Laura Riñón, livreira e escritora: "Reivindicação é vender livros sem fazer distinções de género"

Falamos de literatura com a dona da livraria Amapolas em outubro, que nasceu na novela homónima dantes de abrir suas portas no bairro de Chueca de Madri

17769   2026 04 07T174438.536
17769 2026 04 07T174438.536

Ouve o artigo agora…

0:00
0:00

Amapolas em outubro, a novela, viu a luz no outono de 2018. E, mal uns meses depois, como se da segunda floração desta bela flor se tratasse, o sonho plasmado nas páginas do livro emergiu da ficção para se fazer realidade en a livraria homónima, localizada na rua Pelayo número 60, no bairro de Chueca (Madri).

A autora desta fantasía bicéfala é Laura Riñón, escritora, livreira e, ao início desta palestra, também entrevistadora.

--Laura Riñón: Tenho visto que tens publicado a novela Ainda que já não me leias, apresentá-la-ás em Madri?

--Teo Caminho: Farei uma apresentação no Cinema Dourei da Filmoteca Espanhola em junho, mas sou todo ouvidos.

--L.R.: Poderíamos montar algo bonito em Amapolas em outubro.

--T.C.: Tomo-lhe a palavra. Seria bonito apresentar em sua livraria, que nasceu dantes na ficção que na realidade. Como sucedeu?

--Eu sempre sonhei com ter uma livraria. Mais que uma livraria, um lar de livros no que ser anfitriã, que é o que gosto de ser aqui, mas não era possível. E como não era possível, decidi criar na ficção e me inventei a livraria de Jo, que é como se chama na novela Amapolas em outubro (Editorial Espasa, 2016). E dois anos depois decidi que tinha chegado o momento de sacar a livraria das páginas da novela e converter num lugar real.

--Sem dúvida, é uma livraria com alma de novela.

--Nasce numa ficção e é muito bonito, porque entras aqui e a gente que tem lido a novela e conhece a história conserta na máquina de escrever Olivetti do escaparate, que sai na novela, na butaca azul… Entras e dão vontades de conhecer a história. É muito especial.

--Era um sonho que levava décadas gestándose em sua imaginación… Recorda qual foi a primeira vez que pensou em abrir uma casa de livros?

--Perfeitamente. Em meu vinte e dois aniversário, organizei um jantar em casa com amigos e, além de ler, gosto muito do vinho, e brindei por um dia ter um lar onde se juntassem escritores, leitores e a literatura.

--Brindado e facto.

--Vinte e dois anos depois, veio um amigo que tinha estado no brindis à inauguração de Amapolas em outubro e me trouxe vinte e duas rosas, pelos anos que tinham passado. Fez-me muita ilusão que o recordasse porque às vezes tendo a viver numa fantasía.

--Que é o que mais lhe surpreendeu do dia a dia da livraria?

--O mais bonito é algo que não tive em conta na novela nem em meus planos à hora de criar este lugar, que são os leitores. São tão importantes que os chamamos amapolers e temos um dia, o 15 de julho, que os celebramos a eles. É seu dia. Eles têm convertido Amapolas em outubro em sua livraria, em primeira pessoa do plural. "Laura, aqui deveríamos fazer ou deveríamos montar…", dizem-me. Falam como se a livraria fosse sua, e assim é.

La librería Amapolas en octubre / CEDIDA
A livraria Amapolas em outubro / CEDIDA

--Vossas recomendações literárias fizeram-se virales…

--É um reflexo de nossa personalidade como livreiras e como pessoas. Desde que abri, tinha uma coisa que me dava muito medo, que era desviar de meu foco e converter numa pessoa que não sou. Valorizo muitíssimo a autenticidad. Por suposto, aprender e cometer erros, mas sempre mantendo a esencia. E desde o minuto um comecei com os diretos, onde defendo os livros que tenho aqui. Não por dar exemplo nem nada pelo estilo, sina por insegurança, para recomendar os livros que conheço e ser honesta contigo.

--Realmente transmitis honestidade aos leitores. É este o segredo do sucesso?

--Fazemo-lo muito próximo e dinâmico. Convertemos a literatura em algo que está aqui, que não é um lugar aburrido. Agora se vê bem mais, mas quando comecei com os diretos sobre livros não existia nem TikTok. O segredo do sucesso, sobretudo, é essa verdade que acho que desprendemos minha parceira Lana e eu, essa esencia nossa que não quero que discrepe entre o que se mostra em redes sociais e o que encontras ao entrar na livraria.

--Que é o primeiro que lhe perguntais a um leitor dantes de lhe fazer uma recomendação literária?

--Há uma pergunta que dantes fazia muito e agora faço menos. Após a pandemia sempre perguntava: 'Tudo bom? Como estás?'. E a gente não estava bem. Então Lana disse-me: 'É que igual deverias deixar de perguntar à gente como está, Jefi, e mudar a pergunta'. Agora muita gente entra e te pede que lhe recomendes algo. Fim. E perguntamos-lhes que é o último que têm lido, que lhes apetece ler, porque a leitura é um estado de ânimo e igual te apetece uma novela curta, de amor, ou te apetece um thriller, ou tens tempo para um novelón… Depende. Vamos alternando e misturamos o clássico, o livro de fundo, o contemporâneo, a novidade. Segundo o leitor peça. E se é alguém novo, tentamos conhecer seus gustos lhe perguntando pelos últimos livros que tem lido.

--Quais são os livros mais vendidos de Amapolas em outubro no que vai de ano?

--São A corresponsal (editorial VR Europa), de Virginia Evans, que é um livro que li em inglês quando ainda não estava traduzido. É uma novela epistolar deliciosa, de uma grande beleza. E depois Os nomes (Salamandra), de Florence Knapp. As duas são primeiras novelas. E Madonna não nasceu em Wisconsin (Galaxia Gutenberg), de Natalia Moreno, que também é uma primeira novela, não tinha caído. Uma maravilha de novela de uma autora de 46 anos. Sou muito fã das escritoras que publicam sua primeira novela a uma idade mais ou menos avançada, que parece que se não publicas tua primeira novela aos vinte anos não é tão espetacular. Estas mulheres têm uma vida, observam, lêem, escrevem e publicam essa história que lhes sacode. A maturidade nota-se muito num texto quando tens uns anos vividos.

--Três primeiras novelas de três mulheres nos três primeiros postos. Que parte de reivindicação há nesse gosto dos leitores?

--É pura casualidade neste caso. Igual perguntas-me em dezembro e digo-te três homens. Eu não diferencio. Acho que a melhor reivindicação é vender livros e não fazer finca-pé em que são escritos por mulheres. Acho que, às vezes, o repetir tanto que são escritos por mulheres se volta contraproducente. Eu seria amiga dos editores que decidissem publicar com iniciais e já está. Não acho que existam novelas para mulheres e novelas para homens. Não creio na diferença de género à hora de criar, já seja literatura, arte ou cinema. Na parede que tenho na livraria com os quadros pendurados estão Paul Auster, Manuel Vicent, Sam Shepard, Hemingway, Capote... Não diferença, ainda que é verdadeiro que de um tempo a esta parte se está a publicar, quiçá, a mais mulheres que a homens. E não quero dizer que esteja mau, mas às vezes tentamos recuperar o tempo perdido daquilo que não se publicou antanho. Ao final, há que publicar boa literatura, esteja escrita por quem esteja escrita.

--Celebrais no Dia do Livro?

--Em Amapolas em outubro todos os meses celebramos algo. Se não há um evento no calendário, no-lo inventamos. Na Semana do Livro, porque já não é o Dia do Livro, em Madri se celebra a Noite dos Livros e se fazem eventos por toda a cidade. Sempre nos apontamos, ainda que em Amapolas sempre temos ido um pouco por livre. Fazemos as coisas que nos apetece fazer. Presenteamos um clavel vermelho que é o símbolo de Madri com a compra de um livro. Sempre fazemos coisas para os leitores. Neste ano celebraremos o livro Stoner, de John Williams, do que tenho tido a sorte de escrever o prólogo da última edição, que tem saído agora. Stoner é um de minhas personagens de ficção favoritos.

--Amapolas em outubro sempre surpreende aos leitores com algum giro argumental.

--Isto é um lar precioso. Amapolas em outubro não é exemplo de nada, mas é a prova de que podes fazer as coisas sendo fiel a teu critério e filosofia de vida. Quando abri a livraria, muitos me criticavam por não ter todos os livros e não ter livros comerciais. Diziam-me que assim não poderia sobreviver, e levo já sete anos nos que tenho conseguido sobreviver e crescer com leitores que vêm de todas as partes de Espanha e do estrangeiro obrigado, em parte, a nossas redes sociais, que são uma janela ao mundo. Seguimos tendo somente os livros nos que cremos. E não quero dizer que castiguemos a outros livros porque nos pareçam maus, simplesmente há um espaço físico que é o que é e gostamos de ler e saber o que temos. Pode-se defender tua filosofia, custa um pouco mais de esforço, mas claro que se pode.