Pacotes sobre molhado: a realidade da partilha de Temu
Uma cena incómoda desvela mercadoria à intemperie, uma logística improvisada e uma impunidade da plataforma asiática à hora de levar a cabo esta prática
Na rua Muntaner, depois de uma manhã de chuva persistente, vários pacotes jazem directamente sobre a acera húmida. Não estão protegidos, nem apartados, nem ocultos à vista. Estão ali, no meio de Barcelona, expostos ao água, ao passo dos transeúntes e à possibilidade –nada remota- de ser extraviados. É uma imagem incómoda. Mas reveladora.
Os grandes sacos que há ao lado levam impresso o logotipo de Amazon, o que induze a pensar no gigante estadounidense como responsável pela cena. Mas bastou perguntar aos repartidores para desmontar a suposição. "São de Temu", responderam com naturalidad. "Nós repartimos para Temu", enquanto se giram para seguir atirando pacotes ao solo.
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A partilha de última milha
A presença de sacos de Amazon numa partilha de Temu ilustra a complexidade do ecossistema logístico atual. Temu, propriedade do conglomerado chinês PDD Holdings, opera baixo um modelo asset-light (ligeiro de ativos). A diferença de Amazon, que tem construído sua própria frota e rede de armazéns, Temu depende inteiramente de terceiros.

Em Espanha, a plataforma apoia-se numa rede capilar de alianças com operadores como Correios, SEUR, UPS, FedEx, DHL ou GLS. No entanto, a pressão pelo volume e os custos com frequência deriva numa corrente de subcontratación onde operam autónomos e pequenas empresas que trabalham para múltiplas plataformas simultaneamente, reutilizando o material que têm a mão –como sacos de outros operadores– para cumprir com as cotas.
A lógica do repartidor
Para compreender o ocorrido na rua Muntaner, Cristian Castillo, professor de logística, produção e operações da Universitat Oberta de Cataluña (UOC), tem seguido de perto este tipo de práticas. "As agências costumam proporcionar uma rota recomendada, mas os transportadores não estão obrigados à seguir estritamente", explica a Consumidor Global. "Em muitos casos, reorganizam os pacotes por sua conta para fazer a entrega mais eficiente", desvela.
Ante a falta de espaços adequados como centros de consolidação urbana ou micro hubs logísticos, a furgoneta fica pequena e a rua converte-se no armazém improvisado. Os repartidores esvaziam o veículo para ordenar os envios por códigos postales ou prioridades de entrega. "É uma prática que existe, mas não por isso é aceitável", enfatiza o experiente. "Sobretudo em dias de chuva. O cartón pode estragar-se, o produto danificar-se. Esta cena é inadmissível", comenta.
Falta de espaços adequados para o transportador
Assim mesmo, a má gestão não só põe em risco a mercadoria, sina que, ainda que se persegue a eficácia na partilha, o processo acaba sendo manual e lento. "Com os pacotes atirados no solo, é muito difícil fazer um agrupamento lógico. Há que revisar um por um. Não quisesse ser um dos clientes que está a esperar essa paquetería", reconhece o experiente em logística.
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Para Castillo, a solução passa pela profissionalização e o investimento em infra-estruturas: "Faz falta um local. Centros que permitam fazer essa consolidação de forma automática, utilizando tecnologia como a radiofrequência, sem recorrer a soluções improvisadas em plena via pública", argumenta. "A reordenação não pode se fazer a costa do cuidado da mercadoria. Isso não é negocial", remarca.
Europa, contra o pacote de baixo custo de Temu
A imagem dos pacotes molhados chega num momento crítico para plataformas como Temu ou Shein. A União Européia tem posto o foco sobre este modelo de negócio, preocupada tanto pela concorrência desleal como pela segurança do consumidor.

Bruxelas já prepara o fim da isenção de impostos para os pacotes de menos de 150 euros. Esta medida materializar-se-á numa taxa fixa de três euros por pacote a partir de julho de 2026. Ademais, Temu encontra-se baixo investigação por possíveis incumprimentos da Lei de Serviços Digitais (DSA) em matéria de segurança e pela suspeita de receber subsídios desde Chinesa, um assunto que preocupa às autoridades européias. Agora, a realidade de sua partilha também vem à tona.
Uma fotografia incómoda
O consumidor, seduzido pelo preço, rara vez vê o que ocorre dantes de que soe o timbre. Mas quando recebe uma caixa deformada pelo água, ou quando o pedido nunca chega, o custo real desse "chollo" se faz evidente.
A pergunta não é se esta prática danifica a imagem de uma empresa ou outra. A pergunta é que modelo de consumo se está normalizando quando se aceita que os pedidos se deixem no solo molhado de uma rua.
Temu, contactada por Consumidor Global, se escuda em que "não é possível confirmar se os pacotes estão vinculados a Temu".