A outra cara do calamar: que ocorre dantes de que chegue a nossa mesa
Um relatório alerta de abusos trabalhistas, pesca destructiva e escassa verificação de certificados de captura nas principais pesquerías mundiais de calamar
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Faz uns meses, Consumidor Global abordou a fraude do calamar e as dificuldades para saber que produto termina realmente na mesa do consumidor. A segunda parte dessa investigação olha agora à origem: as águas onde se captura boa parte do calamar que abastece a Europa e as falhas de controle que, segundo Environmental Justice Foundation (EJF), permitem que entrem na corrente de fornecimento produtos associados a abusos trabalhistas, pesca destructiva e escassa traçabilidade.
A organização tem publicado um relatório global baseado em cinco anos de investigação e mais de 430 entrevistas a pescadores que trabalhavam em navios de longa distância. O estudo centra-se em três grandes pesquerías: Atlántico sudoccidental, Pacífico sudoriental e Índico noroccidental, que em conjunto fornecem ao redor de 60% do calamar mundial. Segundo EJF, os mesmos padrões detectados inicialmente no Atlántico sudoccidental repetem-se nas outras regiões analisadas, e em alguns casos agravam-se.
Um sector que tem crescido mais rápido que sua regulação
Jesús Urios, responsável por políticas oceánicas de EJF, explica a Consumidor Global que o auge do consumo e a pesca de calamar é relativamente recente. "O boom do calamar vem da última década e meia ou duas décadas", assinala. Em sua opinião, as organizações internacionais encarregadas de gerir as pesquerías não têm adaptado ainda seus mecanismos de controle a esta expansão.

A situação varia segundo a região. No Atlántico sudoccidental, a experiente denúncia que não existe regulação específica para a pesca de calamar em alta mar. No Pacífico sudoriental sim há uma organização regional de pesca, mas "o calamar não tem sido regulado", pelo que a EJF considera que se trata de uma pesquería não regulada ou com uma regulação muito limitada. No Índico noroccidental ocorre algo similar: existe um organismo centrado no atum, mas não no calamar.
Abusos trabalhistas e mortes no mar
Um dos aspectos mais graves da investigação são as condições trabalhistas documentadas a bordo dos navios de longa distância. EJF afirma que mais de 92% dos pescadores entrevistados declarou ter sofrido ao menos sete indicadores de trabalho forçado. Entre eles figuram "jornadas excessivas, restrições de movimento, servidão por dívidas, violência física e abusos psicológicos", detalha Urios.
O pesquisador destaca que o mais impactante têm sido as mortes registadas nos barcos. "Ao longo destas investigações temos documentado 25 mortes em 20 navios. Todos de bandeira chinesa", afirma. Segundo o responsável por EJF, várias dessas mortes estavam relacionadas com doenças evitables como o beriberi, que se produz por falta de vitaminas, ou por ausência de atenção médica adequada. "Um dos trabalhadores morreu por apendicitis", apostilla.
Pesca destructiva e espécies vulneráveis
O relatório também descreve práticas conceituadas especialmente daninhas para o meio marinho. Entre elas aparece o aleteo de tiburón, consistente em cortar as barbatanas aos tiburones e os devolver vivos ao mar. "Morrem de fome pouco depois porque estes animais precisam as barbatanas para nada e caçar", assinala o experiente. Umas práticas proibidas na União Européia, mas não em outros países como Chinesa ou Taiwán.

EJF sustenta ademais que alguns navios capturam fauna marinha vulnerável, incluindo delfines, tortugas, tiburones baleia e mantarrayas. A organização considera que a ausência de regras claras e de vigilância efetiva facilita que estas práticas continuem.
O papel do transbordo em alta mar
A investigação identifica o transbordo em alta mar como um elemento finque para entender a opacidade do sector. Este sistema permite que um navio frigorífico recolha as capturas de vários barcos pesqueiros sem que estes regressem a porto, lhes fornecendo combustível, víveres e substituições de tripulação.

"Isto dificulta a traçabilidade porque se misturam as capturas realizadas de maneira justa e ética e as que não", explica Urios. Ademais, "temos visto uma correlação entre quanto mais tempo passam os tripulantes em alta mar, os abusos pioram exponencialmente. Se estás seis meses, voltas a porto e pode escapar, recuperate ou fazer outras coisas, mas se estás um ano e meio ou dois sem sair do barco… É bem mais difícil para ti como tripulante, têm esta sensação de impunidade", sublinha Urios.
Espanha, porta primeiramente do calamar na UE
O relatório sublinha a importância de Espanha no mercado internacional do calamar. Entre 2020 e 2024 foi o segundo maior importador mundial de calamar e sepia, com um valor de 5.300 milhões de euros, só por trás de Chinesa. Ademais, concentra o 50% das importações de calamar de toda a União Européia.

EJF reconhece que Espanha dispõe de um sistema de avaliação de riscos relativamente sólido e que pode inspeccionar mais de 70% dos desembarques diretos. No entanto, adverte de uma debilidade importante: entre 2020 e 2023 verificou-se em media só o 0,2% dos certificados de captura recebidos nos portos espanhóis, e mal o 0,01% foram recusados depois da verificação.
A dificuldade de saber de onde vem o calamar
Urios faz questão de que o principal problema é a falta de transparência. "É quase impossível saber que um lote de calamar tem sido pescado por este navio neste momento e, portanto, sê que tem tido abusos", afirma. O produto costuma passar por vários países e empresas dantes de chegar ao consumidor final, o que complica enormemente o rastreamento de sua origem.

O que sim tem podido comprovar EJF é que 47 importadores espanhóis têm adquirido calamar procedente de cinco companhias chinesas proprietárias de navios vinculados às práticas pesquisadas. A organização aclara que não pode afirmar que um lote concreto vendido em Espanha proceda de um barco determinado, mas sim que existe uma elevada probabilidade de que parte do produto comercializado esteja relacionado com empresas assinaladas por abusos trabalhistas e ambientais.
Que pode fazer o consumidor
Para EJF, melhorar o etiquetado é uma das chaves. Urios critica que muitas etiquetas se limitem a indicar uma zona de captura e não informem do tipo de arte de pesca nem da bandeira do navio que realizou a captura. Essa falta de uniformidade, sustenta, dificulta que o consumidor tome decisões informadas.

Enquanto não existam sistemas de traçabilidade mais robustos, Urios recomenda priorizar o produto de proximidade. "Se são calamares capturados por um barco espanhol, estão num armazém frescos em Espanha, eu apostaria por esse mais que pelo congelado, que em muitos casos vem destas pesquerías não reguladas", conclui.

