O 'vending' é o inimigo mas podes vencê-lo
As máquinas expendedoras de comida são um actor relativamente novo que não tem vindo para ajudar a melhorar os hábitos alimentares dos consumidores; a escassa qualidade nutricional de sua oferta e sua apabullante ubicuidad são a chave, mas há solução
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Já seja que se esteja no trabalho, de viagem, no cinema, passeando pela rua ou onde fosse, muitas pessoas têm a necessidade de fazer pequenas comidas --sendo técnicos, colaciones-- entre as ingestões principais. A finalidade, em princípio, não é outra que a de repor forças num momento de pausa dentro da agenda quotidiana.
Não é algo exclusivo desta geração, teus pais, teus avôs e praticamente qualquer outra geração tem tido e terá, frequentemente, essa necessidade. Mas sem ter que levar a vista muito atrás: perguntaste-te como solucionavam teus pais essa quotidiana necessidade de parar um momento e comer algo enquanto estavam fora de casa? Recordo-te que não tinha vending.
A oferta é má (e ademais é difícil que seja boa)
O perfil nutricional dos produtos disponíveis numa típica máquina de vending resume-se numa palavra: ultraprocesado. Sim, é verdadeiro, há algumas excepções, mas contam-se com os dedos de uma mão e inclusive sobrar-nos-iam dedos. A oferta habitual consta de refrescos vários, bebidas afrutadas, snacks salgados (palitos de pan com sementes, patatitas ou similares de múltiplas cores... todos eles com os mais variados sabores), snacks doces (choco-coisas, bollos recheados de cremes diversos, galletitas, etc.) e sándwiches de surimi, de fiambres de duvidosa procedência e preparados em pães húmidos como uma esponja. No lado das honrosas excepções: água, frutos secos naturais ou minimamente acondicionados (que não são o habitual) e inclusive zumos.
Como se pode comprovar, nada fresco. Nada. As razões são fáceis de compreender. Por um lado, o produto fresco costuma ser mais caro e, pelo outro, jogam-se a perder num prazo bem mais corto que a oferta habitual. Ademais, requerem de uma logística e infra-estrutura mais cara, começando pela necessidade de que a máquina seja refrigerada. Por todas estas razões, pôr produtos frescos, não ultraprocesados, nas máquinas de vending resulta em maiores perdas para o revendedor e, por tanto, num pior balanço de contas. E como não interessa, não costumam estar presentes.
O perigo acrescentado é sua capacidade para colonizar espaços
Arrisco-me e, sem dados objectivos na mão, apostaria a que ninguém em nosso meio, seja a hora que seja, está a mais de 15 minutos de um refresco de bicha, de umas patatitas sabor Tijuana ou de uns palitos de pan mediterráneos sabor tomate e orégano. Podemos aceder a estas delicatessen no posto de trabalho, no cinema, nos centros escoares, pela rua ou inclusive em rota na autovía entre Albacete e Vigo. Nem que dizer tem que essa acessibilidade é similar se estás num comboio ou num avião. Verdadeiro é que, nestes últimos contextos, a máquina não estará (em muitos comboios sim) mas o surtido de mierdecillas nutricionais se personificará, tal qual, a pé de gasolinera, de solícito tripulante de cabine ou de vagão-cafeteria.
Esta disponibilidade extrema de opções pouco ou nada saudáveis não existia faz 30 ou mais anos. De modo que não podemos deixar de olhar às famosas máquinas de vending como um dos elementos principais que têm propiciado este meio malsano. A modo de irónica guasa, podes comprovar quantas máquinas de vending vês num sozinho dia em espaços públicos ou privados e, que compares este número, por exemplo, com o de desfibriladores.
Há soluções... só se queres
Poderíamos pôr-nos em plano fiscalizador e regular mediante reais decretos e demais a presença destas máquinas em centros sanitários, escolares ou onde for. Inclusive, também e nesta linha, poder-se-ia legislar ao respeito de seus conteúdos. São acções que já se empreenderam em outros países, por exemplo, França, Itália e Portugal o fizeram (com pouco sucesso prático, a verdade, mas aí está). Inclusive, o sector do vending, temendo o que se lhe possa vir em cima, se adiantou e tem proposto uma guia de boas práticas para um vending saudável. Em minha opinião o vending saudável é uma utopia. Claro que se pode realizar uma oferta a base de produtos "de mercado" sem ultraprocesados, mas me dá que os custos implícitos seriam pouco asumibles pelo sector, salvo que implicassem uns preços de venda desorbitados, em cujo caso os consumidores não aceitá-lo-iam. De facto, as escassas iniciativas que têm tratado de pôr fruta fresca nestas máquinas têm sido pouco exitosas, devido, como sempre, aos custos: o do próprio alimento em primeiro lugar, e o de ter que atirar aqueles que se punham maus dentro da máquina.
Sejamos razoáveis, tanto custa fazer uma mínima previsão de onde vamos estar a uma hora determinada do dia e nos levar algo preparado desde casa? Desde fruta a bocadillos, passando pelo água e os frutos secos, as opções são quase infinitas. É o que faziam nossos pais. E não, não tratar-se-ia de desandar o caminho, tratar-se-ia de avançar para um melhor prognóstico de saúde a partir de realizar melhores (e mais baratas) eleições alimentares. Por certo, esse tipo de decisões, vistas com os olhos de nossos filhos, também servirão como uma conduta educadora impagable. Atribui-se-lhe a Albert Einstein essa lapidaria frase que diz que "educar com o exemplo não é uma forma mais de educar, deveria ser a única".
