José Parra Moreno (Madri, 1960) define sua livraria, O Halcón Maltés, como um David que resiste em frente a Goliat, que seria Amazon, em defesa da literatura que vale a pena. E não lhe vai nada mau.
Em pouco mais de um ano, sua livraria e galeria de arte ganhou-se o cariño dos vizinhos do bairro de Chamberí e tem conquistado a leitores de toda Espanha através de sua conta de Instagram, onde Parra recomenda os livros que gosta. Abertamente. Sem restrições. Sem muito best-seller nem Premeio Planeta. Sem romantasy. Sem medo à crítica, falamos com ele.
--Dizem que 2025 foi um ano de recorde para o sector do livro. Como lhe foi a sua livraria?
--Foi-nos muito bem. Ainda não tenho dados para comparar com um ano completo porque abrimos em março de 2024, mas estamos muito contentes.
--Qual foi seu livro mais vendido? 'A península das casas vazias', de David Uclés? 'A asistenta', de Freida McFadden?
--Deixa-me ver. De janeiro a janeiro, procurar… Vendemos 22.000 livros em 2025. O mais vendido tem sido Isto não existe, de Juan Soto Ivars.
--Surpreendente!
--Eu faço um reel diário em Instagram falando de um livro durante um minuto e a gente se me jogou em cima quando fiz o de Soto Ivars faz umas semanas.
--Vi a polémica que se montou em redes…
--Chegou a ouvidos de Penguin (Random House) e Soto Ivars, e como lhes tinham boicotado eventos e muitas livrarias o tinham escondido, me disseram se atrever-me-ia a fazer uma apresentação aqui na livraria, e eu não me escondo de ninguém… Me disseram de tudo, mas a fizemos e tem sido o livro mais vendido.
--E o segundo mais vendido?
--O número dois tem sido A península das casas vazias. O terceiro, uma novela negra japonesa, publicada no ano 46, durante a posguerra, titulada O mistério da mulher tatuada. Segue-lhe um Prêmio Nacional de Chile em 2022, Jesús A. Ponce, com Vivero. Porque é um livro muito bom e porque Jesús trabalha aqui. O quinto é A muito catastrófica visita ao zoo, de Joel Dicker. E o número seis é Kentukis, de Samantha Schweblin, que nos encanta, e a cada um vende o que gosta.
--Como definiria os gustos literários dos vizinhos de Chamberí?
--Estamos num bom bairro e temos um público muito leitor e exigente. De um nível sociocultural elevado. Nós não vendemos muito best-seller nem Premeio Planeta. Temos tido o livro de Isabel Preysler morrido de riso. Temos vendido muito a biografia de Ramón e Cajal. Nossa freguesia selecciona. Temos um público especial com o que nos retroalimentamos. Vai-se fazendo um catálogo conforme a nosso gosto e ao dos clientes. Não vendemos nada de fantasía, de romantasy. Temos uma parceira livreira aqui perto que se torcedora a vender isso, mas nós não. Um 45% de nossas vendas são de livros de não ficção: ensaio, história, etcétera.
--Os livros ganhadores do Premeio Planeta costumam-se vender muito bem…
--As revendedoras, às vezes, surpreendem-se. 'Premeio Planeta só cinco instâncias?'. 'Sim, é que não o vendo. Não gosta a do público'. Ofereces o que gostas.
--Até que ponto o segredo de uma livraria como O Halcón Maltés está em seu livreiro?
--Até que ponto o segredo de um restaurante é o cocinero?
--Fundamental.
--O livreiro dá-lhe um selo especial à livraria e a gente vai procurando esse estilo. Numa livraria ninguém está sozinho. Muita gente vem à livraria para charlar. Dois de nossos livreiros são escritores premiados, são gente muito metida no mundo das letras. Por isso há uma inter-relação muito grande com o público.
--É a única forma de competir com os gigantes?
--As livrarias temos que competir com Amazon. Somos David contra Goliat, e a única forma que temos de competir é dando conversa e um trato personalizado. Eu não recomendo o mesmo a todo mundo. Utilizo Instagram como um prolongamento do que fazemos aqui. Temos mais de 70.000 seguidores porque falo de livros. Não sê se Amazon ou O Corte Inglês levam a experiência do livreiro às redes sociais desta maneira.
--Você tem um dom como comunicador e subscritor de livros…
--Tem sido uma surpresa para mim. Converti-me num influencer sexagenario sem sabê-lo. Sexigenario, melhor.
--Que novidades literárias recomendaria o influencer sexigenario?
--Pessoalmente, recomendaria Kentukis e a última novela de Joyce Carol Oates, O senhor Fox. Também gosto de reivindicar a Simenon, que é um dos melhores escritores do século XX e muito ignorado pela gente jovem.
--'Carta a minha mãe' é durísimo.
--Tem livros desgarradores. É um pedaço de escritor.
--Em sua página site destaca desde um livro de contos de Hitchcock até a novela mais célebre de Margaret Atwood, que é uma das séries mais vistas de HBO Max. É você um peliculero, senhor Parra?
--Não, no.yo acho que com os filmes sucede o mesmo que com os edifícios: há uma estrutura que os mantém de pé. Num filme é a literatura, o guion, o que sustenta o interesse. Por isso de quase todos os livros bons se fizeram filmes.
--Em honra ao grande cronista de Barcelona Lluís Permanyer, que introduziu o Questionário Proust na Espanha dos anos sessenta, gostaria de fazer-lhe quatro de suas perguntas breves. Parece-lhe?
--Vale, perfeito.
--Quais são seus autores favoritos em prosa?
--Isso não se pode... É como se lhe perguntas a alguém a que filho quer mais. Vamos ver... O verdadeiro é que Borges sempre me acompanha. E Simenon, Perec… Ultimamente tenho descoberto a Samantha Schweblin. Quevedo!
--Seus poetas?
--Gosto de muito Miguel Hernández.
--E contemporâneos?
--Não leio muita poesia contemporânea. Glória Fortes? E Benedetti.
--Um herói de ficção?
--O Curto Maltés.
--Uma heroína?
--Corinna Larsen (risos).
--No século XXI, um livreiro é uma espécie de herói?
--Não, há que tirar um pouco de prosa e de bombo a estas coisas. Um livreiro é uma pessoa que ama seu trabalho e tenta se manter.
--Suponho que as vendas on-line também ajudam a se manter a flutue…
--Uma livraria de bairro não sobrevive com as vendas em loja. Temos que fazer vendas a toda Espanha, por isso nosso site está tão cuidado. De facto, o canal de Instagram também se nutre do site.
--Faz pouco entrevistei a Ángel Tijerín, da livraria On The Road de Barcelona, e disse-me que não conhecia a nenhum livreiro que tivesse uma boa casa. Compartilha este parecer?
--Sim. Eu vivo de outra coisa. Isto é um negócio muito mau. Para que comece a funcionar tens de ter uma massa de vendas forte. Para a Casa do Livro sim é um bom negócio. Para os demais é um oficio.
--Seu oficio é o de arquitecto.
--Meu perfil é diferente. Não tenho aberto uma livraria como negócio, porque como negócio é muito mau. Eu sou arquitecto e me ganho a vida com a arquitectura, mas tenho aberto a livraria para me procurar uma aposentação remunerada com um pequeno salário. Eu o faço porque quero me dedicar a isto no dia de manhã. Gosto de comprar e vender livros, falar com a gente, estar no âmbito cultural, conhecer a escritores, editores, tradutores e leitores… É muito gratificante.
--José Parra: Podemos tirar o de Corinna? Não é de ficção…
--Teo Caminho: Lamentavelmente, não é de ficção. Quem lhe vem à mente?
--J.P.: Chihuahua Pearl, a personagem das bandas desenhadas de Blueberry.
--T.C.: Melhor. Por verdadeiro, tem ouvido falar da novela Ainda que já não me leias, que chegará às livrarias o 28 de janeiro?
--J.P.: Não a conheço.
--É uma sentida homenagem a Jaime Caminho, o cineasta da memória histórica. Poder-lhe-á abrir um espaço no Halcón Maltés?
--Fá-lho-emos.