Fazenda terá que devolver a Shakira 60 milhões de euros: a Audiência Nacional reconhece que a cantora não defraudó à Agência Tributária

Shakira vence a Fazenda pelo exercício de 2011 e a Audiência Nacional descarta a fraude fiscal: a artista receberá a indemnização de 60 milhões de euros e a costa pelo julgamento

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Shakira volta a situar no centro da actualidade, ainda que desta vez não por uma estréia musical, uma gira internacional ou um aparecimento sobre um tapete vermelho. A artista colombiana tem recebido uma resolução favorável por parte da Audiência Nacional, que tem anulado a decisão do Tribunal Económico Administrativo Central de julho de 2021 na que se sustentava que a cantora tinha cometido fraude fiscal durante o exercício de 2011, tanto no Imposto sobre a Renda das Pessoas Físicas como no Imposto sobre o Património.

A intérprete, que numa de suas canções mais populares ironizava com aquilo de ter "a Fazenda na porta", fica assim exonerada das acusações relativas àquele ano e indemnizada com 60 milhões de euros. Segundo o critério do tribunal, não pode se considerar provado que Shakira fosse residente promotor em Espanha em 2011. A chave está em que a cantora passou mais da metade do ano fosse do país e, ademais, não contava então com os laços pessoais, familiares ou profissionais que a lei exige para estabelecer essa residência.

O ponto finque: a Audiência Nacional negou que existisse residência fiscal em Espanha

A falha supõe um giro relevante num dos capítulos mais delicados da relação da artista com a Agência Tributária. O tribunal conclui que não pode se afirmar que Shakira fosse residente promotor em Espanha naquele ano, já que não permaneceu no país o tempo mínimo exigido pela lei nem tinha então em território espanhol o centro principal de seus interesses pessoais, familiares ou económicos.

Fachada del Ministerio de Hacienda del Gobierno de España / EFE
Fachada do Ministério de Fazenda do Governo de Espanha / EFE

A chave do caso está nos conhecidos 183 dias. Para que uma pessoa seja conceituada residente promotor em Espanha, deve permanecer mais da metade do ano no país ou demonstrar vínculos económicos e pessoais suficientemente fortes. Segundo a Audiência Nacional, Fazenda não conseguiu acreditar que Shakira cumprisse esse requisito. A Administração sustentava que a cantora devia tributar em Espanha por aquele exercício, mas o tribunal assinala que, quando muito, sua estadia teria sido de uns 163 dias, somando jornadas confirmadas e outras supostas.

Uma gira mundial no centro do caso

Em 2011, Shakira vivia um momento profissional de grande intensidade. A artista estava inmersa numa gira internacional com ao redor de 120 concertos em 37 países. Sua agenda desenvolvia-se principalmente fora de Espanha, entre actuações, viagens e compromissos profissionais. Segundo sua equipa legal, naquele momento não tinha casa em Espanha, não tinha filhos e também não contava com uma sede empresarial no país.

Pese a isso, Fazenda reclamou à cantora o pagamento de impostos pelos rendimentos gerados durante essa gira mundial. A defesa da artista argumentou que a Agência Tributária não teve em conta adequadamente as despesas derivadas daquela actividade internacional, o que teria provocado um importante prejuízo económico para a intérprete.

A relação com Gerard Piqué, um dos argumentos de Fazenda

A sentença também desmonta outro dos argumentos utilizados por Fazenda: a relação sentimental que Shakira mantinha então com Gerard Piqué. Para a Agência Tributária, esse vínculo com um residente espanhol era um elemento que ajudava a sustentar a residência fiscal da cantora em Espanha. No entanto, os magistrados têm recusado essa interpretação e têm assinalado que uma relação sentimental não pode equipararse legalmente a um vínculo conyugal, que é o que contempla o regulamento.

Piqué con un reloj Casio, marca a la que patrocina a raíz de una de la canciones de despecho de Shakira / TWITCH
Piqué com um relógio Casio, marca à que patrocina a raiz de uma da canções de despecho de Shakira / TWITCH

A Audiência Nacional insiste ademais em que não se demonstrou que o núcleo dos interesses económicos de Shakira estivesse em Espanha. Ao invés, o tribunal destaca que a estrutura empresarial atribuída à cantora e o desenvolvimento principal de sua actividade profissional se encontravam fora do território nacional.

Mais de 60 milhões em jogo que agora voltarão ao bolso de Shakira

Como consequência desta resolução, Fazenda deverá devolver a Shakiràs quantidades abonadas em relação com este procedimento, uma cifra que superaria os 60 milhões de euros. Essa quantidade inclui as liquidações reclamadas e as sanções impostas, já que a Agência Tributária tinha considerado as supostas infracções como muito graves.

A artista tem reagido com alívio depois de conhecer a decisão judicial. Shakira tem afirmado que, após mais de oito anos de desgaste, a Audiência Nacional tem posto "as coisas em seu lugar". A cantora sustenta que nunca existiu fraude e que a própria Administração nunca pôde demonstrar o contrário porque, segundo ela, não era verdadeiro.

Em sua declaração, a colombiana também tem querido sublinhar o impacto pessoal que este processo tem tido em sua vida. Tem falado de anos de "verguenza e señalamiento público", campanhas que, a seu julgamento, danificaram sua reputação e noites sem dormir que terminaram afectando a sua saúde e ao bem-estar de sua família.

Uma vitória com mensagem e fechamento? O litigio ainda poderia continuar

Shakira lamenta que durante quase uma década lha tenha tratado como culpada dantes de que os tribunais resolvessem o fundo da questão. Também denuncia que a cada passo do procedimento fosse filtrado, distorcido ou amplificado mediáticamente, utilizando seu nome e sua imagem pública como advertência para outros contribuintes.

A cantora espera que esta sentença sirva como precedente e ajude a outras pessoas que se sentem desbordadas ante procedimentos fiscais complexos. Tem dedicado esta vitória a cidadãos anónimos que, segundo suas palavras, devem enfrentar a um sistema que em ocasiões os obriga a demonstrar sua inocência desde uma situação de desvantagem com o que isso implica de enorme desgaste económico e emocional.

A Audiência Nacional também tem condenado em costa à Agência Tributária, uma decisão que costuma se adoptar quando se recusam de forma completa os argumentos de uma das partes. Ainda assim, o caso poderia não estar fechado definitivamente, já que a resolução ainda pode ser recorrida ante o Tribunal Supremo.