Na desordem do bairro Gótico de Barcelona, a rua Riudarenes joga ao esconderijo com os transeúntes. No número sete deste callejón esconde-se o hotel Wittmore, um alojamento de cinco estrelas que opera baixo o código do adults only e o luxo discreto.
Ali, em seu pátio central, revelou-se o subsuelo invisível da cidade. Deu-se visibilidade às mulheres que lavavam roupa e compartilhavam histórias nos antigos lavaderos públicos do século XIX que ocuparam o solar onde hoje se levanta esta boutique. E fazer com a arte da escultora multidiciplinar Berta Branco T. Ivanow.
'Mnemósine'
Baixo o título Mnemósine, Berta Branco T. Ivanow inaugura a segunda edição de Projecte 360º, uma iniciativa artística impulsionada por Splash International Culture Agency e a comisaria Dessislava Pirinchieva. A proposta transforma o pátio interior do hotel Wittmore, célebre por albergar o jardim vertical mais alto de Barcelona com mais de 3.000 plantas, numa tela efémera.
"Ao final, esta obra só existe aqui porque tem um sentido com a memória histórica do lugar", explica Ivanow a Consumidor Global. "É interconectar, adaptar a um espaço mais hostil onde há água, chuva e plantas. É um projecto site-specific: ou funciona aqui, ou desaparece", enfatiza.
A obra, entre a neurociencia e a mitología grega
Mal ficam algumas marcas no pavimento que delatam aquele passado doméstico e coletivo, mas a artista tem decidido o reconstruir desde o simbólico. "Tem algo de artesão, de acto repetitivo e de purificação. O água não só se leva as penas e os medos, sina que te devolve o objeto purificado. Comecei moldando maquetas de arcilla com esses mesmos gestos físicos de lavar, e depois traduzi-os a cristal, um material que mostra a vulnerabilidade e a fragilidade de dita feminidad coletiva", comenta Ivanow.
A instalação joga com uma dualidad cromática intensa: o vermelho e o verde. Longe de ser uma eleição estética, Ivanow inspira-se nos desenhos neurológicos de Santiago Ramón e Cajal. As peças imitam as ramificações do cérebro e as veias, os canais por onde transita a energia e a lembrança. O próprio título da obra evoca a Mnemósine, a deusa mitológica da memória, mãe das musas, colocando-a em tensão constante com sua contraparte, Lete, o rio do inframundo que representa o esquecimento.
A experiência inmersiva que chega ao paladar
A apresentação de Mnemósine foge da frialdade das galerias convencionais. Também não limita-se a ser contemplada desde os estreitos ventanales das 22 habitações do hotel. Fiel à filosofia da própria escultora, onde a obra não conclui até que se experimenta, se inclui uma performance desenhada para dissolver a distância elitista entre o espectador e a peça artística.
Os assistentes dispõem de peças de jabón artesanal que podem moldar com suas mãos, replicando o desgaste e a interacção das antigas lavanderas. Assim mesmo, há um som ambiente de fundo, enquanto uma intérprete susurra frases sobre a lembrança e o esquecimento escritas de punho e letra pelo público.
A proposta chega inclusive ao paladar. O chef do hotel tem desenhado um plato e uma bebida específicos inspirados na obra. "Esta experiência gastronómica estará disponível na carta do hotel até o próximo 14 de setembro, coincidindo com o último dia em que a obra estará exposta", destaca Andrea Figueras, membro da família proprietária (Anima Hotels) em declarações a este meio.
"A arte é o DNA de nosso hotel"
"Entendemos estes espaços como as salas 0 de uma galeria de arte. É um lugar para dar visibilidade a artistas que quiçá ainda não têm tanta voz ou não encontram outras maneiras de expor seu trabalho, aproveitando ademais o fluxo constante de pessoas que transita pelo hotel", comenta Figueras ao explicar como sua proposta se desmarca de uma indústria hoteleira que, com frequência, utiliza a arte sozinha como um elemento decorativo.
O Wittmore colabora desde 2023 com o festival Art Nou, exibindo e premiando a criadores emergentes como Rose Madone, Jan Vallverdú e Roman Fabré. Agora Projecte 360º supõe um passo mais: utilizar o jardim vertical como suporte artístico efémero. A primeira edição esteve protagonizada por Rosa Tharrats. Agora chega Ivanow com uma intervenção bem mais vinculada à memória do edifício. "A arte é o DNA de nosso hotel", realça Figueras.
O hóspede tem uma folha de rota
"Um dos hóspedes nos comprou uma obra", admite a proprietária do hotel Wittmore. "Convertes-te um poquito numa galeria de exposição", acrescenta. Os alojados encontram em suas habitações uma folha de rota com o discurso da exposição, integrando o relato histórico na experiência de sua estadia.
A reapertura do Wittmore em 2022, depois de quase dois anos fechado, reforçou precisamente essa ideia de refúgio cultural sofisticado em pleno centro histórico. O interiorismo, reformado por Setembre Arquitectura, conserva vigas originais, tetos altos e materiais nobres, enquanto a iluminação cálida e o jardim vertical constroem uma atmosfera de retiro urbano.
Há algo quase cinematográfico na experiência Wittmore: o bilhete oculto, a entrada silenciosa, o retrato fictício de Lord Wittmore observando aos hóspedes, as habitações orientadas para fragmentos do jardim vertical, a azotea suspendida sobre os tejados do Gòtic. E a efémera obra de Berta Branco T. Ivanow, que só existe aqui, para que o bairro Gótico recupere, ainda que seja através de um susurro, um pedaço de sua alma esquecida.