reptos que se apresentam. Como vemos nós a peste porcina? Estamos à expectativa de seguir sua evolução. Por agora está controlada e nossa opinião é que se fez um bom trabalho de controle. A reacção foi rápida e o plano de acção muito resolutivo. Ao final, são animais selvagens... Em nosso caso estamos a falar meramente do porco branco, e a peste porcina não não se contagia em humanos. Então, dentro das consequências que tem, como variabilidad de preço, matéria prima e demais, confiamos em que a Generalitat e todas as administrações seguam controlando a situação para que não vá mais.

--Espanha é a huerta de Europa e poderia ser qualificada como a granja de Europa. Temos 35 milhões de porcos. Mais que nenhum outro país europeu. Não sê se é um motivo para se sentir orgulhoso ou não…
--Sim, eu penso que sem dúvida. O sector porcino tem um peso importantísimo dentro do que representa Espanha. Identifica-nos quase como cultura, eu diria gastronómica. O presunto é um elemento icónico e o cárnico é um sector que tem evoluído muitíssimo nestes últimos anos a nível de tecnologia, a nível de sustentabilidade, a nível de desenvolver talento, a nível de criar empresas com bem mais valor que não puramente o produto.
--Estão a fazer-se as coisas bem?
--Estão a fazer-se as coisas bem com boas práticas, interesse em investigação e desenvolvimento e em melhorar os produtos para que contribuam valor ao consumidor, porque se vê um produto, mas por trás desse produto há uma indústria, há uma maneira de fazer, há um bem-estar animal, há uns investimentos, umas equipas. Eu penso que temos uma jóia alimentar que faz parte da cultura de nosso país. Há que seguir nesta linha.
--Não queria terminar esta entrevista sem lhe perguntar se faltam mulheres em postos diretivos no sector cárnico espanhol.
--Igual que te dizia que evoluímos favoravelmente em todas estas áreas de investimento e inovação, certamente o ratio não está equilibrado a dia de hoje. Mas a cada vez está a pôr-se mais ênfase e cuidado, mais sensibilidade, em que tenha mais mulheres, e mulheres diretivas também. Acho que não é um tema sozinho do sector cárnico, sina que é comum em muitas outras áreas. Esta manhã estava numa conferência e justamente o enfoque era muito feminino, sem querer fazer profecia da liderança feminina no sector cárnico.
--Seria um pouco ousado com o que se pode ver ao passar pelo estand do Poço e outras empresas…
--Eu penso que pára que as coisas passem, tem que se falar disso e tem que ter sensibilidade para o tema, e tenho detectado que assim é. Portanto, sou otimista e quero pensar que nos próximos anos, se voltamos a ter esta entrevista, não estaremos a falar de 30% de mulheres em postos diretivos, espero que possamos falar de 50% ou mais e chegar a esse equilíbrio.

