A reputação de Allzone, a controvertida empresa que comercializa produtos de eletrónica, parece sepultada baixo um aluvión de críticas e reclamações. Numerosos clientes têm contactado com Consumidor Global para fazer públicas suas experiências, que incluem pedidos que nunca chegam ou reembolsos que se tornam impossíveis.
Em redes sociais, a bola de neve do descontentamento não faz sina agrandarse. "Tenho um pedido em reembolso desde faz mais de um mês e não me chegou meu dinheiro. Em cima hoje volto a entrar e põe-me 'reembolso tramitado' quando isso é mentira, não tenho visto um centavo dos 430 euros que me deveis", protestou um cliente em X (antigo Twitter) o 4 de janeiro. Pelas mesmas datas, outro indicou que ia ir ao julgado de guarda "a denunciar por fraude", e um terceiro acusou à empresa de exercer "publicidade enganosa".
Críticas contra Allzone e reseñas negativas
Nesta linha, este meio fez-se eco recentemente do mal-estar de um tiktoker que recebeu ameaças depois de denunciar as práticas irregulares da companhia, e publicou que em outubro a justiça tinha condenado a Allzone por vender um móvel Samsung falso. Igualmente, as opiniões em foros de valorações são péssimas: em Trustpilot, por exemplo, há mais de 35.000 críticas, a imensa maioria negativas.
A tenor desta situação, surpreende que Allzone saque peito: a companhia emitiu um comunicado no final de dezembro no que dizia que 2025 tinha sido "um ano de lucros e resistência". Ademais, indicava que "a nomeação como Melhor Comércio On-line em Tecnologia por terceiro ano consecutivo reafirmou a solidez de seu modelo operativo e seu compromisso com a satisfação do cliente". A olhos de multidão de clientes, esta afirmação desafia toda lógica. Uma empresa que tem sido denunciada por OCU e Facua pode falar de satisfazer ao cliente? Como pode ter sido reconhecida com um galardão desse tipo?
Como funciona Comércio do Ano
O verdadeiro é que Comércio do Ano é um certamen cuja organização e celebração corre a cargo da entidade Gabaon, com sede em Andorra. Esta ensina outorga prêmios às marcas e lojas que em teoria são as mais valorizadas. Segundo explicam em sua página site, as empresas galardoadas podem beneficiar-se de ser conceituadas líderes em seu sector e exemplos em sua categoria. "Este selo de qualidade mostrassé tua excelência e seriedade para teus clientes, contribuindo confiança e garantia a tua marca", prometem.
Numa primeira fase, as companhias podem participar numa encuesta de votação num painel de 1.000 consumidores "representativos do mercado espanhol". Estes consumidores respondem a três perguntas sobre quatro marcas em diferentes categorias de retail.
Licença de participação
"Numa segunda etapa, para saber o que pensam teus clientes e ser eleito Melhor Comércio do Ano, Melhor Comércio On-line do Añou ou Melhor Serviço do Ano, tens que inscrever ao evento correspondente para que os consumidores que respondam na sondagem possam votar por tua marca", expõe a entidade. Isto inclui passar por caixa: há que pagar uma licença de participação cujo custo não se especifica.
"A avaliação é objectiva e inclui até 13 critérios definidos em função do tipo de comércio. Teu cliente tem a possibilidade de ganhar grandes prêmios se participa respondendo a encuesta. Os resultados vão-se comprovando continuamente por Qualimétrie, instituto de investigación e estudo responsável da sondagem", detalha Comércio do Ano. Agora bem, também não explicita quais são esses 13 critérios.
Uma campanha de imagem
Juan Carlos Gázquez Abad, professor de Comercialização e Investigação de Mercados na Universidade de Almería, explica a este meio que, como nota positiva, a entidade que organiza estes prêmios reconhece que recebe, de alguma maneira, um custo monetário que chama "licença".
"E, ademais, parece dar-lhe certa 'seriedade' ao processo de eleição, indicando quais são as fases do mesmo", agrega Gázquez, conquanto sentencia que, no fundo, se trata de uma campanha de imagem e de relações públicas.
Empresas com "certos problemas de imagem"
"São as marcas e as empresas que têm certos problemas de imagem as mais apropriadas para estes prêmios", aponta o professor. Neste sentido, a lista de ganhadores é enormemente plural: na última edição, na categoria de Cosmética Natural sobresalió A Botica dos Perfumes, em perfumaria Primor, em jardinería Leroy Merlin, em moda Cabo, em hotelaria McDonald's, A Tagliatella e 100 Montaditos; e em lojas de desporto Decathlon. Não todas são empresas envolvidas em controvérsia, mas sim parece que o que manda é o volume.
O que importa às companhias, prossegue Gázquez, é a credibilidade da mensagem, já que com um selo independente o cidadão escuta as "bondades" da marca de uma fonte externa que, em teoria, não tem nenhum interesse.
"Têm pouca credibilidade"
"Em outras palavras, é mais creíble que uma empresa que organiza uns prêmios diga que Allzone é uma empresa muito boa, modélica, etc., que não que seja ela mesma a que o proclame numa cunha publicitária na rádio", expõe.
Em definitiva, Gázquez desliza que estes prêmios "têm pouca credibilidade e que são, realmente, acções de relações públicas por parte de marcas que precisam melhorar sua imagem pública. A opacidade do processo (falam de 13 critérios, 1000 consumidores, três perguntas.... mas não detalham nada disso) é a melhor prova", conclui.
Lío com as datas
Um grande conhecedor do sector do comércio on-line que prefere permanecer no anonimato aclara como funcionam as datas: o prêmio do ano 2025 entrega-se em 2024, e faz referência a compras realizadas entre 2023 e 2024. Isto é, que os clientes votam por suas experiências passadas: se uma empresa faz-se com o galardão do 2025 (entregado em outono do 2024), o que se está a refletir é a actividade de outono 2023 (incluindo Black Friday e Natal do 2023).
Comparado com outros prêmios baseados em júris, relata esta fonte, os prêmios Comércio do Ano são diferentes porque votam os consumidores e depois auditam-se por um terceiro. "É simplesmente um prêmio com um mecanismo diferente ao habitual. Aqui, em Espanha, levam bastantees anos, mas são menos conhecidos que no França, onde são bastante prestigiosos e as top marcas costumam os exibir. Aqui em Espanha ganham-nos as top marcas do mercado, mas depois não são tão exibidos", revela.
Mobilizar aos compradores
A diferença dos prêmios Comércio do Ano, diz este experiente, os prêmios nos que profissionais do sector actuam como júri têm o inconveniente de que estes tendem a se votar entre si.
Assim mesmo, os prêmios baseados nas votações de consumidores têm o problema de que pode sair elegido algum candidato que é capaz de mobilizar a sua base melhor que outros. "Por isso destacaria os prêmios de Melhor Comércio do Ano, porque incluem uma capa de auditoria de uma auditora externa", defende esta fonte. Quanto aos problemas de Allzone, menciona que faz uns anos era uma empresa muito exitosa com muita rotação em vendas e "uns preços imbatibles". Por isso, acha que sua má situação atual não invalida o conseguido tempo atrás.