Ara Martí, cantor de jazz, debuta nA Pedrera: "Dar um concerto por 20 euros não é ético"
Entrevistamos à jovem música menorquina, que se estreia nesta sexta-feira, 5 de junho, em Talents Jazz, o festival que organiza a cada verão a Fundació Cataluña A Pedrera na azotea do edifício de Gaudí
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Ara Martí (Ciutadella)
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--Alguma vez tinha-se imaginado cantando num palco tão idílico?
--A verdade é que não. Sabia que se faziam concertos aqui e, obviamente, tinha vontade do fazer, mas, agora que estou a terminar a carreira superior com especialidad em jazz e música moderna, é como um sonho. Nunca te imaginas que te vão chamar para actuar nA Pedrera.
--Como vão os nervos?
--Por agora, estou bastante tranquila.
--E à medida que acerque-se a hora do concerto?
--Acho que estaremos um pouco atacados.
--Que se costuma trabalhar no ensaio prévio ao concerto?
--Como é um projecto de arranjos próprios de regulares de jazz, o temos bastante preparado. Faz um par de semanas estivemos na Nova Jazz Cava e no outro dia gravamos os temas em estudo, mas sempre há cositas que retocar. A este concerto vêm dois músicos convidados, o saxofonista Pablo Martín e a cantora Amanda Mish, de modo que começaremos ensayando os temas com eles.
--Poder-nos-ia desvelar algo do repertório?
--São regulares de jazz, mas com arranjos, com muito compás de amalgama, para dar-lhes um enfoque diferente de como costumam se tocar. O repertório está formado por temas como Nardis (Milhares Davis), All or Nothing at All (Sinatra), Devil May Care, East of the Sun… São temas conhecidos dentro do mundo do jazz, mas lhes quisemos dar uma volta. Igual também incorporamos algum tema mais blusero para chegar ao público. Vão desfrutá-lo muito.
--Faz pouco entrevistei a um diretor de orquestra muito jovem que debutaba no Palau da Música com uma versão reduzida de uma ópera para atrair a novos públicos.
--Dentro do público jovem, há muita gente que escuta jazz. De facto, surpreendes-te quando vais a alguma jam session aqui em Barcelona. Existem dois mundos. Por um lado, está o mainstream, e depois está a gente que entende um pouco mais de música. Quando faço outro tipo de concertos, tento incorporar canções com as que eu comecei a me interessar pelo jazz. Por exemplo, algum tema de Nina Simone, Ray Charles, Etta James…
--Em era-a de TikTok e reguetón, que espaço lhe fica ao jazz?
--Eu não sou muito consumidora de música mainstream atual. Para mim o jazz sempre terá um lugar na cultura. O que passa é que, com o tempo, igual se vai perdendo um pouco.
--Mudando de tema. Agora que está a acabar a carreira, como vê o panorama trabalhista no sector da música?
--Homem, aqui em Barcelona é bastante complicado. Há muitos lugares onde tocar e muita concorrência. E muita gente jovem que está a começar. Então, acostumamos-nos, e incluo-me, porque quando comecei com os concertos fazia o mesmo, a dar um concerto por 20 ou 30 euros. Pensa-lo, e não é ético. Entre a deslocação, a montagem, os ensaios... É um trabalho um pouco precário. E estamos acostumados a que gente jovem que quer tocar e tocar e tocar, pois que o faça grátis ou a mudança de poder expor seu projecto. Que está bem, porque é um escaparate e dá visibilidade, mas acho que também não teríamos que aceitar trabalhos tão precários. Acho que pecamos um pouco disso e os bares e os clubs tentam rascar todo o que podem. E, como dizias, a cada vez triunfa mais a música mainstream.
--Cantar nA Pedrera para ti é...
--Um sonho. Não mo esperava. Quando mo disseram, contestei: 'Em sério?'.
--Graças por seu tempo, que vão bem os últimos ensaios e, sobretudo, que não chova.
--Espero que não. Parece que pela tarde não choverá. Esperemos, rezemos.