O polémico rótulo Nutriscore: o semáforo para classificar os alimentos

Os produtos à venda nos supermercados terão, este ano, uma nova etiqueta de cores para classificá-los como mais ou menos saudáveis

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Decifrar a informação nutricional presente nos rótulos ou nas embalagens dos alimentos pode ser uma tarefa complicada para o consumidor médio. Sabe-se que comer fruta é mais saudável que beber bebidas açucaradas, mas, se não quer renunciar aos refrescos, o que procurar para identificar o seja menos nocivo para a saúde?

A resposta poderia estar no Nutriscore, um rótulo complementar e voluntário que já se pode ver nos lineares de alguns supermercados. Trata-se de um código de cores, como se fosse um semáforo, que classifica os alimentos e as bebidas numa escala da letra A a E, segundo o quão saudáveis são. Em teoria, este sistema levará a que os fabricantes melhorem a qualidade nutricional de seus produtos e os consumidores encherão o carrinho com artigos mais saudáveis. No entanto, a eficácia deste sistema já lança algumas dúvidas.

Algoritmo nutricional

Os algoritmos estão presentes em muitos aspectos da vida moderna, incluído o setor da saúde. Utilizam-se, por exemplo, para recomendar a um utilizador que veja uma série segundo os seus gostosou adquira um produto com base nas suas pesquisas.

No caso da Nutriscore, esta ferramenta utiliza cálculos que somam pontos aos nutrientes desfavoráveis, como as gorduras saturadas, o sal, os açúcares simples e as calorias; e subtraem os favoráveis, isto é, fibras, proteínas e percentagem de frutas, verduras, leguminosas e frutos secos. Como resultado, obtém-se uma pontuação que permite classificar os alimentos em diferentes categorias. "Os mais saudáveis localizam-se nas primeiras letras, de tons verdes, e os piores ocupam o D e a E, em tons vermelhos", explica Nuria Romero, dietista e especialista em educação nutricional.

Uso voluntário

Este semáforo de qualidade nutricional tem sido o sistema escolhido pelo Ministério de Consumo para sua implementação em Espanha a partir deste ano, embora já possa ser visto nos lineares de alguns supermercados. A sua adopção será voluntária, pois a actual regulação européia não permite a sua obrigatoriedade.

Portanto, alguns produtos contarão com esta qualificação e outros não, por decisão do fabricante. Nesse sentido, o ministro Alberto Garzón mostrou-se optimista na apresentação deste rótulo, quando destacou que "acreditamos que, ainda este ano, conseguiremos que a vasta totalidade das marcas o implementem". E, na mesma linha mostra-se Clara Gómez-Donoso, investigadora do departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra, que explicou ao Consumidor Global que "as marcas sabem que os consumidores estão atentos e exigem este tema, o que pode impulsionar a utilização por parte da indústria".

Valorações duvidosas

Ainda que este sistema de rotulagem pareça ser um bom ponto de partida, pois conta com o respaldo científico, "não é um sistema perfeito e precisa algumas melhorias", diz Gómez-Donoso. Uma delas, que, além disso, tem gerado polémica, tem sido a classificação do óleo de oliva na categoria D, dado de que o algoritmo de Nutriscore não diferencia os tipos de gordura e considera pouco saudável este alimento tão calórico. Por isso, para utilizar de forma correcta esta ferramenta, os consumidores deveriam sempre comparar os produtos da mesma categoria e não tomar estes valores como absolutos, mas sim relativos. "O óleo tem categoria C, mas a manteiga tem E e, em comparação, é mais saudável", enfatiza esta especialista.

O sistema vai buscar, na veradade, os produtos ultraprocessados e pouco saudáveis, embora "a indústria enocntre uma forma de camuflar os seus produtos e fazer passar, por mais saudáveis, alguns que não o são", lamenta a nutricionista Nuria Romero. De facto, o algoritmo valoriza de forma negativa os açúcares, as gorduras e as calorías, mas não tem em conta outras substâncias como os edulcorantes. Portanto, alguns produtos obterão uma pontuação positiva se são desnatados e adoçados.

É um sistema eficaz?

Desde que foi anunciada a implantação do Nutriscore em Espanha, várias vozes de especialistas levantaram contra o mesmo. Uma delas é a do nutricionista Carlos Rios, promotor do movimento Realfooding, quem tem mostrado claramente sua oposição através das suas redes sociais: "Alocamos dinheiro público para implantar um sistema que confundirá à população e impulsionará a compra de produtos não saudáveis. Parem de usar a rotulagem Nutriscore".

Mas, por outro lado, e embora com margem para melhorar, um estudo realizado por investigadores das universidades de Espanha e França assegura que a presença do logotipo Nutriscore nas embalagens aumentará a qualidade nutricional da compra dos consumidores. "Nutri-Score gerou uma melhoria nutricional de 9,3% em média nos cestos dos participantes", aponta este relatório. Além disso, nos países onde funciona há anos --na França desde 2017 e na Bélgica desde 2019-- este tipo de rótulo ajuda a efectuar compras mais saudáveis e a limitar o consumo de alimentos pouco saudáveis. E, fora da União Européia, a Chile e a Austrália também são pioneiros na utilização de ferramentas similares, com grande aceitação. Mas, para que seja eficaz, "é essencial acompanhar estas medidas com campanhas de informação que expliquem ao consumidor como empregar o sistema de forma correcta", conclui Gómez-Donoso.

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