Jofre Bardolet (26), compositor e diretor de orquestra: "Ir à ópera é como ver Netflix"

Entrevistamos ao jovencísimo diretor musical de NovAria, que debuta este 22 de fevereiro no Palau da Música de Barcelona dirigindo a obra mais célebre de Verdi

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A ópera é a menos popular das artes escénicas e musicais. Segundo a última Encuesta de Práticas e Hábitos Culturais, elaborada pelo Ministério de Cultura, mal o 3,9% dos espanhóis assistem uma vez ao ano a desfrutar de uma obra operística. Sem dúvida, uma assistência muito inferior à que recebem outros eventos culturais ao vivo, como o teatro (24,7%), os concertos de música atual (32,1%) e inclusive os de música clássica (9,7%). Mas uma cifra muito superior à registada em 2015, quando só o 2,6% (-1,3 pontos) dos espanhóis iam à ópera.

Este aumento significativo no consumo de ópera ao vivo deve-se ao Bono Cultural Jovem e a projectos como o que lidera NovAria, uma companhia que aposta pelo relevo generacional, impulsionando o talento jovem, e por um repertório clássico pensado para ligar com um público amplo e diverso. Falamos com seu novo diretor musical, o jovencísimo compositor e diretor de orquestra Jofre Bardolet.

--Como vão os nervos?

--Pois a verdade é que bem. Sou uma pessoa que não acostuma a se pôr nervosa. É uma sorte, porque há gente que o passa muito mau com o medo escénico. Tenho mais ilusão que nervos, ainda que o palco é imponente.

--Debuta o 22 de fevereiro dirigindo 'A traviata' no Palau da Música Catalã… Como se prepara um diretor de orquestra nos dias prévios a tal acontecimento?

--É uma mistura de sensações e emoções. Tenho um sentimento de enorme respeito, obviamente, pelo que significam a obra e o palco, e estou a poder ensayar com os cantores e a orquestra. É uma companhia nova para mim, mas todo mundo me está a facilitar a aterragem.

--Quando é o ensaio geral?

--Nesta semana temos feito dois ensaios de quatro horas com os solistas e com a orquestra fizemos o ensaio geral na quinta-feira.

--Nesta ocasião, será você, o diretor, o que baixe a média de idade do Palau…

--(Risos) Exato. Sim, a verdade é que é muito interessante a proposta de NovAria porque neste país, em Barcelona, no Conservatorio do Liceu, no ESMUC, sai muita gente muito bem preparada, mas muitos se vêem obrigados a procurar oportunidades fora, no centro de Europa, sobretudo. Por isso, que existam companhias deste nível que apostem por reter o talento jovem, tanto a diretores e cantores como a intérpretes, é de agradecer. Lamentavelmente, não passa muito com frequência.

La orquesta de NovAria tocando en el Palau de la Música / CEDIDA
A orquestra de NovAria tocando no Palau da Música / CEDIDA

--Como definiria a proposta operística de NovAria?

--É muito interessante ver a orquestra ao vivo. O espectador pode ver a orquestra in situ, algo que não é tão habitual na ópera, onde a orquestra costuma estar no fosso. Com NovAria faz parte do espectáculo. A cena é a cena, mas a orquestra também está presente e se pode desfrutar visualmente. Enriquece o espectáculo e propõe uma maneira diferente de desfrutar da ópera.

--Os jovens são mais de TikTok que de ópera. Como se lhes pode seduzir?

--A questão da duração é algo contra o que não se pode competir. Se um video de TikTok dura 10 segundos é melhor que se dura 15. Uma ópera é longa, mas NovAria aposta por uma hora de música, pausa e outra hora. Há um pequeno corte da peça operística original para que flua e o espectador saia com vontades a mais.

--Uma ópera em formato reduzido.

--Algo assim. Eu tento transladar à gente jovem que uma ópera é uma história, e são histórias escritas por pessoas que viveram faz um ou dois séculos, mas que nos interpelan como seres humanos. Ademais, a ópera casa diferentes artes, como o teatro, a música e a dança. Que mais queres?

--É um género musical multidiciplinar.

--É um espectáculo total. Às vezes, por como se difunde, parece algo elitista que não te interpela, mas não está tão longe de ver um filme em Netflix. Uma ópera é intensa, pasional, passam muitas coisas e o amor é o fio condutor. Seguro que te pode interpelar e gostar.

--"A história de amor mais bonita é 'A bohème'", costumava dizer meu pai.

--É uma das mais queridas pelo público. Agora, NovAria aposta por Madama Butterfly, uma obra de Puccini muito especial. É música de um compositor italiano, mas pode-se escutar um trabalho muito acurado do orientalismo. Ademais, é uma obra que chega muitíssimo ao espectador. O público empatiza com a personagem de Butterfly.

--Sua versão de 'Madama Butterfly' poder-se-á desfrutar o 1 de março no Casino de l'Aliança do Poblenou, um espaço completamente diferente ao Palau da Música. Afectará à posta em cena?

--A intenção é adaptá-lo ao máximo para que a experiência do espectador seja muito rica. O Palau é uma jóia arquitectónica sem igual, mas a proposta escénica e musical queremos que seja muito parecida no Casino de l'Aliança. A orquestra estará um pouco mais apertada, mas a nível artístico e de posta em cena não há grande diferença.

--A que idade soube que queria ser compositor e diretor de música clássica?

--Meus pais são músicos. A música sempre tem fazer# parte de minha vida. Aos oito anos compus e estreei minha primeira obra. Uma obra que hoje em dia, obviamente, não assinaria. Mas já com oito anos queria pesquisar este mundo da composição. E aos catorze ou quinze anos tive-o claro: a música seria minha oficio.