Comprar um quarto para deixar de pagar renda: "É uma necessidade para as pessoas"
Oriol Valls, de Habitacion.com, revela como funciona a venda de quartos e o que significa pagar entre 20.000 e 50.000 euros por eles
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Partilhar um apartamento já não tem de ser sinónimo de "deitar dinheiro fora". Esta é a premissa por detrás da entrada da Habitacion.com no mercado imobiliário espanhol. Trata-se de uma plataforma de intermediação para compra de quartos em regime de propriedade partilhada fundada por Oriol Valls e Anna Bedmar. A ideia, nascida da própria experiência dos seus criadores, procura que os jovens possam pagar uma quota similar a um aluguer, mas destinada a adquirir uma percentagem real do imóvel.
A Consumidor Global entrevistou Valls, que explica como funciona juridicamente a copropriedade, que ocorre se um dos proprietários deixa de pagar, que perfil de cliente aposta neste modelo e quais são os riscos que o consumidor deve considerar antes de dar o passo.
--Em que momento e por que decides fundar Habitacion.com?
--Nasce da nossa própria realidade e sofrimento. Vimos-nos forçados a partilhar um apartamento e surgiu-nos a ideia de porque não pagar os mesmos 500 euros por mês do aluguer mas por um quarto que é teu. De forma que ao cabo de dois, três anos ou cinco anos cada pagamento se tenha amortizado, possas vender o teu quarto e recuperar 20.000, 25.000 ou 30.000 euros, que permitem poder pagar a entrada de um primeiro apartamento, um mestrado, um carro ou o que seja.
--Como é a procura atual?
--Começamos a operar em 2024. Até a data, vendemos 250 quartos e estudios. Foi um crescimento bastante explosivo. Actualmente, registaram-se no site 35.000 utilizadores.
--Quando compras um quarto, que compras exactamente? Quem é o proprietário do apartamento e o que ocorre com as zonas comuns?
--Quando compras um quarto, o que estás a comprar realmente é uma fração, isto é, uma percentagem da propriedade. É exactamente a mesma forma jurídica que quando um casal compra um apartamento, mas a 30 ou a 25%. És proprietário real desse imóvel e isso dá-te toda a segurança jurídica que tem comprar um apartamento normal.
--Que tipo de contrato se faz?
--Trata-se de uma compra e venda que se realiza num cartório, onde se assina um acordo contratual, um contrato de copropriedade que te protege e salvaguarda os teus interesses e direitos perante os restantes coproprietários. Esse contrato de copropriedade é assinado com cláusulas de convivência (o que se pode e o que não se pode fazer). Contém também cláusulas que definem a utilização do imóvel, ou seja, que divisão pertence a cada um, se dispõe ou não de alguma casa de banho exclusiva... Está igualmente incluída uma ampla cláusula relativa a incumprimentos, resoluções e todos os mecanismos legais existentes no modelo para resolver qualquer problema. Além disso, é assinado um segundo contrato, que é um contrato de prestação de serviços com a habitación.com, onde basicamente explicamos os nossos serviços. Desempenhamos a função de administrador de imóveis.
--Se alguns dos copropietarios não pagam, que responsabilidade tem o resto?
--Quando comprares o quarto, podes pagá-lo à vista ou financiá-lo. A forma mais comum de financiar a compra de quartos é através de empréstimos pessoais. Neste caso, contrais uma obrigação com o banco, tal como acontece com uma hipoteca, mas se não pagares, o problema é contigo e com o banco, e recai sobre ti e sobre os teus bens, uma vez que não existe garantia solidária, ao contrário do que acontece com as hipotecas.
--Continue…
--Isso significa que se alguém deixasse de pagar, não afectar-lhe-ia ao outro. Não permitimos o financiamento através de uma hipoteca, mas sim através de empréstimos pessoais. Têm um prazo de amortização de uns 10, 12 anos e têm as taxas de juro um pouco acima de uma hipoteca mas a quota que pagas desse empréstimo é igual ou inferior ao que pagarias de aluguer nesse quarto.
--Vimos que há quartos de 15 a 20 metros quadrados por 50.000-55.000 euros, não é uma pechicnha.
--O preço dos quartos não o decidimos nós, somos uma plataforma de intermediação. O preço dos quartos é o preço que tem o imóvel multiplicado pela quota que te corresponde do apartamento. Por exemplo, se um apartamento vale 200.000 euros e há quatro quartos, pois cada quarto vale 50.000 euros. Os custos calculam-se automaticamente e nós não interferimos.
--Que tipo de cliente é o que encaixa neste negócio?
--Vamos para um perfil de cliente jovem, trabalhador que tem entre 25 e 35 anos e que tem essa consciência financeira de não querer atirar o dinheiro a fundo perdido. Este é nosso cliente ideal. No entanto, apareceram-nos outros segmentos de clientes que são interessantes. Por exemplo, pais que nos compram um quarto para o filho que vai estudar numa cidade durante quatro ou cinco anos. Calculam que terão que pagar entre 30.000 e 40.000 euros de aluguer e optam por comprar o quarto e que esse património fique na família. Outro segmento de clientes interessante são os diretores. Há alguns que vivem em Madrid, mas todas as semanas viajam a Valência, por exemplo. Em vez de pagar ime3nso dinheiro em hotéis e Airbnbs, compram o quarto. E, por último, estão todos esses jovens que compram o quarto, utilizam-no durante o tempo que necessitam e depois alugam-no, tornando-se jovens investidores. Em vez de comprarem um apartamento, compraram um quarto e estão a fazer render as suas poupanças.
--É algo bastante inovador…
--É um modelo muito disruptivo e muito novo mas já existe noutros países. Noutros países ocidentais, onde o problema de acesso à habitação é bem mais exagerado que em Espanha por difícil que nos pareça, estes modelos de copropiedade têm proliferado desde há muito tempo. Levam-nos oito ou dez anos de vantagem. Nos Estados Unidos, há mais de 60 milhões de habitantes que são copropietarios. Não é uma tendência nem uma moda, mas sim é uma necessidade económica que as pessoas têm.
--Que riscos deve cosniderar o consumidor antes de optar por este modelo face à compra tradicional ou o aluguer?
--No caso do estúdio, seria como comprar um apartamento, trata-se de uma habitação normal. No caso dos quartos em copropriedade, o risco que tem de assumir é que essa pessoa assina contratos e assume obrigações e responsabilidades, tal como em qualquer copropriedade. Tem de saber e compreender que existem regras que assina perante o notário e que são registadas publicamente, e que não pode agir de forma irresponsável. O modelo é muito sólido porque nos dedicámos a investir dinheiro em escritórios de advogados, em consultores fiscais e especialistas também em direito tributário e imobiliário para podermos entrar no mercado sem problemas. Para que isto seja tão seguro, tem de ser rigoroso. Ao contrário de um apartamento partilhado para arrendamento, se uma lâmpada se fundir, são os coproprietários que pagam. Por isso, tem de ter bem claro que está a entrar num espaço com regras a sério.

