Uber Eats renuncia por completo a utilizar estafetas autónomos em Espanha, e operará unicamente com riders contratados através de frotas como assalariados, num movimento destinado a cumprir com a Lei Rider e evitar consequências legais que poderiam ter chegado inclusive à via penal.
Talvez o facto de baixar a bandeira ajude também a evitar situações tão terríveis como a dos estafetas que comem a comida dos clientes enquanto assinalam a encomenda como entregue, ou a dos que se recusam a subir escadas, deixando a pessoas em cadeira de rodas sem poder receber o seu pedido. Inclusive há casos nos quais um rider não entrega um pedido porque "não lhe compensava a despesa de gasolina". Foi o que aconteceu com María Ángeles Lidón.
Um estafeta que decide não entregar
A noite do 7 de janeiro, pouco antes das 21:00 horas, Lidón pediu comida ao domicílio através da aplicação da Uber Eats. Pagou 32,10 euros com PayPal por duas hambúrgueres e uma tarte de cenoura de Gula Supreme, com a entrega prometida para as 22:24 horas.
A utilizadora, previdente, activou a localização em tempo real. “No mapa vi que o motorista não se mexia há muito tempo, por isso esperei até às 22:40 para tentar contactar a Uber Eats”, contou Lidón à Consumidor Global. Quando a hora estipulada chegou, depois de várias tentativas de contactar o suporte e receber respostas automáticas inúteis, ela finalmente conseguiu falar com o motorista da entrega. “Não vou entregar o seu pedido”, disse-lhe ele. Mas porquê?
Para não gastar gasolina
O rider, identificado como José Luis, manteve a sua posiçãp. "Mas se estás a três ruas de minha casa! Por que não mo trazes?", exclamou María Ángeles Lidón. A resposta do estafeta foi do mais sincera e insultante: "Não te levo o pedido porque a mim não me pagam a gasolina que tenho que gastar por te levar o pedido a outra localização que não seja a da app".
Enquanto a cliente insistia de que a localização era a correta que tinha indicado na aplicação, o estafeta afirmou que o pedido voltaria ao restaurante e que a Uber Eats devolver-lhe-ia o dinheiro. No entanto, o gerente de Gula Supreme confirmou na manhã seguinte que o pedido nunca regressou e que seguramente "o estefeta deve ter comido o hambuúrguer".
Uber Eats diz que está tudo correto
Segundo a comunicação oficial que deu Uber Eats a Lidón posteriormente, o estafeta "esperou 30 minutos e ligou" da utilizadora, e isso bastaria para cumprir a política de entrega: "Sentimos o ocorrido, mas não é possível reembolsar o preço deste pedido. Pesquisámos o assunto e confirmamos-te que o estafeta cumpriu com a nossa política. Ligou para o número terminado em 7605 e, ademais, esperou 30 minutos no teu edifício".
“Meia hora, dizes tu?”, respondeu o cliente, indignado com a evidência da conversa. "Se olhar para as horas, verá que não é assim. O entregador foi claro: ele não queria vir". A Uber Eats, no entanto, encerrou o caso. Sem hambúrgueres, sem 32 euros e sem ninguém a quem reclamar.
Mais experiências de ladrões trabalhando para a Uber Eats
No Trustpilot, um dos principais portais internacionais de reputação empresarial, Uber Eats acumula mais de 111 mil opiniões com uma pontuação média de 2,4 sobre 5, uma qualificação que a própria plataforma cataloga como "mau". Um dos últimos comentários é o de Julia, uma cliente que realizou um pedido e "o estafeta Anderson negou-se a entregar o pedido no meu domicílio. E levou-lho". "Uber Eats não me devolve o dinheiro porque diz que o estafeta não me localizou e é mentira, falei mais de quatro vezes com ele, tanto por telefone como pelo próprio chat, e negou-se a subir ao meu apartamento. Ficou com o pedido. É uma vergonha que tenham ladrões a trabalhar como estafetas", afirma Julia.
Na mesma linha, Núria Bamberg assinala que "o estafeta negou-se a realizar a entrega, disse-me literalmente que não era seu problema e marcou o pedido como entregue numa direcção diferente, que nunca recebi. O serviço de apoio ao cliente ignorou completamente a conduta do estafeta e recusou tanto o reembolso como qualquer crédito. Fiquei sem o meu pedido a altas horas da noite".
Comentários quase inúmeros no Trustpilot
"Fizemos uma encomenda e nem sequer sabemos onde o estafeta a deixou, porque não veio à nossa morada. Tentámos contactá-lo depois de ele nos ter enviado uma fotografia em que deixava a comida no chão, num pátio que nem sei onde fica. Depois contactei o serviço de apoio ao cliente e não resolveram nada, disseram que o estafeta tinha agido corretamente", diz Mónica L.
Agustín Santoyo avisa que o estafeta tirou “uma fotografia com a comida no chão e levou-a embora”. Os comentários na página sobre este hábito impune do motorista de entregas da Uber Eats na aplicação são quase incontáveis. Destaca-se um comentário no X de uma rapariga, apelidada de Jen: "Fiz uma encomenda porque estou numa cadeira de rodas. Na minha biografia diz que sou deficiente, o número do andar e explica que dou gorjetas. No entanto, o estafeta deixou a encomenda do lado de fora, tirou uma fotografia e foi-se embora. Telefonei-lhe várias vezes, mas desligou-me o telefone na cara. Tenho vergonha de dizer que lhe implorei que a trouxesse para casa".
Uber Eats despede os seus estafetas autónomos
Tal como informou recentemente a Consumidor Global, Uber Eats encontra-se num momento de transformação em Espanha. A companhia anunciou que deixará de operar com estafetas autónomos para passar exclusivamente a frotas de subcontratas, um movimento forçado pelo Ministério de Trabalho e a Lei Rider. O objectivo é evitar processos penais similares aos que se enfrenta a cúpula de Glovo.
Enquanto a empresa ajusta o seu modelo laboral para cumprir com a lei de Yolanda Díaz e evitar penas de até seis anos de prisão, os estafetas, atrapados entre a precariedade, às vezes pagam a sua frustração com o cliente final.
A Consumidor Global pôs-se em contacto com a Uber Eats para conhecer a sua postura oficial a respeito, no entanto, até ao termo desta reportagem, não obteve resposta alguma por parte da plataforma.