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Repsol cobra facturas estimadas durante onze meses sem prévio aviso

Com os contadores baixo chave e o preço do gás em vilo, uma família galega teme o "hachazo" de uma regularización que poderia superar os 800 euros

Contadores eléctricos de un edificio   Eduardo Parra   EP
Contadores eléctricos de un edificio Eduardo Parra EP

Para a imensa maioria dos consumidores, abrir a correspondência bancária em pleno inverno e encontrar um recebo de gás de mal vinte euros seria motivo de alívio, quiçá até de celebração. Para María José García e seu marido, Ramón Pérez González, essa cifra ridiculamente baixa foi um mau presságio.

Na localidade costera de Ribadeo (Lugo), onde os invernos exigem que as calderas trabalhem a pleno rendimento, aquela factura não tinha nenhum sentido. Desde faz três anos, o casal tinha mantido um contrato combinado de luz e gás com Repsol. Suas facturas bimensuales rondavam os 100 euros, uma quantidade razoável que se cobrava de forma automática. "Não me ponho a revisar a cada recebo a cada vez que chega porque estou a fazer outras coisas", confessa García. No entanto, em fevereiro e março deste ano, a companhia modificou a periodicidade a mensal sem prévio aviso.

Repsol, ao descoberto

"Estranhou-nos muitíssimo. Descarreguei-me a factura, estive a olhar e dou-me conta de que a leitura era 'estimada'. Descarrego-me as do ano anterior e descubro que nos estão a estimar as leituras desde faz onze meses", relata a afectada. Durante quase um ano, a companhia não tinha medido seu consumo real de gás. Tinha-o estado calculando de forma estimada.

Indignados pela descoberta, o casal interpôs várias reclamações ante Repsol. "Quando assinamos o contrato, exigimos expressamente que as leituras fossem reais", assegura García. A energética, por sua vez, argumenta que é o cliente quem deve facilitar a leitura acedendo ao contador.

Gasolinera de Repsol / EP - MIGUEL CANDELA
Logo de Repsol / EP - MIGUEL CANDELA

Proibida a entrada

A diferença dos contadores de luz —que em Espanha são digitais e permitem a telegestión em tempo real—, a imensa maioria do parque de contadores de gás requer inspecção visual. E essas equipas não estão no corredor de casa.

"Os contadores estão num quarto fechado com chave, com um triângulo que adverte de perigo e proíbe a entrada a toda a pessoa não autorizada", explica a agraviada. "Eu não tenho chave, não tenho autorização e, ademais, não tenho a preparação em prevenção de riscos para andar manipulando um quarto de gás. Isso é inviable, por muito que me diga a companhia", assinala.

A angústia pela factura por chegar de Repsol

A angústia imediata da família Pérez García não é a quantidade que têm pago até agora, sina a que está por chegar. O regulamento vigente (Lei do Sector de Hidrocarburos) permite às revendedoras facturar de maneira estimada se, por causas alheias à empresa, não é possível aceder à equipa de medida. O objectivo é evitar que o cliente acumule impagos.

Não obstante, a lei exige que, tarde ou cedo, se produza uma regularización baseada numa leitura real. E é aqui onde arraiga o pânico. "Vão cobrar-me o que temos gastado inesperadamente. Vamos encontrar-nos com uma factura de 700 ou 800 euros".

Num ano marcado pelas turbulências geopolíticas e a flutuação constante dos preços da energia, que tarifa aplicará Repsol a esse consumo estimado? Cobrar-se-á ao preço de hoje, mais caro que faz um ano, ou se prorrateará com precisão? "Se eu não pago esta factura, a mim me vão cortar o fornecimento. Vejo-me como um consumidor totalmente indefeso", adverte García.

"Estamos num capitalismo selvagem"

"Estão a ganhar mais dinheiro que nunca; que contratem gente para fazer essas leituras", reclama García. "É muito cómodo dizer ao vizinho que a mande ele mesmo", acrescenta.

"Tens que dedicar uma hora diária a todos estes cometidos dos consumos da casa, e é complicadísimo. Há gente que não tem nem ideia. Toca-te pagar o que vinga e, se não tens o dinheiro na conta, o procura. Estamos num capitalismo selvagem que nos está a fritar por todos os lugares. A ver se espabilamos todos já", conclui.

Repsol defende-se

Consumidor Global pôs-se em contacto com Repsol para conhecer sua postura oficial ao respeito. "Como comercializadora, Repsol factura em base aos consumos que comunicam as empresas revendedoras. Neste contrato concreto, a revendedora estava a remeter de forma recorrente consumos estimados", comenta.

"Repsol reclamou em várias ocasiões a leitura real e ofereceu ao cliente a possibilidade de facilitar uma foto do contador para transladar à revendedora, opção que finalmente não se materializou", declara a empresa. "Contactou-se com o cliente e lembrou-se regularizar a facturação com a leitura real, fraccionando o custo em 12 meses para evitar um único desembolso. O cliente tem mostrado sua conformidade e, por tanto, a reclamação dá-se por fechada", concluem desde Repsol.

"Não estou conforme, mas me fica outra que o aceitar. Poderia demandá-los, mas não me compensa", assinala por sua vez García a este meio. "Não há nenhuma lei que proteja aos consumidores para que não volte a passar", finaliza.