A manhã de uma sexta-feira qualquer em Barcelona é sinônimo de trajín. No bar Alegria, na rua Borrell à altura do emblemático bairro de Sant Antoni, o ir e vir de camareros e provedores antecipa o serviço do meio dia. Entre esse bullicio quotidiano, o local conserva intacta parte da esencia com a que abriu suas portas em 1899. Então não era o bar de tampas que é hoje, sina um autêntico "lugar de encontro", explica a Consumidor Global Tomás Abellán, atual proprietário do estabelecimento.
Por aquele então, o Alegria era um lugar onde jogar ao dominó, tomar um vermut a meia manhã ou um café pela tarde. Pouco mais. Durante a Guerra Civil, o bar fechou suas portas e a família que o regentaba se instalou a viver na planta superior, onde agora há mesas e comensales aos que servir. Foi em 2019 quando o bar caiu em mãos de Abellán, quase por acaso. "O local levava dois anos em traspasso e meu pai entrou e viu-o. Justamente o dono estava dentro e fecharam o trato", explica. Confessa, ademais, que quando entrou pela primeira vez e viu o sujo e velho que estava, lhe custou ver o potencial que oferecia. Pouco a pouco, acabou-o transformando num restaurante de comidas e jantares. Agora, ademais, acaba de abrir uma segundo Alegria em Gràcia e não lhe incomoda a palavra 'franquia', quem sabe se esse será o destino final deste mítico lugar. Sobre isto e alguns temas mais, falamos com Abellán.
--Como enfrentou a freguesia a mudança de bar a restaurante?
--Foi como transitar no deserto. Abrimos em setembro do 2019 e em março chegou o Covid. Durante estes meses, fomos mudando a oferta gastronómica a princípios de uma maneira mais drástica, depois pouco a pouco e explicando-lho à freguesia. Também mudamos os horários. Já não fazíamos turno seguido, não abríamos pela manhã, sina ao médio dia e fechávamos pelas tardes, que isso também significa que já não era uma cafeteria. Também ampliamos a oferta gastronómica com carnes, pescados, platillos mais elaborados e uma carta de vinhos mais extensa. Deu certo mas muitos meios dias e noites estávamos vazios.
--Sete anos após a abertura, tens inaugurado o segundo bar Alegria em Gràcia. Espera que se converta em outro clássico?
--Não. Não espero nada. Passou-me o que lhe passou a meu pai quando entrou aqui. Encantou-me o lugar e pus-me de acordo com a dona ao cabo de 10 minutos. Foi todo muito rodado e fazia tempo que queria abrir outro negócio porque me sentia com forças e me fazia ilusão mas não tenho nenhuma expectativa nem de números nem de sucesso. Só espero que seja um lugar no bairro no que se coma bem, se esteja agusto e um lugar recorrente.
--Mas, por que o quis abrir baixo o selo do bar Alegria? Poderia tê-lo chamado de outra maneira e oferecer algo similar.
--É uma marca com a que me sento muito identificado e me sento muito orgulhoso, é muito barcelonesa. Pensei em outros nomes mas tinha claro que queria fazer um bar mais de bairro com os mesmos platos que no Alegria. Pus-o/Pu-lo na balança e para mim tinha mais coisas boas que más.
--Barcelona é uma cidade com uma amplísima oferta gastronómica e há centos de lugares de tampas similares ao Alegria, basta com ter uma história detrás para conseguir uma identidade própria?
--Acho que não. Tentamos dar a máxima qualidade a todos os níveis possíveis, o melhor produto e uma boa equipa formada e com experiência, sommeliers, bons cocineros. Isto se traduz em ter um espaço com qualidade e com uma boa oferta gastronómica, que o bocado esteja rico e que o camarero seja simpático, carinhoso e educado.
--O comensal está mais predispuesto a pagar por um produto que seja de qualidade?
--Sim, de uma maneira consciente ou de uma maneira inconsciente, mais clara ou menos clara, mas tentamos que sim. Ao final o determinante é o serviço de sala, não a cozinha. Se uma ensaladilla está salgada ou o pão com tomate não está bem tostado, ao puerro lhe falta algo ou a que ou a tarta de queijo não é a melhor de Barcelona…. o cliente quer que esteja rico, lho passar bem e que a gente que lhe está a servir seja carinhosa, lhe olhe aos olhos, seja atenta, lhe mude o platito e lhe faça alguma sugestão. Também procuramos melhorar a cozinha mas o grosso é que os garotos e garotas de sala tenham recursos, estejam bem, tranquilos com bons horários e bom salário.
--É importante inovar na cozinha para seguir atraindo à freguesia ou funciona bem o de toda a vida?
--As duas. Há épocas e épocas mas prefiro ter os clássicos bem trabalhados. Procurar uma melhor batata, uma melhor ensaladilla… Prefiro ter a máxima qualidade possível nos clássicos que não fazer muitas sugestões e me esquecer dos outros.
--O bar mantém a esencia do que foram suas origens. Imagina-se o Alegria com outro tipo de estética?
--Não. Ainda que não o pareça, vou mudando muitas coisas. Temos reformado a cozinha, os banhos, temos posto mais climatizadores para o calor mas sempre seguindo a mesma linha estética.
--Vê-se abrindo um terceiro bar Alegria?
--Sim.
--Vê-o como uma franquia?
--Pode ser. A mim a palavra franquia não me molesta.