Um jolgorio tumultuoso abarrota os corredores entre estande e estande. O estancamento de homens e mulheres com americanas negras freia o avanço, e não fica mais remédio que olhar ao redor distraidamente enquanto se espera a que cedam o passo com o fim de continuar explorando o Mobile World Congress (MWC), o evento tecnológico mais importante do mundo. A música estridente somada às vozes microfoneadas repetem eslóganes futuristas sobre ideias que mudarão o mundo. Ao menos, isso prometem.
Faz uns anos, nos abarrotados espaços de multinacionais como Telefónica e Vodafone, se prometeu que a tecnologia 5G, desenhada para oferecer uma conectividade inalámbrica ultrarrápida, mudaria nossas vidas. No entanto, a realidade é que não tem mudado muito. Para entender que tem passado com aquelas promessas e daí nos depara realmente o futuro das telecomunicações, Consumidor Global conversa com Marc Bara, professor de tecnologia em OBS Business School.
--Aproveitando que arranca o Mobile World Congress, cheio de eslóganes futuristas, gostaria de olhar um pouco para atrás. Faz uns anos prometeram-nos que a tecnologia 5G ia ser uma revolução de conectividade ultrarrápida. No entanto, você afirma que não tem cumprido as expectativas depois do enorme investimento do sector. Por que?
--É uma sensação que têm inclusive as próprias operadoras, que agora se encontram com o problema de como recuperar esse investimento em infra-estrutura. Há que recordar que quando se vendia o 5G, não era só uma questão de maior velocidade —que é o que esperávamos os utentes—, sina que se supunha que ia habilitar aplicativos completamente novos graças a uma conectividade quase instantânea. Ao ligar-se o móvel à rede bem mais rápido, sem retardo, diminuía-se drasticamente a latencia. (A latencia em internet é o tempo de atraso que demoram os dados em viajar desde o dispositivo a um servidor e regressar).
--E daí deveria ter permitido essa rapidez de conexão na prática?
--Pois, por exemplo, jogar a videojuegos complexos com um móvel barato. É o que chamam computação no edge: a computação pesada não a faz teu dispositivo, a faz a rede. Essa era a promessa. Desde videojuegos sem necessidade de um móvel caro até casos de uso de cirurgia remota. Qualquer coisa onde o "cérebro" não esteja no aparelho, sina na rede.
--Mas a realidade tem sido outra.
--Seguiram a filosofia de "constrói a rede e os aplicativos de utente já virão depois". E o que tem passado é que em Espanha, por exemplo, o 5G está muito despregado, mas em sua maioria é um 5G que ainda não tem essa latencia noiva. Em resumo, ainda se está a procurar essa killer application que justifique por que precisamos o 5G sobre o 4G.
--Confesso-lhe que muitos utentes sentimos que o único que tem mudado no móvel é que agora sai o ícone de "5G", mas os aplicativos carregam igual e a bateria dura inclusive menos. Parece uma simples melhora do 4G que nos venderam como uma revolução.
--É exactamente isso. Tem sido uma evolução incremental: descargas algo mais rápido, tens quiçá algo mais de capacidade e pouca coisa mais. Teve uma discrepância enorme entre o hype inicial e o que depois tem sido. Em Espanha, só ao redor de 40% da cobertura é 5G SA (Standalone), que é a que tem uma latencia verdadeiramente baixa, umas dez vezes melhor, e que é a que pode habilitar esses aplicativos novos.
--As operadoras têm gastado fortunas em instalar antenas. Se, como você diz, o negócio não está a crescer ao ritmo esperado. Terminaremos pagando os consumidores facturar mais caras para cobrir esse buraco económico?
--Em minha opinião, não acho que vão por aí. O que vamos ver nesta edição do Mobile World Congress são planos mais realistas e pragmáticos por parte de quem despliegan a infra-estrutura. Até agora, as operadoras vendiam dados móveis. O novo modelo de negócio que propõem para recuperar o investimento não passa por subir as tarifas ao utente da pé, sina por acrescentar "capacidades de rede" para as empresas.
--A que se refere exactamente com "capacidades de rede"?
--Imagine que uma empresa paga mais para garantir que seu aplicativo tenha sempre um largo de banda reservado e uma latencia muito baixa, independentemente do saturada que esteja a rede nesse momento. A rede deixa de ser um encanamento genérico de dados e passa a ser uma plataforma com serviços diferenciados. Esta é uma das grandes apostas que veremos no MWC, conhecida como open gateway. A partir de agora tentarão vender qualidade de serviço e conexões asseguradas.
--Com tudo isto sobre a mesa, resulta quase irónico que no MWC já se comece a falar de 6G ou do 5G-Advanced. É outra etiqueta de 'marketing' para vender móveis?
--Entendo a sensação, mas não é uma conspiração para pôr uma etiqueta e vender móveis mais caros. Os consumidores não somos tontos; se vemos que o móvel faz o mesmo, não pagá-lo-emos.
--Mesmo assim, não é absurdo correr para a seguinte geração quando a atual ainda não tem cumprido o que prometeu?
--Há um esforço honesto da indústria, através de consórcios e universidades, para não ficar obsoletos face a 2035 ou 2040. Como o 5G não se está a aproveitar ao 100%, com o 6G já há muitas vozes abogando por identificar primeiro os casos de uso dantes do lançar.
--E quais seriam esses casos de uso do 6G?
— Propõe-se que as torres de telefonia actuem também como radares. É o que chamam sensing. Estas antenas poderiam detectar drones, fazer monitorização industrial... Isto é, que a rede tenha a capacidade de medir aspectos físicos do mundo que nos rodeia integrando milhões de sensores. Enquanto, o que sim veremos cedo é o 5G-Advanced, que procura sacar capacidades extra à rede que já existe em lugar de dar um salto disruptivo.
--As expectativas no Mobile World Congress que se criaram em torno da cirurgia remota, carros autónomos ou cidades inteligentes claramente não se terminaram de materializar. Que tecnologia vemos neste ano no MWC que seguramente também não cumpram as expectativas no futuro mais imediato?
--Há uma linha que gera muito hype agora mesmo: as redes privadas 5G para empresas. Em lugar de implementá-lo para todos os utentes, se faz para uma fábrica, um aeroporto ou um campus industrial. Tecnicamente é possível e faz sentido pragmático. Imagine uma fábrica cheia de sensores conectados a uma inteligência artificial com latencia zero. O problema e a dúvida é: isto tem volta económica? Para uma empresa pequena seguramente não. Aí o aspecto comercial está no ar e poderia ser outro pinchazo se não se encontra o modelo adequado.
--Tem mencionado a inteligência artificial. Parece que será o fio condutor de tudo. Poderia ser a IA, por fim, o aplicativo que dê sentido ao 5G?
--Há quem diz que sim, que a IA será a killer application. Se a computação pesada fazem-na os servidores remotos de forma instantânea graças ao 5G, teu móvel —ainda que seja um móvel barato— pode voltar-se superinteligente ligando-se à IA de forma natural, sem necessidade de que o aparelho em si tenha uma grande capacidade de cómputo. O cómputo fá-lo a rede. Se o 5G consegue que, com um móvel barato e uma assinatura, tenhas serviços de um móvel de altísima faixa graças à IA, aí pode estar a chave.
--Visto o visto com o 5G, vende-se muita fumaça no Mobile World Congress?
--(Ri) Como engenheiro, dizer-te-ia que sim, sempre. Os engenheiros sempre estamos aí tentando equilibrar a balança com os de marketing, lhes dizendo: "Ouve, não sobre vendais tanto". Com o 5G vendeu-se muita fumaça, tal qual. Mas é parte do jogo em qualquer feira tecnológica.
--Saímos da feira saturados de "revoluções" e ao ano seguinte damos-nos conta de que a metade não chegou a nada.
--É parte da selecção natural. De 100 ideias loucas que prometem mudar o mundo, acabam saindo dois. Mas essas duas são realmente práticas e acabam melhorando a tecnologia que usamos a cada ano.
--Há alguma ideia louca neste ano que ache que vá sair vitoriosa do MWC?
--Há uma que é fascinante: a conexão direta de teu móvel à rede por satélite.
--Refere-se a sistemas como Starlink para cruzeiros ou zonas isoladas?
--Não, Starlink de Elon Musk é a concorrência de operadoras como Vodafone ou Telefónica para te dar internet fixo em casa com uma antenita. Eu falo de outra coisa. Há empresas, como AST SpaceMobile, que propõem que teu próprio móvel atual, sem antenas extra, se ligue directamente ao satélite. Isto o estão a fazer em colaboração com as operadoras clássicas. Têm uma nave em Barcelona e querem montar seis satélites ao mês. Imagine estar no meio da montanha e ter cobertura móvel direta. É um aplicativo tremendamente prático, não é ciência ficção, e terá uma "guerra" muito interessante neste nicho que veremos refletida no MWC deste ano.