O Processo Extraordinário de Regularização de Migrantes em Espanha encerrou o seu prazo a 30 de junho, com 1.174.968 pedidos apresentados ao Ministério da Migração, um número que ultrapassa as previsões iniciais. Esta medida veio à tona a situação administrativa de centenas de milhares de migrantes que já residiam e trabalhavam em Espanha de forma informal. Com mais de metade dos processos já admitidos para tramitação provisória, o Governo enfrenta agora o desafio de resolver a maior parte dos pedidos num prazo de três meses.
Os setores mais intensivos em mão-de-obra — como os serviços domésticos, a construção civil, a hotelaria e a logística de última milha — concentram a maior parte dos pedidos, colocando à prova as margens de lucro das famílias e das PME. Para analisar este impacto real e compreender que modelo de país se delineia por trás dos números, a Consumidor Global conversa com Guillermo J. Valderrábano, CEO de Extranjeriaclara.com, uma plataforma que tem gerido centenas de processos na linha da frente e cuja análise sustenta que a regularização não alterou a economia espanhola, mas sim revelou as suas fraquezas.
--Pergunta: O que é, exatamente, esta regularização extraordinária e que problema estrutural pretende o Governo resolver neste momento?
--Resposta: A regularização abre uma via extraordinária para pessoas que já viviam em Espanha e que há algum tempo tentavam regularizar a sua situação. Foram flexibilizados alguns requisitos em relação aos procedimentos habituais e, acima de tudo, os prazos foram consideravelmente agilizados. Para nós, foi uma grande surpresa. Vimos processos resolvidos em quatro ou seis semanas, com um NIE que já permitia trabalhar legalmente. Isso muda completamente o panorama.
--P: No ExtranjeriaClara.com já trataram de centenas destes casos. Que perfis de trabalhadores e empregadores têm atendido?
--R: O perfil tem sido muito claro. Mais de 80 % dos nossos processos dizem respeito a quatro setores: trabalho doméstico, construção civil, hotelaria e logística de última milha. Isso reflete onde existe uma maior necessidade de mão-de-obra e onde a regularização teve um impacto mais imediato.
--P: A sua empresa defende que a regularização está a revelar os custos reais dos quatro setores que menciona. O que é que a regularização nos está a revelar sobre a economia espanhola?
--R: Sim. Acho que a regularização nos colocou diante do espelho. Todos queremos salários dignos, emprego de qualidade e um Estado-providência forte. Mas depois ninguém quer pagar oito euros por uma cerveja.
--P: Esse "efeito espelho" é particularmente visível no setor do trabalho doméstico. Os dados apresentados são reveladores: 100% das trabalhadoras domésticas cujos processos estão registados comunicaram um despedimento ou um aviso de rescisão.
--R: Imensamente. O que temos constatado na nossa base de clientes é que 100% das nossas empregadas domésticas, que eram mais de 20, foram despedidas. Refiro-me apenas aos nossos registos, não ao conjunto do setor. Muitas famílias querem cumprir a lei. O problema é que, de repente, regularizar a situação pode significar um custo adicional entre 300 e 500 euros por mês. E não é que as famílias não tenham coração; é que se veem obrigadas a pagar mais pelo mesmo serviço e, neste momento, não conseguem suportar esses custos, essencialmente porque os seus salários também não aumentaram.
--P: E esse mesmo fenómeno pode aplicar-se a empresas com margens muito reduzidas.
--R: 94% são microempresas e PME. Nesse caso, mais do que o interesse em regularizar a situação, o que temos constatado em muitos casos é puro medo das multas e das sanções da Inspecção. Continuavam a prestar e a receber o serviço, mas, à medida que os custos reais vêm à tona, estão a ficar com menos colaboradores no quadro de pessoal, porque admitem que não conseguem arcar com as novas contribuições.
--P: Se os custos aumentam e as margens são reduzidas, a lógica diz que tudo vai ficar mais caro. Devemos preparar-nos para um aumento dos preços?
--R: Há setores que conseguem, de facto, repercutir o custo no cliente. Na construção, no que diz respeito às pequenas remodelações, os preços não têm parado de subir. Já aumentaram o orçamento ao cliente devido ao alumínio ou ao PVC, com a guerra na Ucrânia; agora, acrescenta-se ainda a Segurança Social da mão-de-obra e ele acaba por pagar; pode ser que faça remodelações mais pequenas, mas faz-as na mesma. O problema é que isso não acontece em todos os setores.
–P: Por exemplo?
--R: O comércio eletrónico, a entrega de comida ou a "última milha". Pedes comida ou fazes compras na Amazon, na Zara ou na Shein e não te perguntas quanto pagam ao entregador. Estamos a falar de pessoas que ganhavam dois euros por encomenda entregue. Se agora for preciso pagar a Segurança Social a essa pessoa, o que significa mais 200, 500 ou 700 euros por mês, a margem reduz-se a zero. Vão ganhar menos por encomenda ou vão ter de compensar esse dinheiro de outra forma, porque, na sua maioria, são trabalhadores independentes. O discurso político é muito fácil: ninguém quer que as pessoas estejam em más condições, mas quem é que se responsabiliza por pagar isso?
--P: Detetaram despedimentos preventivos "por baixo da mesa" antes do fim do prazo, para não deixarem rasto junto da Autoridade Tributária ou da Segurança Social?
--R: Não, nunca ouvi falar disso; as pessoas, em geral, não se apercebem dessa parte. Às vezes, os grandes problemas não são como um vulcão que entra em erupção e que se vê a aproximar. As pessoas vão seguindo o seu caminho, pouco a pouco. As famílias perceberam rapidamente que, ao fim de quatro ou seis semanas, o trabalhador regressava com um NIE a exigir o registo. E o que faziam perante essa exigência? Bem, decidiam substituí-lo e contratar uma pessoa que tivesse chegado precisamente a 1 ou 2 de janeiro deste ano (o Decreto Real exigia, entre os requisitos, ter entrado em Espanha antes de 1 de janeiro de 2026).
--P: Quando se faz uma lei, surge logo uma forma de a contornar. Quem chegou em janeiro já não é elegível para a regularização extraordinária.
--R: Claro, já não se aplica. Assim, as famílias sabem que têm dois anos de margem até que essa nova pessoa possa aceder à integração sociolaboral tradicional. Nesses dois anos, verão o que acontece, mas, por enquanto, mudam de trabalhador para contornar o custo imediato. E o mesmo aconteceu nas empresas. O mercado vai-se autorregulando e procura o que realmente consegue suportar, porque as famílias que têm ajuda doméstica em Madrid, Barcelona, Sevilha ou Valência não são abastadas; são pais que trabalham das nove às sete, com creches caras e que precisam de conciliar a vida profissional e familiar. Ao verem que a regularização era real e que o verão se aproximava, começaram os despedimentos.
--P: Então, será que a política de imigração falhou?
--R: Não creio que seja essa a interpretação. A regularização tem sido positiva porque permite que muitas pessoas saiam da situação de irregularidade. A questão é outra: o que fazemos a partir de agora para que o mercado de trabalho não volte a gerar novos focos de economia subterrânea. Esse é o verdadeiro debate.
--P: O Governo salienta que centenas de milhares de novos trabalhadores irão contribuir para a Segurança Social. Isso tornará a Espanha mais produtiva?
--R: Não necessariamente. Essas pessoas já estavam a trabalhar. Não estamos a criar novos postos de trabalho; estamos a registar empregos que já existiam. Do ponto de vista das contribuições, é uma excelente notícia. Mas a produtividade não melhora automaticamente só porque um trabalhador passa da economia informal para a formal. A produtividade melhora quando as empresas geram mais valor, não simplesmente quando aumentam os seus custos.
--P: O aspeto positivo foi a agilidade da Administração, que resolveu em semanas o que antes demorava meses. O que é que isto demonstra? O problema foi a falta de recursos, de organização ou de vontade política?
--R: Isso demonstra que é uma questão de vontade política. No nosso gabinete, obtivemos uma decisão favorável em 100% dos processos apresentados. Quem me dera que estes prazos se mantivessem sempre na legislação relativa aos estrangeiros, porque o colapso habitual não faz sentido: um mesmo processo demora o dobro do tempo, dependendo da repartição provincial ou da esquadra onde o se entrega. Aqui tem havido vontade política e iniciativas excelentes, como recorrer às ONG com o relatório de vulnerabilidade para aliviar a carga de trabalho dos assistentes sociais. Há alternativas quando há vontade.
--P: A pergunta mais difícil surge agora: o que acontece a todas as pessoas que, por diversas circunstâncias, estiveram prestes a cumprir os prazos exigidos, mas não o conseguiram? E o que acontece a todas as pessoas que entrarem de forma irregular a partir de agora?
–R:
Esse é o verdadeiro desafio. Obter um NIE não significa que vais ser contratado, significa que tens a possibilidade de seres contratado. E o que acontece com aqueles que ficaram a um passo de cumprir os requisitos ou com aqueles que continuam a chegar agora? Voltamos à lei dos dois anos de permanência contínua, à odisseia de conseguir registar-se no cadastro municipal e à necessidade de procurar um pré-contrato no mercado negro para poder regularizar a situação dentro de algum tempo. Voltaremos a ter exatamente os mesmos problemas. É ótimo ter um milhão de pessoas identificadas administrativamente, mas qual é o próximo passo?
Não podemos pretender ter as condições laborais dos países europeus se, depois, não aceitarmos o custo que isso implica. Esta regularização oferece-nos uma oportunidade extraordinária para decidirmos que tipo de economia queremos construir. Porque o debate já não se resume apenas à migração. É um debate sobre produtividade, salários, preços e sobre quanto estamos dispostos, enquanto sociedade, a pagar para que as coisas sejam bem feitas.
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