Um sociólogo adverte sobre a dieta de 'comer plástico' em TikTok: "Ninguém crê em sua morte"

O perigoso repto viral de "comer plástico" em TikTok: experientes alertam do risco para a saúde e de seu impacto nos adolescentes

o   2026 03 05T174535.001
o 2026 03 05T174535.001

Ainda que Internet já nos acostumou a todo o tipo de tendências, ainda há fenómenos capazes de surpreender. O último exemplo chega desde TikTok e volta a pôr o foco nos riscos de alguns reptos virales entre adolescentes. Nesta ocasião, o desafio consiste em algo tão desconcertante como comer plástico. Ou, ao menos, simulá-lo.

La peligrosa práctica del 'plastic eating' popular entre los jóvenes de China/ @Tiktok
A perigosa prática do 'plastic eating' popular entre os jovens de Chinesa/ @Tiktok

A prática, conhecida em redes como plastic eating, se difundiu especialmente entre jovens e tem gerado preocupação entre experientes em saúde. Baixo esta estranha proposta esconde-se o que alguns utentes têm baptizado como a "dieta do plástico", uma tendência que pretende enganar ao organismo para provocar sensação de saciedade sem ingerir calorías.

Um repto viral que simula comer plástico

Segundo explicam especialistas da Universidade Européia de Madri, o mecanismo do repto é aparentemente singelo: os participantes envolvem alimentos em filme transparente, mastigam-nos durante um momento e depois cuspem-nos sem chegar a engolí-los. A ideia, compartilhada em vídeos que acumulam milhares de visualizações, é que o cérebro interprete o acto de mastigar como uma comida real e reduza o apetito.

 

Em outras palavras, o objectivo seria emagrecer sem consumir alimentos. No entanto, os profissionais advertem de que não se trata de uma estratégia nutricional nem de uma dieta alternativa, sina de uma conduta potencialmente perigosa que pode afectar tanto à saúde física como à relação com a comida.

Os experientes advertem: não é uma dieta

Andrea Calderón, nutricionista e diretora do Mestrado em Nutrição, Composição Corporal e Metabolismo da Universidade Européia de Madri, é contundente ao analisar esta tendência. "Lou primeiro que há que deixar claro é que isto não é uma dieta no sentido habitual do termo", explica.

Posibles peligros de la dieta de comer plástico/ Dr.Oriol Lugo
Possíveis perigos da dieta de comer plástico/ Dr.oriol Lugo

A diferença dos telefonemas dietas milagre —como a dieta da alcachofa ou a conhecida "operação bikini"—, que podem carecer de base científica mas seguem sendo pautas alimentares, aqui se trata de algo diferente.

"O telefonema dieta de comer plástico não é simplesmente um plano alimentar mau proposto. É uma conduta de risco", adverte a especialista. Para Calderón, o gesto de mastigar alimentos para depois cuspir com a intenção de evitar as calorías reflete uma alteração na forma de relacionar com a comida.

Por que o corpo não funciona assim

O motivo é que a sensação de saciedade não depende unicamente do acto de mastigar. O organismo precisa que os alimentos cheguem ao sistema digestivo para activar diferentes mecanismos fisiológicos. "Nosso corpo requer que os nutrientes entrem no aparelho digestivo para desencadear os sinais hormonales que regulam a fome e a saciedade", explica a experiente.

 

Quando isto não ocorre, esses sinais não se activam correctamente. Por isso, ainda que mastigar possa gerar uma sensação momentánea, não existe um processo fisiológico real que respalde a ideia de que o corpo ficará satisfeito. O resultado pode ser, de facto, o contrário: manter a fome ou favorecer uma relação pouco saudável com a alimentação.

Riscos físicos para além da moda

A estas consequências somam-se os riscos físicos diretos. Manipular alimentos envolvidos em plástico dentro da boca pode provocar atragantamientos, aspiração acidental do material plástico ou problemas gastrointestinales se alguma parte chega a ingerir-se.

Os experientes advertem além de que este tipo de reptos se soma a uma longa lista de tendências virales que circulam em redes sociais e que, em muitos casos, implicam comportamentos extremos. Alguns destes desafios se viralizan com rapidez entre adolescentes, que gravam o processo e o compartilham em plataformas digitais para obter visualizações e reacções.

Por que os adolescentes participam nestes reptos

Por trás deste fenómeno há vários factores sociais e psicológicos. O sociólogo Francesc Núñez, professor da Universitat Oberta de Cataluña (UOC), tem explicado em diferentes análises que muitos jovens não são plenamente conscientes do perigo real que implicam estas práticas.

Segundo assinala, existe uma verdadeira sensação de invulnerabilidad própria da adolescência. Muitas pessoas entendem racionalmente que uma acção pode ser arriscada, mas não chegam a interiorizar emocionalmente a possibilidade de sofrer consequências graves como a de morirse.el expeto sociólogo o esplica asi:

" Freud diz que ninguém crê firmemente em sua morte, na possibilidade de que será mortal. Não pensam que lhes vá passar nada. Nos reptos virales existe essa inconsciencia de não achar que te possas morrer. Pode-se ser consciente do risco a nível racional, mas não emocional"

Essa distância entre a percepção intelectual do risco e a experiência emocional explica por que alguns reptos se seguem replicando inclusive quando seus perigos são evidentes.

A mensagem de fundo que preocupa aos experientes

No entanto, para além do possível perigo físico imediato, o que mais preocupa aos experientes é a mensagem que subjaz neste tipo de conteúdos. Normalizar a ideia de que há que evitar comer ou "enganar" ao corpo para não ingerir alimentos pode contribuir a reforçar condutas restritivas.

Una chica que se mira en el espejo / PEXELS
Uma garota que se olha no espelho / PEXELS

Segundo os profissionais da nutrição, este tipo de práticas pode favorecer uma desconexão progressiva dos sinais naturais de fome e saciedade. Em adolescentes e jovens, especialmente expostos à pressão estética e às mensagens que circulam em redes, isto pode converter numa porta primeiramente a transtornos da conduta alimentar.

Por isso, os especialistas fazem questão de que não se trata de uma moda inocente nem de uma simples excentricidade digital. "Estamos ante uma prática que trivializa comportamentos muito sérios que subjazem a um TCA", conclui Calderón.

Ante a expansão deste tipo de reptos, os experientes sublinham a importância da educação digital e alimentar. Famílias, docentes e profissionais sanitários coincidem na necessidade de fomentar uma mirada crítica para os conteúdos virales e de promover hábitos saudáveis, especialmente entre os mais jovens, num meio digital onde as tendências podem se propagar a grande velocidade